20 de Julho – McLaren + Verstappen + Heidfeld + Alonso = Chris Amon – Dia 60 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

0 Flares Twitter 0 Facebook 0 Google+ 0 Pin It Share 0 Filament.io 0 Flares ×

Calma, antes que ofensas e xingamentos apareçam, não estou comparando o talento dos pilotos em questão, mas sim as circunstâncias anormais das carreiras de todos eles. Em algum ponto das suas vidas no automobilismo, Max Verstappen, Fernando Alonso, Nick Heidfeld e Bruce McLaren percorreram algum caminho que outrora havia sido trilhado por Chris Amon, um destaque no mundo da velocidade dos anos 60 e 70 que nasceu nesse mesmo 20 de Julho, em 1943.

lll Bruce McLaren

Tal qual Bruce, Amon era oriundo da Nova Zelândia, um fator que poderia complicar demais sua entrada no cenário automobilístico mundial. Isso porque as atividades do esporte eram ainda mais centralizadas na Europa no fim dos anos 50 e começo dos anos 60. Além disso, por se tratar de um país relativamente isolado e distante dessa bolha, as corridas locais se limitavam a pequenos campeonatos e subidas de colina. Diante desse cenário que dificultava sua ascensão, Chris se viu obrigado a apostar todas suas fichas na Tasman Series, um campeonato organizado na Austrália e Nova Zelândia pelas grandes equipes européias durante o inverno, com o intuito de encontrar novos talentos no período entre-temporadas.

Na edição de 1961, Amon atraiu os olhos de Reg Parnell, um chefe de equipe que comparou sua pilotagem com a de Juan Manuel Fangio. No ano seguinte, o britânico decidiu agir e ofereceu ao piloto a possibilidade de partir para as competições europeias apenas 10 dias antes da East Monday Goodwood, uma corrida de exibição da F1. Chris agarrou a oportunidade e logo correu para a Inglaterra. O neozelandês chegou e fez o molde do seu assento na sexta, se classificou no sábado e terminou a corrida em 5º no domingo. O desempenho foi suficiente para render um assento fixo em 1963, inclusive tendo Lucien Bianchi, avô de Jules, como companheiro de equipe em uma das etapas. Assim, meio no susto, começava sua longa jornada na Fórmula 1.

lll Max Verstappen

Ainda em 2014, o holandês surpreendeu o paddock ao se tornar o piloto mais jovem a participar de um treino livre aos 17 anos e 2 dias. Contratado para um dos assentos da Toro Rosso na temporada seguinte, Max passou a quebrar todo e qualquer tipo de recorde relacionado a juventude, culminando na sua vitória já pela Red Bull no GP da Espanha de 2016 aos 18 anos e 229 dias. Justamente esse caráter precoce de sua carreira traça uma semelhança significativa com os primeiros passos de Amon no esporte.

Filho de donos de ovelhas, o neozelandês aprendeu a dirigir ainda aos 6 anos de idade, sendo ensinado por um trabalhador de uma das fazendas da família. Apenas 10 anos depois, Chris participou de sua primeira corrida, partindo posteriormente para as subidas de colina. Sua estreia na Tasman Series foi aos 18 anos e aos 19 estreou na Fórmula 1. Antes mesmo de completar duas décadas na Terra, Amon já estava do outro lado do mundo construindo uma carreira no auge do automobilismo mundial e muito distante de família e amigos. Na classificação atual, Chris é o oitavo piloto mais jovem a largar em um Grande Prêmio, empatado com o russo Daniil Kvyat e apenas 14 dias atrás de Fernando Alonso, que ainda traça outros paralelos com Amon.

lll Nick Heidfeld

Durante sua longa carreira, Heidfeld se notabilizou por ser um piloto extremamente rápido e diversas vezes foi visto como o futuro do automobilismo alemão. Seu primeiro pódio ainda em sua segunda temporada na Fórmula 1 foi o melhor cartão de visitas para o seu talento, todavia, após alguns anos sem vitórias o alemão também foi obrigado a carregar uma outra fama não muito boa, a de azarado. Sua primeira pole veio em casa, no GP da Europa de 2005. Durante a prova, Heidfeld foi saltado por Raikkonen e Alonso, mas nem mesmo a falha catastrófica da suspensão do finlandês na última volta foi capaz de dar a vitória ao alemão, que se contentou com o segundo degrau do pódio. Três anos depois, Heidfeld se viu diante da oportunidade clara de vencer o GP do Canadá de 2008, mas uma estratégia superior e uma pilotagem impecável impulsionaram Kubica para a vitória. No mesmo ano uma tempestade bíblica castigou Silverstone e fez Massa rodar 6 vezes na mesma prova, mas Nick terminou novamente em 2º. Cinco corridas depois, Spa recebeu um festival de punições e acidentes e Heidfeld novamente cruzou a linha de chegada no 2º lugar. No ano seguinte, outro dilúvio suspendeu o GP da Malásia na volta 31, com Nick ocupando a 2ª posição. Ao todo foram 13 pódios, sendo 8 deles no segundo degrau, mas o alemão não foi capaz de vencer nenhuma prova na Fórmula 1.

