Fórmula 1 pode cortar duas corridas do calendário de 2026 diante da crise no Oriente Médio
A temporada 2026 da Fórmula 1 pode sofrer uma redução inesperada em seu calendário. Diante da escalada do conflito no Oriente Médio, cresce nos bastidores da categoria a expectativa de que os Grandes Prêmios do Bahrein e da Arábia Saudita sejam cancelados — e, ao que tudo indica, sem substituição.
Fontes de alto escalão do paddock ouvidas pela Reuters indicam que o cenário mais provável, neste momento, é a diminuição do campeonato de 24 para 22 etapas. A corrida noturna do Bahrein, marcada para 12 de abril no circuito de Sakhir, ao sul de Manama, e a prova da Arábia Saudita, programada para o fim de semana seguinte nas ruas de Jeddah, estão diretamente ameaçadas pela instabilidade regional.
O contexto geopolítico agravou-se após ataques realizados pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã, que foram seguidos por retaliações com mísseis e drones iranianos contra alvos no Golfo. Entre os locais atingidos estiveram instalações em Doha, na Arábia Saudita e em Manama, capital do Bahrein — onde um hotel chegou a ser atingido. Além disso, importantes aeroportos da região, que funcionam como grandes centros de conexão para voos internacionais, permanecem fechados.
A crise afeta não apenas a Fórmula 1. A MotoGP tem uma corrida prevista para 12 de abril no circuito de Lusail, no Catar, mas a própria categoria admite que a realização da prova nessa data parece extremamente improvável. Já o Campeonato Mundial de Endurance (WEC) optou por adiar a etapa marcada para Doha entre 26 e 28 de março.
Dificuldades logísticas e climáticas
Caso as provas sejam realmente canceladas, reagendá-las nos mesmos circuitos mais adiante na temporada seria uma tarefa quase impossível. Durante o verão e o início do outono europeu, as temperaturas no Golfo Pérsico tornam a realização de eventos esportivos ao ar livre extremamente desafiadora.
Outro obstáculo é o próprio calendário da Fórmula 1, que já foi estruturado para preservar a tradicional pausa de agosto e reduzir a carga de trabalho das equipes ao longo da temporada.
Alguns circuitos foram citados pela imprensa como possíveis substitutos — como Imola, Le Castellet, Portimão ou Istambul Park —, mas mover toda a complexa estrutura logística da categoria em curto prazo representaria um enorme desafio.
Além disso, promotores locais teriam pouco incentivo financeiro para assumir a organização de uma etapa de última hora. O prazo reduzido para venda de ingressos, a necessidade de cobrir taxas elevadas e a preparação de fiscais de pista, equipes de segurança e infraestrutura de transporte exigem meses de planejamento.
Uma alternativa discutida informalmente seria realizar uma segunda corrida em Suzuka após a terceira etapa da temporada. No entanto, a proposta também encontra obstáculos. O circuito pertence à Honda, que atualmente enfrenta desafios no desenvolvimento de motores em parceria com a Aston Martin F1 Team — o que tornaria pouco atraente ampliar a exposição esportiva nesse momento.
Durante a pandemia de COVID-19, a Fórmula 1 chegou a realizar corridas sem público e promoveu etapas duplas em alguns circuitos para garantir a conclusão da temporada. A situação atual, porém, não apresenta a mesma urgência. Um calendário reduzido de 22 corridas ainda seria considerado extenso em comparação com muitas temporadas históricas da categoria, mesmo que implique receitas menores.
Peso político e financeiro das corridas do Golfo
As etapas do Oriente Médio têm grande importância econômica para a Fórmula 1. O Bahrein mantém ligação direta com o esporte por ser proprietário da McLaren F1 Team, enquanto a Arábia Saudita atua como patrocinadora e investidora em diversas iniciativas relacionadas à categoria.
Não seria a primeira vez que o Grande Prêmio do Bahrein é cancelado. Em 2011, a corrida foi retirada do calendário após protestos no país e não voltou a ser programada naquele ano, depois que equipes rejeitaram a proposta de reagendamento para outubro.
Na ocasião, o então dirigente comercial da Fórmula 1, Bernie Ecclestone, afirmou que o Bahrein chegou a pagar a taxa de realização da corrida mesmo sem sediar o evento.
Segurança como prioridade
O atual diretor-executivo da Fórmula 1, Stefano Domenicali, e o presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA), Mohammed Ben Sulayem, reiteraram que a segurança será o fator decisivo para qualquer definição.
Segundo Domenicali, a categoria ainda avalia o cenário antes de tomar uma posição definitiva.
Ele deve se reunir com os chefes de equipe durante o fim de semana do Grande Prêmio da Austrália, em Melbourne. Entre eles estará Zak Brown, dirigente da McLaren, que reconheceu a escassez de informações até agora devido ao esforço logístico para levar equipes e equipamentos até a Austrália.
O chefe da Mercedes F1 Team, Toto Wolff, também demonstrou cautela: embora deseje que as corridas aconteçam, admite que a situação atual levanta dúvidas sobre a viabilidade de competir na região.
Impactos também na Fórmula 2
A incerteza se estende às categorias de base. A Fórmula 2 inicia sua temporada neste fim de semana na Austrália, com previsão de envio imediato dos equipamentos para o Bahrein, onde testes estavam programados entre 25 e 27 de março no circuito de Sakhir.
Fontes do paddock indicam que equipes já trabalham com a expectativa de cancelamento tanto do teste quanto da corrida. Caso as etapas do Bahrein e da Arábia Saudita sejam retiradas do calendário sem reposição, a segunda prova do campeonato só ocorreria em junho, nas ruas de Mônaco.
Enquanto dirigentes, equipes e promotores aguardam os próximos desdobramentos da crise no Oriente Médio, a Fórmula 1 enfrenta um raro momento de incerteza em sua agenda global — um lembrete de que, mesmo em um esporte movido por tecnologia e precisão, a realidade geopolítica ainda tem o poder de redefinir o rumo da temporada.
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