Mansell e o paradoxo da personalidade • BP • Boletim do Paddock

Mansell e o paradoxo da personalidade

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lll Mansell e o paradoxo da personalidade na Formula 1.

Diferentemente da ‘ótica trivial’, os pilotos de automobilismo não são “superstars”, imbatíveis e frios dentro de um bólido, como pinta parte da imprensa e do público. 

Nesse sentido, como sugere sua autobiografia “Nigel Mansell – My Autobiography” (1995), o ‘leão‘ não rugia como pintavam alguns do paddock, sendo um cara até meio frágil nas pistas.

Diferente de boa parte dos pilotos de sua época, o inglês era um cidadão alto, parrudo e bigodudo, não sendo o tipo “ideal” para um carro desenhado para pessoas menores, por questões aerodinâmicas e históricas.

Por não ser tão gordo e excêntrico como Keke ‘fumaça’ Rosberg, Mansell poderia muito bem esnobar toda a concorrência nas corridas mais difíceis do calendário, ganhando provas sem sofrer tanto fisicamente. Porém, não era isso que acontecia.

Não foram poucas as vezes em que ele terminou a corrida mancando, cambaleando ou simplesmente recebendo atendimento em um centro médico.

lll Os motivos do ‘frágil’ leão

A saber o porquê de tanto sofrimento, tem quem diga que o ‘leão’ era meio chegado a um drama, a fazer papel de vítima e tal. Outros dizem que o britânico não fazia tipo. Eu tenho a impressão de que ele era bem sucedido na missão de se ferrar.

Ainda assim, Mansell viveu vários dramas nas pistas, em especial em 1984, no GP de Dallas. Para ser gentil, a pista era uma bela bosta — e o calor de 35°C também não ajudava. 

O inglês largou na pole e liderou a prova até a 35ª volta.

Porém, com o desgaste de pneus, acabou por perder várias posições e caiu para quinto. Nos últimos metros da prova, dores antes restritas ao corpo surgem em sua têmpora. Não satisfeito, o “destino judiou mais uma vez do inglês” e o câmbio de seu Lotus quebrou.

Com isso, Nigel não pensou duas vezes: pulou do cockpit e começou a empurrar o bólido até a linha de chegada.

Todavia, o estridente calor e o cansaço não colaboraram. Escutando zunidos em sua mente e bastante ofegante, Mansell tombou desmaiado em cima da roda traseira de seu carro após apenas alguns metros.

O inglês não cruzou a linha de chegada e nem precisou de tanto: o sexto lugar já estava garantido.

Bem como hoje — o regulamento não permitia empurrar o carro — mas Nigel cagou pros fiscais e tentou trazê-lo para a linha de chegada.

Tensão e raiva propulsavam aquela última tentativa desesperada que não durou aqueles poucos metros, com o piloto desmaiando segundos depois. 

Após ser levado por socorristas do autódromo pelos braços, e agora recuperado, o inglês foi longamente aplaudido pelos fãs nas arquibancadas, que aplaudia o gesto heroico do britânico, que buscou forças para retribuir o carinho recebido com uma breve saudação. Mais ‘leão’ impossível.

lll A personalidade ‘frágil’ em contraste com o biotipo de ‘leão’

Conforme revela em sua autobiografia, Mansell e sua personalidade ‘lutadora e desconfiada’ são fruto de bullying sofrido na adolescência.

Durante sua juventude a família constantemente mudava de cidade, fruto da logística proporcionada pela profissão do pai, um conceituado engenheiro aeroespacial da pacata Upton, em Worcestershire, sul da Inglaterra.

Mansell e sua futura esposa Roseanne, no autódromo Cadwell Park em Lincolnshire, 1972.

O jovem Nigel estudava em “Wellsborne School“, uma escola de alto nível, localizada em Birmingham, em que gostava demais. Só que a escola fechou e o mandaram pra uma outra chamada “Hall Green Bilateral”, que era totalmente o oposto, com um monte de “gente da pesada querendo ser mais valentão do que o outro”, para a qual fora transferido no meio do ano. 

Analogamente, sua autoestima piorara, muito graças as intimidações feitas pelos ‘colegas’, embora “sentasse a mão em quem o provocasse”, levando as consequências para a diretoria, por ser maior e etc.

lll Mansell e sua juventude ‘cruel’ e ‘terrível’ 

Nesse ínterim, o piloto utilizara os dois adjetivos acima para descrever, ao longo de duas páginas, sua infância e pré-adolescência em Birmingham. Em um longo desabafo o campeão mundial de F1 em 1992 diz que seus colegas de turma ficavam enciumados com as ‘regalias’ que recebia da diretoria do colégio.

Em suma, as regalias consistiam em licenças para faltar em até uma semana inteira de aula pra poder ir disputar provas de kart em países vizinhos (na Inglaterra, caso você represente o país, tal licença é emitida), até que certo dia o diretor fez a cagada de anunciar no autofalante da sala que ele ficaria ausente uma semana, pois iria correr de kart na Suécia.

No recreio, de costas para uma rodinha de estudantes, Nigel recebeu um taco de Críquete em suas pernas, caindo em seguida, sendo espancado por vários alunos daquele turno

Posteriormente, o piloto disse que esse período da vida (juventude) fez com que ele criasse uma ‘casca’ para encarar “um bando de pilotos durões e sem escrúpulos” como Senna, Piquet, Prost etc, e que depois disso “nunca ambiente nenhum na vida o intimidou“.

Definitivamente Nigel Mansell e sua história representam o paradoxo da personalidade.

Referência: Mansell, N., Carrington, N., & Allen, J. (2006). Nigel Mansell: My autobiography. London: Royal National Institute of the Blind.

Faviëre

Formula 1 e bastidores, análise tática do Futebol, romances de espionagem e cerveja. Sempre torci pelos vilões e minha equipe favorita na F1 é a pior do grid.