Em relacionamento complicado com o esporte a motor

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2018 tem sido um ano ainda mais difícil para ser mulher e fã ou envolvida com esporte a motor.

Começamos com Carmen Jordá sendo escolhida como representante das mulheres na FIA, o apedrejamento de nós todas devido ao fim das grid girls, e agora a groselha mais recente que nossa representante, Jordá, soltou na sua última entrevista na fórmula E.

Por ter muitos amigos que sabem do meu amor infinito por carros e corridas, e neste meio, alguns deles saberem que tenho uma opinião sobre mulheres no esporte a motor, respondi N mensagens em grupos e em redes sociais, assim como causei e comprei infinitas tretas em temas relacionados, e na verdade é por isso que estou escrevendo este texto. Estou pagando um débito comigo mesma.

lll Primeiramente, sobre as grid girls…

O lugar de uma mulher não é onde ela quiser? Então por que não pode ser grid girl?

Vocês estão entendendo errado. Uma mulher pode ser o que quiser, claro! O problema é como o ambiente reage a presença delas. Na verdade, essa decisão é muito mais para educar o público do que propriamente sobre elas.

As grid girls tinham apenas a função de “embelezar” o grid. Só que para isso, elas ignoravam o público assediando, e algumas condições de trabalho nada agradáveis.

Se elas estivessem lá representando uma marca, para a venda de um produto, ok, elas seriam como a Gisele Bündchen na propaganda da Vivara, por exemplo. Eu sou apaixonada pela Gisele, e sempre tenho vontade de comprar as joias que ela anuncia.

O caso é que elas não vendem nada. Não agregam, e ainda por cima trazem a imagem de objeto. Um vaso de flores embeleza um ambiente, não uma pessoa.

ah mas só quem fala isso é mulher feia

Feio é conceitual. Eu, por exemplo, acho o Neymar feio. A Bruna Marquezine o acha maravilhoso, e nem por isso acho que ela ou eu devemos brigar por isso.

A decisão veio da Liberty Midia, uma empresa que tem suas diretrizes, e se eles acham machista, ou que faz mal a imagem deles, eles têm o direito de tira-las, ou substitui-las por crianças, como aconteceu.

lll Agora, sobre mulheres no esporte a motor, Carmen Jordá e o real problema da entrevista…

Para quem não sabe o que Carmen Jordá falou, aqui está a entrevista, na íntegra: Formula E easier for women than F1, says Carmen Jorda

Jordá disse que as mulheres deveriam focar na fórmula E, por ser mais fácil fisicamente, ao invés de focar na Formula 1.

Carmen Jordá realizando testes em Sebring Raceway para Walker Racing Foto: Jonathon Ziegelman

Pouco antes de eu começar a escrever este texto, ela se retratou nas redes sociais, mas afinal, qual o problema do que ela disse? Em ordem… em ordem de sei lá por onde eu começo:

Falar que as mulheres deveriam investir em Fórmula E, por ser “fisicamente mais fácil” do que a Formula 1, é uma groselha inacreditável por duas razões primárias:

1- Ofende a Formula E e seus pilotos, uma vez que coloca uma categoria abaixo da outra.

2- Jordá faz parte da comissão de mulheres do motorsport da FIA, e diz que mulheres devem escolher o mais fácil? Ou ainda que não é possível a Formula 1 para elas?

Ela é uma referência. Alguém que deveria INCENTIVAR as mulheres a chegarem onde quiserem, e não colocar limites a nós, principalmente limites físicos, coisa que, em um esporte A MOTOR não é real.

Me fizeram a seguinte pergunta essa semana: “por que será que não existem tantas mulheres no automobilismo? E porque as poucas não conseguem resultados tão significativos? Será que as mulheres não se interessam?”

Vamos separar os assuntos:

1- Por que não existem tantas mulheres no automobilismo?

Isso começa no contexto cultural. Quando eu era pequena, nos anos 90, menina tinham que gostar de “coisas de menina”. A não ser que você tivesse um pai como o meu, que é uma exceção à regra, nós não ganhávamos carrinhos, não éramos incentivadas a ver corridas, a ser cientistas, super-heroínas, médicas… brincadeira de menina, era escolinha, casinha, panelinha, mamãe e filhinho…

Quando eu tinha uns 13 anos, eu só andava com meninos. Na escola, a coordenadora disse que eu “não era feminina”.

 

Meu pai é químico e minha mãe cabeleireira. Eu amava brincar com os aventais de laboratório do meu pai. Saber sobre carros…, mas eu não tinha UMA amiga pra isso. Inclusive as amigas que tenho pra falar de automobilismo, eu ganhei depois do site e do podcast.

