Big John, o cara que ganhou tudo - Dia 266 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo. • BP • Boletim do Paddock

Big John, o cara que ganhou tudo – Dia 266 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Reconhecido por ser um típico gentleman britânico, John Surtees é frequentemente citado como tendo sido um dos caras mais educados e bem humorados de qualquer grid. Quem o conheceu o retrata como um excelente contador de histórias que fazia amigos por onde passava. Ele aliava esta facilidade para fazer com que naturalmente se gostasse dele e um talento como piloto igualmente hipnotizante para falar o que bem entendia e brigar como um dobermann dentro e fora das pistas sem perder a esportiva com (quase) ninguém. Quando perguntado sobre seu estilo de pilotagem, sempre dizia que sentir a máquina sob ele era o grande segredo. “Você tem que fazer o possível para se tornar parte daquilo que pilota”, disse em 2015; “Sentir o assento sob suas calças e a maneira como suas mãos abraçam o volante, e então descobrir exatamente o que o carro tem a dizer para você, para então decidir quão perto do limite chegar, e principalmente onde o limite está naquele momento”.

John Surtees, na década de 60. Fonte: The Guardian

Filho de um vendedor de motos do sul de Londres (Jack foi campeão de corridas de motocicleta com sidecars na Inglaterra), John Norman Surtees nasceu em 11 de fevereiro de 1934 e se tornou um prodígio nas duas rodas ainda no fim da sua infância; aos 11 anos já tinha uma motocicleta, e sabia pilotá-la e consertá-la. Participou pela primeira vez de uma competição aos 14 anos no sidecar de seu pai; eles venceram a prova, porém quando os comissários descobriram a idade do garoto pai e filho foram desclassificados. Aos 17, após largar a escola para se tornar aprendiz numa fábrica de motos, ganhou sua primeira corrida. Depois de ficar conhecido na ilha natal, ganhou uma vaga no mundial pilotando uma MV Augusta e tomou o campeonato de assalto. Seu primeiro apelido foi Figlio del Vento, bem antes de Euler.

Em 1957, correndo pela italiana MV Augusta. Fonte: ANL

Tetracampeão de motociclismo na categoria de 500 cc (atual MotoGP) com títulos em 1956, 58, 59 e 60 e ao mesmo tempo tricampeão na 350cc (levou o título em 58, 59 e 60), Surtees venceu 38 das 49 provas que disputou no mundial de motovelocidade e resolveu ver se era bom também nas quatro rodas. Convidado por Ken Tyrrell para um teste num F3 Cooper em Goodwood, ficou em segundo lugar, colado em Jim Clark.

Homão da Porra. Fonte: Gearheads

Com um currículo desses, desembarcou direto na Fórmula 1, trazido por Colin Chapman para correr as quatro últimas provas da temporada na Lotus. E fez parecer tudo muito fácil: já na sua segunda corrida terminou em segundo lugar. Onde? No Grande Prêmio da Inglaterra, em Silverstone, em 1960. Na prova seguinte, em Portugal, ganhou sua primeira pole.

Mesmo tendo todo o aval de Colin Chapman para ficar no time, resolveu tentar a sorte na Cooper em 61 e na Lola em 62. Ele também aproveitou estes dois anos para chamar a atenção de Enzo Ferrari, que lhe concedeu um assento na Scuderia em 1963. Imediatamente tornou-se um candidato ao título. No GP da Alemanha daquele ano, após uma luta feroz com Clark dentro da pista, veio a primeira vitória, e mais um apelido: Fearless John.

John Surtees e Enzo Ferrari em Maranello. Fonte: FerrariJoão Sem Medo enfrentou novamente a floresta negra em 1964, desta vez duelando lado a lado contra Graham Hill, e de novo prevaleceu. Esta vitória, somada à de Monza (Surtees já era querido na Itália pelos títulos dados à Augusta, e virou ídolo inconteste na Ferrari), o creditaram de vez a brigar pelo título. Seus rivais eram os conterrâneos Hill e Clark, que estavam à frente na tabela de pontuação. Porém uma desistência por falha mecânica da Lotus de Clark e uma colisão de Hill com Lorenzo Bandini (que era o companheiro de Ferrari de John), somados a um segundo lugar na prova do México deram a Surtees o título de campeão mundial de Fórmula 1.

É sempre divertido discutir com cabeças de gasolina sobre o “merecimento” de pilotos que ganharam um só título na categoria; alguns estavam apenas no lugar certo na hora certa (cof, cof, Button), porém no caso do campeonato de 64 basta lembrar que o segundo e o terceiro colocados eram também pilotos excepcionais que tinham um equipamento melhor para diferenciar o feito de Surtees.

O carro do título de 64. Fonte: F1

No mesmo ano, dirigindo pela Ferrari ao lado de Bandini John conseguiu uma terceira colocação nas 24 Horas de Le Mans. Mas a história na rossa estava perto do fim.

