Areia e Asfalto

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Por: Carlos Eduardo Valesi

lll Série 365: 04 de Abril – Areia e Asfalto – 02ª Temporada: dia 317 de 365 dias.

O Bahrein é um país pequeno. Na verdade, um amontoado de ilhas (seu nome deriva do árabe bahr, que significa “mar”) que, unidas, formam um reino que em extensão é o menor do Oriente Médio. De fato, dentro do continente asiático só ganha em extensão das ilhas Maldivas e de Cingapura. Tem menos habitantes do que Curitiba, e cerca de metade não nasceram lá. Só que a movimentação humana por aqueles lados remonta a no mínimo 5.000 anos atrás, na Idade do Bronze. Seus habitantes estavam entre os primeiros convertidos ao islamismo, mesmo tendo passado por um período de ocupação cristã portuguesa entre 1521 e 1602. Lá pelo fim do século 19 a nação se tornou um protetorado britânico, e a independência como estado soberano é bem recente, de 1971. Conhecidos pescadores de pérolas, surfaram na onda do petróleo fácil mas souberam se desprender da dependência do ouro negro e investiram pesado no turismo e no setor bancário.

O pioneiro. Fonte: F1 Experiences

Ao contrário da Terra, o Bahrein é plano. O ponto mais alto de todas as suas 84 ilhas tem incríveis 134 metros. O clima é quente e desértico, sua água é salobra e lá chove, em média, 10 dias por ano; os barenitas tem um dístico que proclama que “chuva é bênção”. Apesar de ser considerado um dos países árabes com maior abertura ao mundo ocidental – outras religiões são toleradas, o homossexualismo não é considerado crime, e o consumo de bebidas alcoólicas não é proibido pelo estado – ainda existem muitas queixas de violações aos direitos humanos, e em 2011 protestos impediram a Fórmula 1 de realizar sua corrida anual lá.

Sim, porque no meio do deserto também tem F1. Após reunir o fragmentado orçamento europeu da categoria (a FIA deixava as confederações de cada país responsáveis pelos GPs até não muito tempo atrás), e consolidar o poder da mídia através de sua FOM, Bernie Ecclestone voltou seus olhos para o dinheiro e correu convencer os árabes. Após firmar um acordo com a família real em 2002, o então todo-poderoso chefão entregou a Hermann Tilke a missão de construir uma pista de corridas no Bahrein. Em apenas 16 meses o autódromo de Sakhir estava pronto, a um custo de 150 milhões de dólares, e pela primeira vez iríamos ver a categoria mãe do automobilismo no Oriente Médio.

Em 2011, nada de corrida. Fonte: CNN

A corrida inaugural aconteceu há exatos 15 anos, em 04/04/2004, e sobre ela não há exatamente muito que se contar. Terceira prova do campeonato, que já se prenunciava novamente vermelho, marcou mais uma dobradinha da Ferrari desde o sábado, quando Schumacher e Barrichello assumiram a primeira fila. A esperança dos competidores (mais notadamente as Williams de Montoya e Ralf Schumacher, terceiro e quarto no grid) era o clima: com temperatura de pista acima dos 50 graus, os pneus Michelin tinham uma pequena vantagem sobre os Bridgestone da Scuderia, e durante a prova isso poderia fazer a diferença. Mas o time italiano se juntou aos locais para abençoar a chuva que, improvavelmente, deu as caras no domingo. Não muita água, mas um chove-e-para intermitente que baixou a temperatura ambiente para “meros” 30 graus e poupou os calçados do time de Maranello. Largando muito bem e tendo o brasileiro como escudeiro, o então hexacampeão alemão passeou até receber a sua terceira bandeirada consecutiva como vencedor no ano, encaminhando o sétimo título. Ralph teve um entrevero com a BAR de Takuma Sato e só conseguiu uma sétima posição, enquanto Juan Pablo foi ainda pior quando seu câmbio abriu o bico no final da corrida, fazendo-o se arrastar até a linha de chegada fora dos pontos. Quem aproveitou foi a outra BAR de Jenson Button, que ganhou o lugar mais baixo do pódio. Três carros abandonaram, a Minardi de Zsolt Baumgartner e as duas McLaren Mercedes de Coulthard e Raikkonen, o que é surpreendente visto que foi nesse time que o braço de investimentos governamentais resolveu colocar dinheiro. Sim, hoje o GP do Bahrein é considerado como uma “corrida caseira” da McLaren, pois parte do time pertence ao fundo Mumtalakat Holdings, que o Papaya Orange Will Mesquita chama de “Boom Shack-A-Lack”, piada que só faz sentido para quem lembra bem dessa primeira prova nas areias do deserto.

Casa da McLaren, mas pista da Ferrari. Fonte: Jones on F1

lll FORA DAS PISTAS

A velocidade encontrou a Arábia na mesma data em que a Microsoft foi fundada por Bill Gates e Paul Allen, e que marca os aniversários do eterno Norman Bates Anthony Perkins, do poeta e cantor brasileiro Cazuza e do Iron Man Robert Downey Jr.

E Gary Moore, um dos maiores guitarristas da história, também nasceu em um 04 de abril. Eu poderia ser óbvio e terminar o dia com Still Got the Blues, ou fazer todos vocês chorarem com Parisienne Walkways, mas vou fazer ainda melhor e deixar vocês com essa obra-prima da banda irlandesa Thin Lizzy composta por Moore e singelamente chamada de Black Rose.

lll A Série 365 Dias Mais Importantes do Automobilismo, recordaremos corridas inesquecíveis, títulos emocionantes, acidentes trágicos, recordes e feitos inéditos através dos 365 dias mais importantes do automobilismo.

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Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.