A história começa em 1981, quando um jovem Ayrton Senna da Silva desembarca na região de Norfolk, no extremo leste da Inglaterra. À época, o local já exercia forte magnetismo sobre pilotos brasileiros, como Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Chico Serra, Raul Boesel e Roberto Pupo Moreno. Dois fatores explicavam essa atração: a presença da tradicional Jim Russell Racing Driver School e a concentração das principais fábricas e equipes ligadas à Fórmula Ford e à Fórmula 3, consideradas os degraus naturais rumo à Fórmula 1.
“Quando chegavam à Grã-Bretanha, muitos dos pilotos brasileiros não falavam uma palavra de inglês”, recordou o inglês Martin Brundle em entrevista à BBC. “Eles só sabiam aterrissar em Heathrow, chegar a Attleborough, perto de Norwich, e procurar por Ralph Firman.”
Firman era o fundador da Van Diemen, a mais importante fabricante de carros de Fórmula Ford. O nome de Senna já lhe era familiar, fruto da reputação construída nos circuitos de kart do continente europeu. “Nunca tive dúvidas de que ele seria muito especial”, afirmou. “Bastaram duas ou três corridas para entender que o carro não era um kart. Quando pegou o jeito, ninguém mais conseguiu segurá-lo. Era só vencer, vencer e vencer.”
Vida em Norfolk
Senna chegou a Norfolk em 1981 para competir sob a estrutura de Firman e, no ano seguinte, passou a defender a equipe Rushen Green, comandada por Dennis Rushen. Dominou os campeonatos britânico e europeu de Fórmula Ford e deixou, de imediato, uma impressão profunda no meio automobilístico.
A adaptação à vida local, contudo, foi mais lenta. “O inglês dele era praticamente inexistente”, relembra Rushen. “Quando começou a conviver mais comigo e com os mecânicos, o vocabulário era formado basicamente por palavrões. Ele chegou a me mandar um cartão de Natal cheio deles, sem saber exatamente o que estava escrevendo.”
Morando em Eaton, na periferia de Norwich, a cerca de 160 quilômetros de Londres, Senna revelou em entrevista à BBC, em 1983, que não se sentia confortável com a vida inglesa. “O estilo de vida dos ingleses, somado ao fato de eu ser brasileiro, de ter meus amigos, minha família e minhas raízes no Brasil, faz com que eu goste de viver lá e não curta muito a Inglaterra”, disse.
Na prática, sua rotina em Norfolk era inteiramente dedicada ao automobilismo. “Vivo o automobilismo 24 horas por dia. Só penso em corrida, em treino, vivo em função disso”, afirmou. Fora das pistas, cuidava da casa onde vivia sozinho e das tarefas cotidianas. O lazer era escasso e quase sempre ligado ao esporte. “No Brasil é diferente. Lá gosto de estar com a família, ouvir música, praticar esqui aquático. Na Inglaterra, minha vida é específica, totalmente ligada à profissão.”
A escada rumo à Fórmula 1
Após o sucesso na Fórmula Ford, Senna ingressou, em 1983, no campeonato britânico de Fórmula 3, que via como peça-chave para alcançar a Fórmula 1. “Quanto melhor eu fizer na Fórmula 3, melhor será minha posição para entrar na Fórmula 1, em uma equipe melhor e com condições contratuais melhores”, explicou à BBC Brasil no início da temporada.
Ele destacou ainda a estrutura de que dispunha. “Tudo o que conquistei até hoje eu aplico na minha carreira. Tenho a melhor equipe, o melhor equipamento e a infraestrutura necessária para que os resultados sejam os melhores possíveis.”
Rivalidade e consagração
A temporada foi marcada pela rivalidade intensa com Martin Brundle, então o principal nome britânico da categoria. “As coisas começaram a ficar tensas”, relembra Brundle. “Estava tudo bem enquanto ele ganhava, o que aconteceu nas nove primeiras corridas. Depois eu comecei a vencer, e ele não gostou. Isso não combinava com ele.” O embate extrapolou a competitividade, com choques entre os carros em Snetterton e Oulton Park, episódios que acirraram ainda mais o clima.
O talento e os resultados abriram as portas da Fórmula 1 em 1984, com a modesta Toleman. No ano seguinte, o destino o levou de volta a Norfolk, agora como piloto da Lotus, sediada em Hethel. Para Clive Chapman, filho do fundador Colin Chapman, aqueles três anos representaram os últimos dias de glória da escuderia. Senna venceu seis Grandes Prêmios com a equipe.
“Ele foi o último piloto a vencer pela Lotus original”, explicou Clive. “Depois de um período apagado, ele reviveu o auge da equipe e estendeu sua reputação para além da era do meu pai.”
Em 1988, Senna seguiu para a McLaren, onde conquistaria três títulos mundiais antes de sua morte trágica em Ímola, em 1994, aos 34 anos. Ainda assim, manteve laços com Norfolk, região que guarda sua memória com afeto.
“Ele era um cara muito legal”, resume Ralph Firman. “Honesto, correto, direto. Um verdadeiro gentleman.”
Com informações de Paul Hayes, da BBC Norfolk. Hayes produziu e escreveu o documentário “Ayrton Senna: The Boy From Brazil”, exibido pelas rádios BBC Norfolk e Radio 5 Live.
Descubra mais sobre Boletim do Paddock
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.