Os carros vermelhos não estavam em boa forma no campeonato de 65, e Surtees resolveu fazer uma jornada dupla, correndo com um Lola T70 particular na CanAm, que rendia um bom dinheiro. Em setembro, na prova de Mosport, no Canadá, uma quebra na suspensão causou uma batida em alta velocidade e múltiplas fraturas para o campeão – um biógrafo diz que ele saiu do carro com um lado do corpo 10 centímetros menor do que o outro, o que parece a este escriba um exagero. O certo é que, após um período de hospitalização e consolidação das fraturas, a diferença de altura entre os lados direito e esquerdo era maior do que dois centímetros. Ele passou toda a folga de inverno na fisioterapia e, de volta à F1 em Spa, debaixo de chuva, ele conseguiu uma das vitórias mais espetaculares de sua carreira. Foi a sua despedida da Ferrari.

Desde a chegada ao time italiano Surtees não se bicava com o chefe da equipe, Eugenio Dragoni. Ambos tinham personalidades fortes, brigavam por independência e diziam o que queriam. Na prova de Le Mans após o GP da Bélgica Dragoni tirou John do time, dizendo que ele ainda não tinha se recuperado totalmente das lesões e que não suportaria uma corrida de endurance. Surtees surtou (desculpem, não resisti), e simplesmente foi embora. Anos depois, com as cabeças mais frias, tanto ele quanto Enzo Ferrari concordaram que aquilo foi um erro que provavelmente custou ao menos mais um campeonato tanto para o piloto quanto para o time.

Em 1966, disputando deste lado do Atlântico, o inglês bateu Bruce McLaren, Dan Gurney e Phil Hill e com seu próprio time (Surtees Lola) venceu o campeonato CanAm. Na Fórmula 1, correu pela Cooper-Maserati e venceu a corrida do México.

Mudando para a estreante Honda, passou dois anos ajudando a desenvolver o time, e foi ovacionado pela torcida ao vencer a etapa de Monza em 67. Com a desistência dos japoneses no final do ano seguinte, John sofreu em uma decadente BRM em 1969, e os maus resultados o convenceram a seguir o caminho de Jack Brabham e Bruce McLaren: ter sua própria equipe.

Dono do time, chefe da equipe e piloto principal, Surtees tentou de todas as formas se tornar competitivo, porém em nove anos de disputa não foi possível tornar-se um dos grandes. Os melhores resultados da Surtees foram um segundo e um terceiro lugar de Mike Hailwood – por coincidência, ele também um multicampeão na motovelocidade – e um também terceiro do brasileiro José Carlos Pace, no GP da Áustria em 1973

John já tinha largado o volante em 73 para se dedicar ao desenvolvimento do carro e a angariar fundos para manter o time, porém a falta de patrocinadores interessados obrigou o Team Surtees a fechar as portas em 1978.

O mesmo sorriso, dois séculos diferentes. Fonte: Pinterest

Big John manteve-se ativo e envolvido no esporte a motor, competindo em eventos clássicos tanto de carros quanto de motos, e entre 2005 e 2007 foi o responsável pelo time inglês na A1GP.

Um grande baque aconteceu em 2009 quando seu filho Henry Surtees, também piloto, foi acertado no capacete por um pneu durante uma prova da Fórmula 2 em Brands Hatch e faleceu com apenas 18 anos. O campeão, já com 75 anos, criou uma fundação com o nome de seu filho para auxiliar pessoas que passaram por traumatismos cranianos após acidentes automobilísticos e incentivar jovens pilotos.

Surtees com a Ferrari 158 do título de 64 em Goodwood, 2010. Fonte: Goodwood

Em fevereiro do ano passado, logo após completar 83 anos, John Surtees foi internado com problemas respiratórios e não resistiu. Uma das maiores lendas do esporte a motor partiu em 10 de março de 2017, deixando para nós um legado que dificilmente será igualado e uma paixão pelo esporte que deve ser sempre inspiração para nós, simples mortais. Comentando sobre a temporada de Fórmula 1 em 2012, ele simplesmente disse: “Se eu pudesse, eu certamente estaria dentro de um daqueles carros”.

Fonte: EFE

FORA DAS PISTAS

O 11 de fevereiro de 1847 marca o nascimento do controverso Thomas Alva Edison, que pode ser retratado como um gênio da ciência e dos negócios ou um ladrão de ideias e patrão tirânico, a gosto do freguês. Mais unânime é a constatação de que Leslie Nielsen, nascido nesta data em 1926, foi um dos grandes nomes da comédia nos anos 80. Em 1936 nascia Burt Reynolds, ator meio canastrão que fez o excelente Agarre-me se Puderes, filme fundamental para os cabeças de gasolina.

O piloto brasileiro Roberto Pupo Moreno divide a data de nascimento com Surtees (Moreno nasceu em 1959), e com a lindíssima atriz Natalie Dormer, de 1982.

E como estamos em pleno domingo de carnaval, este ferrenho defensor do bom e velho rock and roll vai abrir uma exceção e homenagear o brilhante Sergio Mendes, que completa hoje 77 anos e que, em 1966 pegou uma música do Jorge Ben Jor e a transformou na quinta melhor música brasileira de todos os tempos, de acordo com a Revista Rolling Stones. Aproveitem.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.