Asas Longas, Costelas Quebradas e Seis Rodas

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| Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 02 de Maio – Asas Longas, Costelas Quebradas e Seis Rodas – 02ª Temporada: dia 345 de 365 dias.

Apesar de ter acontecido em 02 de maio de 1976, o GP da Espanha daquele ano, em Jarama, começou bem antes e só foi terminar alguns meses depois. De volta à Europa depois das três corridas iniciais do ano (Brasil, África do Sul e Estados Unidos – Long Beach), era para tudo estar às mil maravilhas na Ferrari, que colecionava 100% de vitórias (Niki Lauda venceu as duas primeiras e Clay Regazzoni ganhou na Califórnia). Mas havia uma guerra interna que vazava para a imprensa.

Atual campeão, líder e não muito querido.
Fonte: Pinterest

Lauda era o atual campeão, mas nunca se enquadrou na festa da torcida italiana, frequentemente dando declarações duras contra a equipe. Os jornais sabiam que podiam enfurece-lo e conseguir boas manchetes, e o provocavam até o limite.

Então, quando ele se acidentou com um trator, era só mover as peças e esperar a notícia.

Poucos dias após o GP americano, Lauda estava trabalhando no campo de sua nova propriedade perto de Salzbourg, quando tentou levantar um pedaço de terra e acabou tombando junto com seu trator, fraturando duas costelas, e passando perto de morrer esmagado. Os médicos pediram seis semanas de gancho, mas ele não podia se dar esse luxo. A Gazzeta dello Sport o atacava virulentamente, e começou uma campanha para que um piloto italiano o substituísse na prova seguinte. O nome indicado era o de Maurizio Flammini, um piloto que estava ganhando algumas corridas na Fórmula 2. Mas Lauda sabia que, se mostrasse fraqueza, seria rapidamente engolido pelo moedor de gente que é a Ferrari. Contratou o fisioterapeuta Willy Dungl, que se tornaria seu preparador físico, e estava fazendo progressos impressionantes.

Só que o diretor de esportes da Ferrari, Daniele Audetto, além de não negar a troca ainda jogava gasolina na fogueira, dando a entender o que piloto número 1 da equipe deveria ser Clay Regazzoni. O bigode era querido pelos tifosi, tanto que recentemente Luca di Montezemolo disse no podcast oficial da Fórmula 1 que sempre pensou que Clay tivesse nascido na Suíça por engano, porque seu temperamento era o de napolitano da gema. Lauda estava sentindo-se traído pela festa carcamana, e o silêncio de Enzo Ferrari só piorava a situação. Além disso, quando um jornalista chamou Lauda para pedir sua opinião sobre um possível substituto do transalpino, o austríaco responde, sem tato, que “os pilotos italianos são bons apenas para dar uma volta pela igreja em sua aldeia”. Ele estava atraindo a hostilidade de alguns de seus colegas como Arturo Merzario, que já tinha estado em um carro vermelho…

Quando Niki Lauda chegou à Espanha, parcialmente recuperado de sua lesão, ele expressou de forma um tanto quanto dura sua maneira de pensar para Audetto e rompeu de vez as pontes com a imprensa italiana, que agora lhe dedicava um ódio feroz.

Estranha, mas bonita.
Fonte: IndyCar

Enquanto isso, a prova espanhola (que mudou-se de vez de Montjuïc depois da tragédia no ano anterior) seria a primeira com a nova regulamentação técnica: redução do balanço da asa traseira, redução da largura e da altura dos carros (essa última fixada em 80 centímetros, para evitar as “chaminés” que tínhamos até então). As equipes apresentavam seus novos modelos, e a Ferrari vinha com o 312 T2 de Mauro Forghieri, com menor distância entre eixos. Mas a vedete era o Tyrrell P34 de seis rodas – só Patrick Depailler pilotava esse modelo, enquanto Jody Scheckter vinha com o velho 007 – um carro que tinha quebrado o recorde em treinos livres em Zolder e que dava muita esperança para o velho Ken. Até o rei Juan Carlos I fez questão de visitar os boxes para ver o monstrengo.