Tudo isso mostra o quanto as mulheres não são preparadas “desde cedo” pra sonhar com carreiras de piloto, engenheira…

Tudo isso mudou nos anos 2000, onde a questão do feminismo e de gênero se tornou uma discussão enraizada na educação.

Assim como as mulheres não são preparadas para carreiras desse estilo, homens não são preparados para lidar com isso.

Eu trabalhava num departamento de 16 homens (hoje em outra empresa, com 4 e mais uma menina), mas como era estágio, era a minha primeira experiência em engenharia. Eu conheci uma engenheira mulher, que é minha amiga até hoje.

Lembro de uma conversa com meu chefe na primeira semana:

_ Você sempre gostou de caminhões?

_ Na verdade, não. Mas eu acho que eu posso aprender sobre eles. Eu gosto de veículos em geral.

_ Entendi. Você é engenharia mecânica né? Que diferente…

_ Sou sim. Eu não faria nenhum outro curso.

Na mesma semana, eu escutei uma conversa de corredor:

_ Cê viu que tem uma menina lá?

_ Vi, o cara estava de licença, e quando voltou, tinham chamado uma estagiária menina!

O caso que 80% das pessoas eram homens. E acreditem: muitas vezes nem eles sabiam que estavam sendo machistas. O machismo é enraizado, e na maioria do tempo, as mulheres, no meio de homens, sofrem uma hostilização culposa (sem a intenção de…).

E estes meus amigos, é o contexto do porque as mulheres atualmente não se interessam por automobilismo e por várias outras coisas consideradas masculinas. E indiretamente, o porque há poucas de nós no automobilismo.

A segunda pergunta, é uma questão também cultural. “Porque poucas conseguem resultados significativos?”

Dois motivos: O primeiro (e mais simples) é a amostragem. Fiz uma conta básica do contexto atual. Nos últimos 41 anos, tivemos apenas uma mulher na Fórmula 1: Tatiana Calderón. Nas equipes, ENGENHEIRAS DE CORRIDA, temos uma na Sauber, uma na Force India e uma na RBR (que eu tenho ciência). Eu não sei quantos engenheiros tem nas equipes, mas é um número altíssimo, em relação a estas poucas mulheres que chegaram lá. Com tantos engenheiros homens, temos lendas como Adrian Newey, Paddy Lowe, James Alisson, Mattia Binotto e outros. São 4 que se destacam no meio de sei lá, mil. Imagina para uma mulher, que é uma em 3, a qual trabalho com esses outros mil em pé de igualdade, para se destacar?

Espero que vocês consigam fazer essa comparação matemática com a mesma facilidade que eu.

O segundo, e mais complexo, é o patrocínio+dinheiro+incentivo. Sabemos que hoje, para entrar em qualquer categoria do automobilismo, é necessário um incentivo financeiro. Temos diversos Pay drivers, e diversos pilotos com patrocínios milionários, que garantem seus salários e vagar no esporte. As mulheres não conseguem o mesmo nível de patrocínio pelo mesmo motivo da amostragem. Tatiana é patrocinada pela Telmex como Sergio Perez. E veio da base, da escola de desenvolvimento, e agora chegou a Formula 1. Bia Figueiredo, é patrocinada pela Ipiranga desde sua trajetória na Fórmula Indy, então há um investimento nelas de empresas que acreditam em seu potencial e querem reforçar isso. Investir em mulheres em coisas consideradas masculinas é considerado um investimento de risco. Como disse meu chefe uma vez: Seu batom vermelho conquista os olhos, mas será que conquista o boleto pago que o outro vendedor traz?

Concluindo tudo, o problema do que Carmen Jordá disse, está no seguinte: se alguma garota estava motivada a buscar, e tem nela uma referência, esta mesma garota desistiu. Porque o incentivo dela disse que ela não conseguiria.

Que neste dia 8 de março, nós possamos pensar melhor sobre nossa cultura, e descobrir se há machismo (mesmo as mulheres), ainda enraizado dentro de nós.

E lembrem-se: O feminismo é a luta por igualdade entre os sexos.

Feliz dia da mulher.

Erika Prado

Erika Prado, Ericoke, São Paulo - SP Nascida e criada na zona Lost, tornou-se podcaster devido a Bruno Shinosaki, e colunista devido a Rubens GP Netto. Estudante de engenharia mecânica, e apaixonada por qualquer máquina que precise de um coração (motor). Além de fã de automobilismo, é cinéfila e ama música de quase todos os gêneros (principalmente as que dão pra fazer coreografia), gosta de escrever textos como se estivesse contando algo pra alguém ou defendendo alguém em uma conversa, com memes, desenhos e até gráficos. Também ama auto-conhecimento, saúde mental e principalmente: a causa feminista. E não sabe ser breve...

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