Numa manhã quente e clara de primavera, no paddock de Ímola, Ayrton Senna surgia diante da imprensa com a serenidade de quem carregava, ao mesmo tempo, o peso da genialidade e a tensão da incerteza. Faltava pouco mais de um ano para o acidente que encerraria sua vida, mas ali, no primeiro treino do Grande Prêmio de San Marino de 1993, o brasileiro ainda personificava a força máxima da Fórmula 1.
Cinco minutos após deixar sua McLaren, Senna explicava, com paciência incomum, a chegada tardia à Itália, fruto de um voo noturno que partira de São Paulo. O macacão vermelho, solto dos ombros e preso à cintura, contrastava com a concentração absoluta ao redor. Ele era o centro gravitacional daquele paddock.
As perguntas se sucediam sem trégua, e um jovem repórter, em sua primeira cobertura de um Grande Prêmio, descobria na prática o significado de um verdadeiro “quebra-queixo”. Espremido na multidão, o braço estendido segurando o gravador começava a falhar. A dor crescia. Recuar significaria perder a entrevista.
Num gesto tão involuntário quanto constrangido, o jornalista apoiou o braço, com o máximo de cuidado, sobre o ombro de Senna. Qualquer outro piloto poderia reagir — e muitos reagiriam. Senna, não. Permaneceu imóvel, quase meditativo, como se nada houvesse ocorrido. Ignorou a invasão, respondeu a todas as perguntas, agradeceu com educação e seguiu para o caminhão da McLaren.
O jornalista era este que escreve. E naquele instante, Senna revelou um traço pouco comentado: a delicadeza silenciosa de alguém capaz de tolerar a grosseria alheia sem perder a compostura. O mesmo homem que, em outras circunstâncias, encarnava a rigidez, a acidez e a obsessão implacável pela vitória.
A luz e a escuridão
O simples fato de Senna conceder entrevista após o primeiro treino já era revelador. Não era habitual. A McLaren, então equipada com motores Ford após o rompimento da Honda ao fim de 1992, sofria com a inferioridade técnica frente à Williams-Renault. Frustrado, Senna corria praticamente sob contrato provisório, prova a prova.
Apesar de ter vencido duas das três primeiras corridas do ano de forma magistral, sabia que a vantagem técnica da Williams acabaria se impondo. A entrevista, naquele contexto, era também um protesto velado — uma tentativa de pressionar o sistema. O subtexto era claro: como alguém de sua estatura poderia estar naquela situação?
O que Senna desejava, de fato, era uma Williams-Renault. Em 1992, oferecera-se até para correr sem salário. Mas Alain Prost já havia sido contratado com uma cláusula explícita: “não Senna”. Restava-lhe lutar pelo motor Ford de fábrica, reservado contratualmente à Benetton.
Ali se manifestava outro traço essencial de sua personalidade: a convicção quase inabalável de que merecia mais. A mesma mentalidade que, em Suzuka, em 1990, o levou a eliminar Prost na primeira curva, numa manobra deliberada, extrema e perigosa, motivada pela recusa dos organizadores em mover sua pole position para o lado limpo da pista.
A frase que se tornaria célebre — “se não disputarmos nas brechas, não seremos mais pilotos” — nasceu desse contexto. Repetida à exaustão como síntese de sua filosofia agressiva, ela escondia uma verdade incômoda: ali não havia brecha alguma. Senna sabia. Um ano depois, admitiria que a colisão fora um ato consciente de retaliação pelos acontecimentos de 1989, quando perdera o título em circunstâncias controversas.
Esse era o lado sombrio de Senna: o homem disposto a cruzar limites morais para alcançar aquilo que julgava justo.
O fascínio da complexidade absoluta
O magnetismo de Ayrton Senna não se explica apenas por seu talento incomparável. Ele fascinava porque era profundo, contraditório, intensamente humano. Dono de um carisma capaz de silenciar uma sala, falava com rara eloquência sobre risco, mortalidade e autoconhecimento.
“Você está fazendo algo que ninguém mais é capaz de fazer”, refletiu certa vez. “Mas, no mesmo instante em que é visto como inalcançável, torna-se extremamente frágil. Em uma fração de segundo, tudo acaba.”
Nenhum piloto antes ou depois falou assim, com tamanha clareza filosófica, sobre os abismos da própria profissão.
A morte, inevitavelmente, cristalizou sua imagem. Senna morreu em Ímola, em 1º de maio de 1994, aos 34 anos, atingido por um braço da suspensão ao bater na Tamburello. Congelado no tempo, permaneceu jovem, belo, quase cinematográfico — não por acaso, sua vida se transformaria em cinebiografia.
As grandes corridas
Pouco antes daquela entrevista em Ímola, Senna protagonizara talvez sua maior obra-prima: o Grande Prêmio da Europa de 1993, em Donington Park. Sob chuva intensa, largou em quarto e, ainda na primeira volta, já era segundo, prestes a assumir a liderança. Desapareceu na pista, deixando o resto do grid perplexo.
Momentos assim foram recorrentes. Em 1984, quase venceu em Mônaco com uma modesta Toleman, sob dilúvio. Em 1985, conquistou sua primeira vitória em Portugal, terminando um minuto à frente do segundo colocado. Em 1988, no Japão, saiu de 14º para vencer e garantir o primeiro título. Em 1991, no Brasil, venceu exausto, com o carro travado na sexta marcha, mal conseguindo erguer o troféu diante de uma nação em êxtase.
Até o limite — e além
Nenhum piloto se entregou tanto quanto Senna. Ele forçava carros além do concebível, extraía o impossível da máquina e de si mesmo. Talvez essa entrega absoluta tenha sido, ao mesmo tempo, sua maior virtude e sua sentença.
O acidente de 1994 jamais foi plenamente explicado. Fala-se em falha na coluna de direção, em perda de downforce, em pneus frios, em uma tentativa desesperada de conter o Benetton de Michael Schumacher. A Williams sempre sustentou uma combinação de fatores, tese apoiada por Damon Hill.
O que é indiscutível é que, mesmo com um carro difícil e instável, Senna colocou o FW16 na pole nas três primeiras corridas do ano. Sua vantagem média sobre Hill nas classificações foi assombrosa: 0s922. Era o piloto fazendo a diferença absoluta.
Até o fim, Senna seguiu ultrapassando limites, transformando o improvável em realidade. É por isso que, três décadas depois, sua presença permanece intacta. Não apenas como piloto, mas como mito. Um espírito que segue habitando o coração de todos que entendem — ou sentem — a Fórmula 1.
Descubra mais sobre Boletim do Paddock
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.








