23 de Novembro – Neve, Neblina e a Ré da Vitória – Dia 185 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Targa Florio, 23 de Novembro de 1919. Em meio a uma neblina intensa e uma pista coberta de neve, o líder da prova abre a última volta com uma liderança muito confortável. Ao frear para a última curva da corrida, perde o controle e bate em uma das arquibancadas. Os espectadores empurram o carro de ré até a chegada, o piloto cruza a linha, volta até o ponto da batida e completa a prova de frente, desmaiando instantes depois. Como chegamos até aqui? Hora de voltar para o início dessa loucura.

Após um hiato de 12 anos devido a Primeira Guerra Mundial, Targa Florio finalmente voltava a ser disputada. Sua 10ª edição contava agora com um percurso reduzido para 108km no circuito de Madoine. Apesar da redução de distância, as costas sinuantes das montanhas garantiam diversos perigos ao longo do trajeto. Entre seus 25 competidores, um jovem italiano chamado Enzo Ferrari fazia sua estreia nas pistas a bordo de uma CMN, Antonio Ascari pilotava um FIAT (sem escada), André Boillot alinhava com um Peugeot e René Thomas levava seu Indianapolis Ballot para a pista, o qual foi registrado tão tarde na prova que o próprio piloto teve que dirigí-lo de Paris até Napoli.

Andrè Boillot a bordo do Peugeot L 25

Como se as condições de pista já não fossem extremas o suficiente, uma tempestade devastadora depositou 5 centímetros de neve na pista durante a noite anterior à corrida. Entretanto, nada disso evitou a realização do evento e as 7h da manhã Enzo largava na ponta e era prontamente seguido por Ascari. Os pilotos encaravam agora uma mistura de chuva e sol, combinados com ventos fortes e o traçado coberto de gelo. A situação fez com os pilotos não só usassem máscaras, como também deixassem de utilizar seus óculos por conta da neve.

Com a corrida iniciada, Ascari foi o primeiro a ficar pelo caminho, deslizando na pista e simplesmente sumindo ao cair em uma ravina. O italiano só foi ser encontrado e resgatado na metade da prova. Na ponta, Boillot dominava a corrida apesar das condições climáticas totalmente desfavoráveis e após o primeiro giro já sustentava uma vantagem de 4 minutos em relação ao segundo colocado, René Thomas. Entretanto, o líder encontrou problemas logo no início da 2ª volta ao acertar um pequeno morro, voar quase um metro no ar e aterrissar em apenas duas rodas. Não fossem algumas pedras convenientemente colocadas, seu Peugeot teria despencado em um penhasco de 61m. de profundidade.

Nesse momento somos novamente lembrados de que estamos falando de outros tempos. Depois de uma experiência de quase morte, Boillot simplesmente tirou seu bólido das pedras e voltou para a prova, ainda sustentando uma boa vantagem na ponta. Quando Thomas partiu para o reabastecimento antes do último giro, foi informado que ainda estava acachapantes 7 minutos atrás do líder, o qual nem havia se preocupado em parar para reabastecer, tendo um dos mecânicos realizando o trabalho com o carro em movimento. René fez o que pôde para cortar a vantagem mas a tentativa desesperada apenas o levou a bater e abandonar a prova, entregando de bandeja uma liderança de 30 minutos para Boillot.

Enzo Ferrari com o mecânico Nino Berretta em seu primeiro Targa Florio a bordo do Milanese CMN – Costruzioni Meccaniche Nazionali Fonte: TargaFlorio.info

Com uma vantagem tão segura e condições tão delicadas, muitos teriam desacelerado e conduzido na ponta dos pés até a linha de chegada, no entanto, André manteve sua pilotagem arrojada desconsiderando qualquer conduta mais cuidadosa para preservar sua concentração. Eis que o inesperado interferiu novamente. Com a notícia da chegada iminente de Boillot para a bandeirada final, diversos espectadores desceram das arquibancadas e se posicionaram perto da linha de chegada para receber o herói que havia dominado as intempéries.

Contudo, Boillot foi surpreendido pela movimentação logo após contornar a última curva e acabou rodando na tentativa de evitar os espectadores, batendo na arquibancada principal a menos de 10 metros da linha de chegada. Compadecidos e de certa forma culpados, alguns espectadores começaram a empurrar o Peugeot invertido de André até a bandeirada, até que um jornalista apontou que o próprio piloto e seu mecânico precisavam empurrar o carro para que o resultado não fosse descartado. Apesar da exaustão e os machucados pelo corpo todo, o francês desceu de seu bólido e conduziu seu carro de ré até a chegada.

Tudo parecia estar resolvido, mas Ernest Ballot, dono do veículo anteriormente destruído por René Thomas, lembrou a dupla que cruzar a chegada de ré também era ilegal. Boillot, coberto de sangue, suor e lágrimas, então retornou ao ponto da batida e passou pela linha novamente, dessa vez com o carro apontando para o lado certo. Poucos metros depois de concluir a corrida e simplesmente exaurido de todo o esforço, porém vitorioso, André desmaiou. Como última nota inusitada em uma corrida simplesmente insana, dos 9 pilotos que foram capazes de concluir a prova, Enzo Ferrari foi o último.

E assim se encerra o registro de um dia em que a razão ficou em casa e conceito de coragem foi reescrito.

Antonio Moriondo na linha de chegada, as condições de corrida da época são resumidas por esta foto, poeira, chuva, neve e lama fizeram os competidores parecerem “palhaços” – Fonte: TargaFlorio.info

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.