Durante seus 13 anos na categoria, Chris Amon viveu um calvário muito parecido, por vezes com um requinte de crueldade ainda mais aguçado. O neozelandês somou 11 pódios, sendo 3 deles em 2º, entretanto suas duas maiores possibilidades de vitória não entraram nessa soma. Seu primeiro flerte sério com o triunfo veio no GP da Itália de 1971, em Monza. Chris garantiu a pole na casa das Ferraris e parecia se encaminhar para uma corrida dominante, uma vez que o 2º colocado havia sido quase meio segundo mais lento. De fato, Amon liderou com autoridade durante a prova, até que com apenas 9 voltas para o final sua viseira se soltou e forçou a redução do ritmo. O problema no capacete foi seguido por uma falta de combustível nos giros finais, a qual condenou o neozelandês ao modesto 6º lugar em uma corrida que parecia ganha. Na temporada seguinte, a pole por quase um segundo no GP da França parecia ser o sinal de uma vitória a caminho. Chris sumiu na liderança durante a corrida, mas na volta 18 o destino decidiu interferir novamente. A etapa estava sendo disputada no Circuit de Charade, que era localizado ao lado de um vulcão extinto, por isso, algumas pequenas pedra vulcânicas às vezes caíam no traçado. Chris acabou atropelando uma delas e sofreu um furo no pneu dianteiro esquerdo, sendo então forçado a voltar para os pits e entregar a liderança para Jackie Stewart, eventualmente terminando a prova em 3º. Tal qual Heidfeld, sua relação com a vitória na Fórmula 1 nunca deixou de ser apenas um flerte.

lll Fernando Alonso

Voltamos a falar do espanhol. Além de ser indiscutivelmente um dos melhores pilotos da história e ser um dos protagonistas de batalhas épicas com Michael Schumacher em 2005 e 2006, Alonso também é conhecido por estar no lugar certo na hora errada. Após os anos de sucesso na Renault, Fernando foi para a McLaren na mesma temporada em que a promessa, Lewis Hamilton, começava seu reinado na equipe inglesa. Relações difíceis causaram o retorno à equipe francesa em 2008, mas o time estava agora em franca decadência. Na sede por mais um título mundial, Alonso se juntou a Ferrari, mas foi vice-campeão em 3 das 5 temporadas pela equipe italiana, sempre esbarrando em Sebastian Vettel e sua Red Bull. Resolveu então retornar para a McLaren em 2015, confiando em uma nova aliança no time com a Honda, que voltava para a categoria almejando anos de glória. A parceria foi um tremendo tiro no pé e seu melhor resultado foi um modesto 5º lugar, ficando distante de qualquer possibilidade de vitória, apenas sonhando com mais um título mundial.

Amon, por sua vez, era amigo pessoal de seu compatriota, Bruce Mclaren, chegando inclusive a vencer as 24h de Le Mans de 1966 ao lado do neozelandês. A amizade também levou Chris a ser piloto de testes da equipe de Bruce em 1965, entretanto, quando começou a ganhar notoriedade no esporte e uma proposta tentadora da Ferrari apareceu, o piloto decidiu se juntar ao time italiano e destruiu os planos futuros da McLaren, que já contavam com ele. Amon encarou três temporadas tenebrosas em Maranello, sendo um 5º lugar no campeonato de pilotos seu melhor resultado na equipe. Em 1970 foi então para a March, uma nova equipe que prometia toda a performance e desempenho necessária para brigar na ponta. Chris amargurou uma 8ª colocação entre os pilotos e na temporada seguinte se mudou para a Matra, onde viu a repetição do pesadelo de confiabilidade visto na Ferrari. De 1972 em diante, Amon vagou pelo grid pulando de barco naufragando para outro e ficando cada vez mais longe das chances de brigar por vitórias e títulos.

Chris Amon deixou a Fórmula 1 sem sequer uma vitória e o legado de ser uma eterna promessa que não encontrou a situação ideal, um fenômeno próximo de David Coulthard, a seleção de 1982 e a eterna geração belga, os quais tinham tudo para ter o mundo nas mãos, mas na hora H simplesmente não alcançaram tudo que deveriam e sempre fazem os mais entusiastas sobre seus respectivos assuntos perguntarem: “Como isso foi acontecer?”

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.