Emerson Fittipaldi começava a defender seu título

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Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 28 de Janeiro, Emerson Fittipaldi começava a defender seu título – 01ª Temporada: dia 252 de 365 dias.

Começo de ano é época de pensar no início do campeonato. Nos dias atuais, o mês de janeiro é dominado pela silly season e pela espera das apresentações das liverys das equipes, mas na década de 70 a Fórmula 1 fugia do inverno europeu migrando para o hemisfério sul a fim de dar aos fãs de automobilismo as primeiras emoções da temporada. Por isso nessa série estamos na época de relembrar os GPs ocorridos na casa dos hermanos, como já fizeram mestre Cristiano Seixas e nossa primeira dama Débora (aqui e aqui).

Longe de chegar à competência da dupla, vou lembrar hoje do pontapé inicial de uma temporada clássica e trágica.

Fonte: Ointres.se

A primeira prova de 1973 aconteceu no dia 28 de janeiro no Autodromo Municipal Ciudad de Buenos Aires, circuito permanente de 3,3km que estava naquele ano recebendo o chamado X Gran Premio de la Republica Argentina. Antes de desembarcarmos lá, vamos olhar um pouquinho mais no retrovisor e ver o que tinha acabado de acontecer:

lll Previously, in Formula 1…

A temporada de 1972 foi disputada entre a Lotus de Emerson Fittipaldi e a Tyrrell de Jackie Stewart, e o Rato tinha trazido o caneco para o Brasil pela primeira vez. A torcida canarinho estava com tudo: éramos donos da Jules Rimet, tínhamos o atual campeão mundial de F1 e a segunda prova do campeonato seria disputada no Brasil, pela primeira vez de forma oficial. Colin Chapman, o dono da equipe, queria mais e, a fim de estimular a disputa interna para tirar o melhor de seus pilotos trouxe o sueco Ronnie Peterson, vice de 71, para dividir os boxes com Emmo. Ken Tyrrell manteve Stewart e o menino prodígio francês François Cevert. El bigodón Clay Regazzoni saiu da Ferrari para a BRM por um caminhão de dinheiro, graças a um piloto pagante da equipe, um tal de Niki Lauda. A Ferrari, que vinha com um carro com três anos de idade, continuava com Jacky Ickx e, para o assento de Regazzoni trouxe outro carcamano, Arturo Merzario. A Brabham iria correr as duas primeiras em casa, com Carlos Reutemman e Wilson Fittipaldi. E a March, após perder Peterson, iria com apenas um carro próprio guiado por Jean-Pierre Jarier, mas estava vendendo chassis para quem quisesse – um dos compradores foi um playboy britânico chamado Alexander Hesketh, que chamou seu amigo também britânico e também playboy James Hunt para pilotar.

Na esfera política tínhamos estremecimentos internos e externos à Federação, estes com a volta do caudilho Perón à Argentina causando manifestações a favor e contra, o que chegou a fazer o GP ser cancelado e depois reconfirmado e diminuiu o grid para apenas 19 carros. Internamente a categoria estava tendo que lidar com uma nova entidade criada para defender os interesses dos construtores chamada de FOCA, encabeçada por Chapman, Tyrrell e o novo dono da Brabham, um cara de 42 anos chamado Bernie Ecclestone.

Agora que estamos todos situados, vamos ao final de semana ensolarado que abriu a temporada. No sábado todos foram surpreendidos pela pole de Regazzoni, batendo longe o recorde da pista com a BRM calçada com pneus Firestone e impulsionada por motor próprio (além da equipe, apenas a Ferrari não estava usando os Ford Cosworth dominantes). Emerson dividia a primeira fila. Logo atrás vinham Ickx e Stewart, seguidos na terceira linha por Peterson e Cevert.

No dia da prova o autódromo foi tomado por 100.000 cabeças de gasolina, dez mil deles vindos do Brasil. A largada já mostraria que o valor da viagem estava pago; a primeira curva foi feita por três carros lado a lado: Regazzoni, Fittipaldi e um impressionante Cevert, que saltou de sexto para assumir a ponta até que o suíço a recuperasse na curva seguinte. Stewart não largou bem e caiu para a oitava posição.

Fonte: Continental Circus

O piloto da BRM tentava abrir vantagem para o francês, mas não conseguia deixar mais de três segundos entre eles. As duas Lotus acompanhavam de perto, e sir Jackie remava no pelotão intermediário, aproximando-se. Na volta 29 das 96 (isso não foi erro da revisão, a prova teria NOVENTA E SEIS voltas) Regazzoni já estava lutando com o desgaste de pneus causado pela perseguição intensa e não conseguiu mais resistir aos ataques de Cevert, que tomou-lhe a liderança. Antes que as Lotus pudessem se aproveitar da situação Stewart surgiu como um raio e de repente tínhamos uma dobradinha da Tyrrell na liderança. Emerson e Peterson, a dupla sertaneja da Lotus, vinham atrás e os quatro carros formavam um pelotão separado na dianteira da prova, mostrando que provavelmente teríamos uma reedição da disputa do campeonato de 1972.

O calor formava bolhas nos pneus, e Stewart parecia o mais afetado. Não lhe ajudava em nada a pressão que Fittipaldi fazia logo atrás. Ronnie Peterson não conseguiu manter o ritmo e na volta 67 seu motor foi para os ares. Logo em seguida, depois de uma disputa maravilhosa, o brasileiro conseguiu a ultrapassagem e partiu à caça da outra Tyrrell, provocando urros de entusiasmo na plateia.

Fonte: Pinterest

Com o campeão do mundo vindo babando e tirando a diferença, a pressão aumentava no cockpit de François. No giro 79 Fittipaldi marcava a volta mais rápida da prova – a primeira de sua carreira – e já estava vendo a ferrugem da caixa de câmbio da Tyrrell. Mas Cevert estava decidido a não cometer erros, e os dois pilotos faziam o circuito colados volta após volta. A dez do fim da prova, o brasileiro mostrou que ainda tinha um truque na manga: na curva 10 conseguiu um espaço para enfiar o seu carro por dentro; daí foi “só” jogar as duas rodas na zebra, deixar para frear depois que seu anjo da guarda já tinha abandonado o posto achando que iria dar merda na chicane e rasgar a reta principal em primeiro, para delírio da galera no autódromo.

Fittipaldi começava muito bem o campeonato. Cevert, mesmo terminando em segundo, confirmava-se como estrela em ascensão, e Stewart segurava um importante terceiro lugar. Fechando a zona de pontuação vinham a Ferrari de Ickx, a McLaren de Denny Hulme e a Brabham de Wilson Fittipaldi, que marcou o primeiro ponto da sua carreira.

Fonte: Getty Images

lll Fora das Pistas

Nasceram no dia 28 de janeiro nosso querido piloto Takuma Sato, o eterno goleiro da seleção italiana Gianluigi Buffon e o diretor de cinema Frank Darabont, responsável pelas melhores adaptações de histórias de Stephen King para as telonas – Frank dirigiu Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre e O Nevoeiro.

E nesta data em 2009 perdemos William Norris “Billy” Powell, roadie que virou tecladista do Lynyrd Skynyrd. Billy estava no desastre de avião que vitimou parte da banda em 1977, sendo o único membro do grupo sobrevivente que recebeu alta hospitalar a tempo de acompanhar os funerais de seus amigos.
Como eu me lembro de já ter tocado Lynyrd por aqui, vou deixar vocês com a divertidíssima All Summer Long do Kid Rock, que foi composta sobre um sampler de Sweet Home Alabama e que tem Billy nos teclados.
 
lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.