Destruidor – Dia 10 de 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Imaginem um piloto que acaba sendo conhecido por conta de suas batidas frequentes e em muitos casos cinematográficas. Imaginou? Não, não vamos falar do Verstappen, ele provavelmente só está passando por uma má fase. Pense em alguém que encontrava o muro com mais frequência. Segunda chance: não, também não é o Maldonado. O título fala em anos 80, afinal. Quem? Katayama? Um bom palpite, mas ainda aquém do nosso herói de hoje.

Vamos dar mais uma dica: o cidadão destruiu VINTE E DOIS chassis em 15 etapas durante um ano.

ISSO! Esse mesmo. Hoje comemoraremos o aniversário, a vida e a obra do grande Andrea De Cesaris, o piloto que disputou mais grandes prêmios sem ser o primeiro a ver a quadriculada.

Fonte: The Independent

Piadas à parte, o romano que nasceu em 31 de maio de 1959 sempre se ressentia muito desta fama que angariou no início da carreira. Tinha motivos para lutar contra ela, pois era sim muito rápido e bateu (trocadilho não intencional) com frequência os companheiros de equipe, tendo tido o azar de frequentemente estar no lugar errado na hora errada, mas da mesma forma que tinha lampejos de genialidade e de uma velocidade acima da média, também cometeu MUITAS lambanças e, mesmo não aceitando, fez jus ao apelido recebido da imprensa inglesa, que se referia a ele como Andrea De Crasheris.

De Cesaris começou como de costume no kart, apoiado pelo pai, que era um bem sucedido representante da Phillip Morris na Itália. Ou seja, além do “paitrocínio” era bastante fácil para o garoto Andrea receber o apoio da Marlboro, que sempre esteve presente no automobilismo.

Isso de nada adiantaria se o bambino não fosse ao menos rápido. Depois de fazer sucesso no kart, seguiu o caminho natural: F3 europeia em 1979, onde conseguiu o vice-campeonato (Chico Serra foi o melhor naquele ano), e em seguida a F2, correndo pela lendária Project 4 de Ron Dennis. Neste ano de 1980 recebeu o convite da Alfa Romeo para participar das provas do Canadá e dos Estados Unidos da Fórmula 1, substituindo seu conterrâneo Vittorio Brambilla, que tinha por sua vez tentado substituir Patrick Depailler, morto enquanto testava em Hockenheim, porém sem sucesso. Brambilla aposentou-se de vez e De Cesaris fez dupla com Bruno Giacomelli. Na estreia, conseguiu uma boa quarta fila, porém o motor de seu Alfa foi para o espaço ainda nas voltas iniciais. Em Watkins Glen, última corrida do ano, largou em décimo (Giacomelli foi o pole), mas espatifou-se sozinho já na segunda volta.

Mesmo não tendo deixado um cartão de visitas muito interessante, De Cesaris tinha o mesmo superpoder do Batman. Desta maneira, quando Ron Dennis mirou na decadente McLaren para a fusão com sua Project 4, olhou na garagem e percebeu que seu piloto tinha o mesmo patrocinador que a equipe de Woking. Somando os números, desembarcou na Fórmula 1 com o italiano a tiracolo, para fazer dupla com o inglês John Watson.

O ano de 1981 em números: uma sexta colocação em San Marino, um ponto, a 18ª posição no campeonato, oito abandonos e 22 chassis destruídos nas 15 etapas do mundial. No final, Ron simplesmente despediu o italiano, que culpou o chefe da equipe durante toda sua vida, inclusive dizendo que teria sido Dennis quem deu a ideia do apelido para os tablóides ingleses.

22, um número profético. Fonte: YouTube

A Alfa Romeo precisava de alguém para seu cockpit e De Cesaris já conhecia o caminho dos boxes. Na terceira corrida, em Long Beach, sua primeira e única pole. Aos 22 anos e 308 dias, tornou-se então o piloto mais jovem a largar na frente da fila (hoje é o quinto colocado neste quesito). Infelizmente isso não se traduziu em pontos, pois uma rodada na volta 33 o tirou da prova. Porém ainda nesse ano o jovem Andrea sentiria o gosto do (da?) champanhe, ficando em terceiro lugar em um GP de Mônaco muito louco vencido por Ricardo Patrese. Duas provas depois, mais um pontinho com uma sexta posição no Canadá. Infelizmente foi só isso.

