Havia dias em que a velocidade parecia insuficiente até para um homem que vivia em permanente estado de vertigem. Foi assim que, a 8 de dezembro de 1931, no autódromo de Littorio, nos arredores de Roma, Tazio Nuvolari aceitou um desafio que não cabia nos limites do asfalto. Ao volante do seu Alfa Romeo 8C 2300 Monza, teria como rival não outro automóvel, mas um biplano Caproni CA100, matrícula I-AAYG, conduzido pelo ás da aviação Vittorio Suster, capitão-piloto da Regia Aeronautica.
Antes do confronto principal, o público assistiu a outro duelo mecânico: Piero Taruffi, numa Norton 500, superou o aviador Furio Niclot Doglio, que pilotava um Fiat AS.1. Mas era o embate entre o automóvel e o céu que mantinha as arquibancadas em suspense.
Suster, veterano da Primeira Guerra Mundial e condecorado com a medalha de ouro por serviços prestados, representava o domínio do ar. Nuvolari, o “Il Mantovano Volante”, trazia consigo a audácia das estradas. O percurso, cinco voltas, totalizando 17 quilómetros, transformou-se numa linha de fronteira entre dois mundos. O Caproni cruzou primeiro, com 6min12s e média de 164,237 km/h. Ao Alfa Romeo restou a honra do segundo lugar, poucos metros atrás, como se o chão tivesse resistido o quanto pôde.
Quase meio século depois, a 21 de novembro de 1981, a história ganharia um eco moderno sob a bênção de Enzo Ferrari. Gilles Villeneuve, ao volante de um Ferrari 126CK, enfrentou um caça F-104S pilotado pelo tenente Daniele Martinelli. Desta vez, a vitória sorriu ao automóvel, uma revanche simbólica para a linhagem de Nuvolari.
Mas reduzir a lenda de Nuvolari a um duelo insólito seria ignorar a vastidão da sua epopeia. Nascido em 16 de novembro de 1892, em Castel d’Ario, Mântua, e falecido em 11 de agosto de 1953, o italiano conheceu o esplendor das vitórias e o silêncio das perdas pessoais. Pilotou motos e carros de marcas como Chiribiri, Bianchi, Bugatti, Maserati, Alfa Romeo, Auto Union e Cisitalia, colecionando triunfos nas Mille Miglia, na Targa Florio, em Le Mans e nos grandes prémios europeus, além da Taça Vanderbilt de 1936.
Entre os muitos duelos que travou — contra Achille Varzi, Giuseppe Campari e Hans Stuck — destacou-se a estratégia noturna nas Mille Miglia de 1930, quando perseguiu Varzi com os faróis apagados até a ultrapassagem final. Também enfrentou o próprio destino: atropelou um veado nos treinos para Donington em 1938 e desafiou recordes de velocidade com o Alfa Romeo Bimotore.
O seu feito mais célebre, porém, permanece o Grande Prémio da Alemanha de 1935, em Nürburgring. Com um Alfa Romeo P3 inferior em potência à armada alemã de Auto Union e Mercedes-Benz, venceu sob chuva e incredulidade. A organização, desprevenida, não possuía o hino italiano nem a bandeira, Nuvolari trouxe ambos. No “Inferno Verde”, a Marcia Reale ecoou diante das autoridades nazis e de milhares de espectadores, selando uma das vitórias mais improváveis da história.
Chamado por Ferdinand Porsche de “o maior piloto do passado, do presente e do futuro”, Nuvolari terminou a vida em recolhimento, fragilizado por problemas pulmonares e tragédias familiares. No túmulo, entre Mântua e Cremona, lê-se: “Correrai ancora più veloce per le vie del cielo” — correrás ainda mais veloz pelas estradas do céu.
Talvez por isso, naquele dia de 1931, quando desafiou um avião, Nuvolari não tenha perdido. Apenas antecipou o terreno onde, segundo a lenda, continua a correr.
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