Jacky

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| Por: Eduardo Casola Filho

lll Série 365:  Jacky – 02ª Temporada: dia 225 de 365 dias.

(FlatOut Brasil)

Estar no panteão dos maiores pilotos da história do esporte a motor, geralmente, se mencionam os campeões da Fórmula 1. Afinal, chegar ao topo na competição mais famosa do mundo é um pré-requisito básico. No entanto, há quem chegue no olimpo mesmo sem o tão cobiçado caneco. E nessa categoria, um belga nascido no primeiro dia de 1945, mostrou ao longo dos anos que é possível estar neste rol, mesmo que por caminhos fora do comum.

Nascido como Jacques Bernard Ickx, o filho de um jornalista de automóveis, também conhecido pela alcunha de Jacky Ickx, levou 16 anos para despertar a paixão pelos esportes a motor. Apesar de acompanhar o seu pai nas competições automobilísticas, o despertar da vontade de guiar começou aos 16 anos, quando ganhou uma moto Zundapp de 50 cc para participar de provas na sua terra natal. Desde então, Jacky Jr passou a primeira metade da década de 1960 correndo em praticamente todo tipo de veículo com rodas e motor em toda a Bélgica (e vencendo).

A partir de 1966, Ickx cumpre as obrigações com o exército e retorna para correr pela Europa, em provas de Endurance, além de etapas dos europeus de Fórmula 3 e de Fórmula 2. Nestas últimas correndo a bordo da equipe Matra, dirigida por Ken Tyrrell. Jacky já se torna uma referência em Spa-Francorchamps, ao vencer as 24 horas de 1966 e os 1000 km de 1967, consolidando seu nome numa das principais pistas do mundo.

O primeiro show em Nurburgring (Continental Circus)

Porém, a pista favorita de Jacky Ickx era Nurburgring-Nordscheiffe, o inferno verde. Em 1967, decidiram que, como o circuito era muito longo e o grid das provas de Fórmula 1 e Fórmula 2 naquela edição não tinham muitos carros, os bólidos das duas categorias iriam alinhar ao mesmo tempo. Aquela era a chance para a molecada se mostrar, e o belga se aproveitou!

Ickx, pilotando um Matra da F2, conquistou o terceiro tempo no treino classificatório geral, isto é, incluídos os carros da categoria máxima! O novato belga havia deixado para trás nomes como Jackie Stewart, Jack Brabham, Graham Hill, Bruce McLaren, entre outros (e todos com carros de F1). É certo dizer que a diferença técnica entre um carro de F1 e F2 naquela época era menor em relação a hoje, mas o feito de Jacky deixou a todos boquiabertos.

O segredo: Para os jornalistas e fotógrafos da época, Ickxexplorava mais os limites da pista, a ponto de, no trecho de grande declive, em que os carros saltavam, o Matra do belga decolava numa altura bem maior que a dos demais.

No dia da corrida, Ickx, teve que largar no pelotão de trás, já que o regulamento exigia que os F2 tinham que largar mais atrás dos carros da F1. Mas isso não abalou o belga, que foi subindo posições com ultrapassagens e abandonos dos favoritos, chegando ao quarto posto geral na metade da corrida, mas a agressividade da juventude custou caro: Em um dos seus saltos, a suspensão do Matra não aguentou e cedeu. Apesar de não terminar, o garoto de Bruxelas de um show w chamou a atenção de todos no paddock.

Ainda em 1967, Ickx teve a sua primeira oportunidade na F1, a bordo de um Cooper-Maserati no GP da Itália, em Monza. Jacky não decepcionou na sua primeira corrida oficial pela categoria. Largando em 15º, o belga sobreviveu aos problemas e conseguiu terminar em sexto, pontuando na sua estreia.

Logo de cara, uma vaga na Ferrari (Continental Circus)

Logo, o seu passe começou a ser disputado a rodo pelas grandes equipes. Para 1968, o destino de Jacky na categoria máxima foi a Casa de Maranello. Na temporada, Ickx tem seus problemas, mas logo vai mostrando seu potencial e vence a primeira corrida na carreira, circuito de Rouen-Les-Essarts. Ainda conquistou a primeira pole da carreira em Nurburgring, e pódios nas etapas de Brands-Hatch e Monza, terminando a temporada em quarto, com 27 pontos.

A campanha poderia ter sido melhor se o belga não tivesse fraturado a perna em um acidente no Canadá, o que lhe fez perder também a edição das 24 horas de Le Mans de 1968, que ocorreu em setembro, devido ao Movimento de Maio ocorrido na França.

Recuperado, Ickx partiu com tudo em 1969. Após tentar uma experiência na NASCAR, ao tentar se classificar para a Daytona 500 (não participou da prova por conta de um acidente), o belga se transferiu para a Brabham, além de participar de provas de longa duração com o Ford GT 40.

Com o lendário carro da marca do ovalo azul, Ickxpilotaria pela equipe John Wyer Engineering, nas 24 horas de Le Mans, ao lado do inglês Jackie Oliver. Apesar do GT 40 não demonstrar a mesma força do passado, ante o novo Porsche 917, o belga entraria para escrever a história de forma intensa. E foi o que ele fez.

Antigamente, a largada Le Mans (cujo nome é devido a sua prática em La Sarthe) dava início à prova de longa duração, com os carros alinhados na mureta de proteção e os pilotos do outro lado da reta aguardando a ordem para correr em seus carros, fechar a porta, afivelar o cinto e ligar os motores para acelerar fundo no início da corrida. Este procedimento foi realizado até a edição de 1969.

E por que ele foi abortado depois disso? Bom, o nosso personagem tem muito a ver. Jacky Ickx achava aquilo uma estupidez sem tamanho, pois muitos pilotos ignoravam a etapa de afivelar os cintos e seguiam a primeira parte da corrida sem a condição ideal de segurança. Eis que, na largada daquela edição, enquanto todos os demais corredores saíam em disparada e entravam nos seus carros o quanto antes, Jacky apenas caminhou lentamente até o seu Ford GT 40 e fez todos os preparativos com calma e segurança.

Ainda na primeira volta, os deuses do automobilismo deram razão a Ickx. O Porsche 917 do inglês John Woolfeperdeu o controle no trecho da Maison Blanche e bateu forte, com o tanque de combustível voando e acertando em cheio a Ferrari 312P de Chris Amon. Woolfe não estava com o cinto afivelado e o seu carro ficou em chamas. Com este cenário caótico, o piloto britânico faleceu no local.

Mesmo ficando bem para trás no começo da corrida, o Ford de Ickx foi galgando posições e, na manhã do domingo do dia 15 de julho de 1969, faltando seis horas para o final da prova, o Ford GT 40 já estava disputando a liderança com o Porsche 908 do francês Gerard Larroussee do alemão Hans Hermann.

Nas últimas horas, Ickx e Hermann disputam a ponta curva a curva, com os dois trocando posição em vários momentos. Em uma das disputas mais intensas da história das 24 horas de Le Mans, Jacky conseguia vencer por 120 metros, vencendo pela primeira vez uma das mais tradicionais provas do automobilismo e garantindo o quarto triunfo seguido da Ford na prova francesa.