Permanecendo na Alfa em 83, confortável ao lado de Mauro Baldi, De Cesaris teve seu melhor ano na categoria. Segundo lugar na Alemanha e na África do Sul, quarto em Brands Hatch, uma largada espetacular de terceiro para primeiro em Spa, onde liderou e fez a única volta mais rápida da sua história, até o motor estourar. Tudo somado, foram 15 pontos e um oitavo lugar no campeonato (embora, seja necessário acrescentar, só tenha terminado cinco das 15 corridas naquele ano).

Guy Ligier convidou o italiano para um de seus carros azuis (e esse deve ter sido um de seus maiores arrependimentos na vida). Passando os anos de 84 e 85 lá, tudo que De Cesaris conseguiu foram um 4º, um 5º e um 6º lugares, seis pontos no total e, na Áustria, um dos acidentes mais espetaculares da história da categoria ao sair sozinho da pista e dar um duodécuplo twist carpado. Saiu do carro sem um arranhão e sem emprego: Ligier o demitiu na corrida seguinte, antes do fim do campeonato.

Em 86 tenta a sorte na nova Minardi, mas depois de 16 provas, só vê a bandeirada uma única vez.

Sai de uma equipe iniciante e vai para a decadente Brabham, chegando literalmente em cima da hora. A equipe precisava de dinheiro para garantir a disputa de todas as corridas, e o italiano apareceu no Rio de Janeiro no último dia de inscrições para o GP em Jacarepaguá com o patrocínio necessário. Apesar do clima de fim de feira, ainda descolou um pódio na terceira posição na Bélgica.

Com o fim da Brabham, De Cesaris olhou para os lados e viu um espaço na novata Rial. O projeto era interessante, mas o carro era ruim. Mesmo assim uma quarta colocação em Detroit impediu que ele terminasse a temporada zerado.

O ano é 1989 e mais uma vez o inacabável De Cesaris está em uma nova equipe. A escolhida da vez é a Dallara, também chamada por Scuderia Italia. Em Mônaco, uma cena hilária: o italiano estava em quarto lugar e iria dar uma volta em Piquet. O pódio não era um sonho distante, porém De Cesaris se encaixou no meio da Lotus do brasileiro na Loews, deixando os dois emperrados sem conseguir sair do lugar. No melhor estilo briga de trânsito, um ficou berrando e gesticulando para o outro até a turma do “deixa disso” aparecer.

Mais duas provas e, saindo dos boxes dá de encontro com seu companheiro de equipe Alex Caffi, que estava em condições de pódio. De Cesaris continuou, Caffi abandonou e o dono da equipe só não xingou o italiano de santo. Provando sua carreira de altos e baixos, já na corrida seguinte, no Canadá, em uma corrida com chuva e dificílima, Andrea consegue seu último pódio com uma belíssima terceira posição final. Na prova seguinte, na França, não fez tempo suficiente para se classificar.

Calma que ainda não acabou: em 1991 foi o primeiro a pilotar uma Jordan na F1; em 92 e 93 correu (por assim dizer) na Tyrrell; em 94 primeiro substituiu o suspenso Eddie Irvine na Jordan por três corridas (com um ótimo quarto lugar em Mônaco) e em outras nove provas ajudou Peter Sauber, que precisava de alguém para a vaga do acidentado Karl Wendlinger. Sua última participação foi no GP da Europa, em Jerez, naquele ano.

Após se aposentar, Andrea De Cesaris foi viver a vida, atuando seis meses por ano como corretor da bolsa de valores em Monte Carlo e passando os outros seis meses viajando o mundo, à procura de boas praias para praticar sua outra paixão, o windsurf.

Em 5 de outubro de 2014, no mesmo dia em que Jules Bianchi acidentou-se fatalmente durante uma prova de Fórmula 1, Andrea De Cesaris bateu com sua motocicleta em um guardrail nos arredores de Roma e não resistiu aos ferimentos. Ele tinha apenas 55 anos, e uma vida repleta de histórias.

lll FORA DAS PISTAS

Andrea não gostava do apelido De Crasheris, mas o que fazer quando se nasce no mesmo dia em que o Titanic havia vindo ao mundo, 48 anos antes? Também são do último dia de maio Clint Eastwood (1930), grande como diretor e ainda melhor como cowboy, o insuperável Miele (1938), os brasileiros Marco Nanni e Marília Grabriela, ambos de 1948 e a linda e eternamente jovem na Lagoa Azul Brooke Shields (1965).

Do mesmo dia e completando a trinca dos nascidos em 48, as homenagens hoje ficam para John “Bonzo” Bonham, pai de todos os ogros, protótipo do batera, alma do Led Zeppelin e considerado por muitos como o maior e mais influente baterista de rock de todos os tempos. Não, não vamos cair no lugar comum de Moby Dick. Mas vamos cair na batida de Bonzo.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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