Também havia a dança dos pilotos. O suíço Loris Kessel e o espanhol Emilio de Villota estreavam a equipe RAM, enquanto Frank Williams alinhava um FW antigo para ganhar o patrocínio da Mapfre, que pediu o local Emilio Zapico no grid. John Surtees também conseguiu patrocinador novo para sua equipe, mas algumas empresas de TV se recusavam a focalizar o carro com a marca da fabricante de preservativos Durex. Mario Andretti, sem cockpit com a saída da Parnelli, abraçou o convite de Colin Chapman para pilotar a Lotus ao lado de Gunnar Nilsson.

Na classificação, embora um impressionantemente rápido Lauda, considerando sua recuperação física, tenha obtido um tempo excelente, foi James Hunt e a McLaren que asseguraram a pole. O Tyrrell hexarroda de Depailler largaria em terceiro, à frente de Mass, Regazzoni e Brambilla.

Lauda conseguiu a dianteira, mas não tranquilidade.
Fonte: ESPN.com

Na largada Lauda, com um anestésico injetado na região das fraturas momentos antes, ultrapassa Hunt e faz a primeira curva à frente. Brambilla toma a posição de Depailler, mas o francês dá o troco logo em seguida. No quarto giro, o primeiro abandono: Fittipaldi, com a caixa de marchas quebrada. Lauda tenta abrir distância, mas a caçada de Hunt permanece intensa, até que o efeito do anestésico começa a passar. O Tyrrell de Depailler perde os freios e vai parar além do guardrail, fim de linha para o P34. Na volta 32 Hunt mergulha na curva Nuvolari e retoma a liderança. Lauda agora precisa resistir à Jochen Mass, em terceiro, que em pouco tempo consegue a segunda posição. As McLaren logo abrem cinco segundos de vantagem, logo dez, então 15. Niki faz uma prova solitária, pois o quarto lugar, Gunnar Nilsson, está 25 segundos atrás dele. Na volta 66, fumaça na McLaren de Mass, que abandona a prova. Hunt está 30 segundos à frente de Lauda, que tem 15 de vantagem para a Lotus de Nilsson. E as coisas ficam assim. A McLaren finalmente bate a Ferrari, Lauda se supera em uma prova onde a dor lhe acompanhou por quase todo o trajeto, e Gunnar Nilsson sobe ao pódio pela primeira vez.

Só que essa corrida ainda não tinha terminado. Enquanto Hunt era entrevistado por Stirling Moss para a televisão britânica e Lauda recebia tratamento de Dungl pois uma de suas costelas havia se movido no ponto de fratura, os comissários anunciavam que a asa traseira da McLaren estava alguns milímetros acima do permitido e desclassificavam o inglês, dando a vitória para a Ferrari e para Lauda, que abria 23 pontos na liderança.

Ponto de inflexão no campeonato para James Hunt.
Fonte: Pinterest

A McLaren apelou da decisão, alegando que a expansão causada pela temperatura dos pneus após a corrida era responsável pela pequena deformação encontrada, e que se medido com pneus frios o carro estaria regular. O resultado da causa só foi anunciado em julho, dando ganho de causa à equipe inglesa. Com isso, Hunt recuperava a vitória e seus nove pontos, tirando ainda três de Lauda. Considerando que o título no final do ano veio com o inglês um ponto à frente do austríaco, podemos dizer que o GP da Espanha de 1976 realmente entrou na história da Fórmula 1

lll FORA DAS PISTAS

Na mesma Madri, 168 anos, a população se levantou contra a ocupação francesa, rebelião que foi retratada por Goya no seu quadro El 2 de mayo de 1808 em Madrid. Nasceram nesta data o apresentador Fausto Silva, o ator Dwayne “The Rock” Johnson, o jogador de futebol e marido de Spice Girl David Beckham e o vocalista do Foreigner Lou Gramm. Gramm e sua banda fizeram um sucesso estrondoso no final do anos 70 e início dos 80, emplacando seus primeiros 8 singles no top 20 da Billboard, feito antes só alcançado pelos Beatles. A revista Circus declarou, em 1978, que Gramm tinha uma voz que deixava Robert Plant com inveja.

Foram 34 anos, um mês e dez dias de vida para Ayrton Senna da Silva. Ele não fez mais do que pilotar carros de corrida, é verdade. No entanto, o rapaz paulistano o fez de uma maneira que mudou a visão das pessoas sobre o automobilismo dentro e fora das pistas. Queiram ou não, o piloto brasileiro entrou para a história e o seu nome estará sempre eternizado no mundo da velocidade.

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

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Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.