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And We Go Green: um passeio pelos bastidores da Fórmula E

Nesta sexta (12), a Fórmula E oficialmente liberou a exibição mundial do documentário ‘And We Go Green’ produzido por Leonardo di Caprio e dirigido por Fisher Stevens e Malcolm Venville. Em pouco menos de uma hora e quarenta minutos, o filme traz o bastidores da quarta temporada da Fórmula E (2017/2018) que teve Jean-Eric Vergne como campeão. Esse texto pode conter spoilers, mas a ideia principal é te deixar curioso para entender um pouco mais sobre a Fórmula E

PRINCIPAIS PERSONAGENS

Além do campeão Jean-Eric Vergne, as luzes do We Go Green se voltaram para Andre Lotterer que na época fazia sua estreia na Fórmula E como companheiro de Vergne na Techeetah, Sam Bird, Lucas di Grassi, Nelsinho Piquet que ainda corria pela Jaguar e Alejandro Agag, fundador da categoria. 

Agag relata como teve a ideia de criar uma “competição automobilística verde”, como foram as primeiras conversas com o presidente da FIA, Jean Todt, sobre o assunto. Sempre acompanhado de um charuto, o presidente da Fórmula E contou descontraidamente sobre os desafios de criar uma categoria do zero nos dias atuais. É possível ver ainda um lado de Agag que poucas vezes foi mostrado em público, o espanhol falou sobre seu casamento e sobre um surpreendente período pré-competições esportivas que vocês vão ter que assistir para descobrir porque eu não vou contar. Agag sempre passou a impressão de ser um líder carismático, mas que toma decisões rápidas e enérgicas quando precisa, essa persona foi confirmada logo nos primeiros minutos do vídeo.

A melhor característica de um documentário certamente são os depoimentos de seus participantes. Em diversos momentos Bird, Vergne, di Grassi e Piquet saíram de suas cascas para falarem honestamente sobre situações por vezes incômodas. Sam Bird, por exemplo, relembrou o difícil momento que passava 2014 quando era piloto reserva da Mercedes na Fórmula 1, mas sentia que não teria muitas chances lá. O convite da Virgin representou uma nova luz na carreira do piloto britânico, ele começou como alguém que “corria por fora” e hoje é um dos principais nomes da Fórmula E. 

Vergne teve grande destaque no filme, não apenas por ter sido o campeão daquele, mas também por ter, naquele ano, um novo companheiro de equipe. A chegada do experiente André Lotterer à Techeetah e, principalmente, seu bom relacionamento com Vergne sempre foram muito bem explorados pela Fórmula E, o documentário apenas confirmou o quanto a amizade entre os dois foi benéfica para todos os envolvidos, principalmente para Vergne que passou por uma grande mudança de temperamento naquele período. O francês, aliás. protagonizou o momento mais emocionante do filme ao falar sobre Jules Bianchi, de quem era amigo desde a infância. 

A realidade mostrada em documentários nem sempre é feliz e Lucas di Grassi sabe bem disso. O piloto falou do início da sua carreira, sobre a desvantagem de competir os sobrenomes Piquet e Senna e o quanto teve que se desdobrar para chegar à Fórmula E como o funcionário nº 4 não apenas como um piloto, mas como alguém que possui visão de negócio. Di Grassi foi o primeiro a estar um Fórmula 1, o orgulho pessoal de acreditar no projeto desde o início e de saber que estava certo é mostrado a toda hora por ele. 

A conversa com Nelsinho também abordou temas como a conquista do campeonato na primeira temporada, sua a trajetória como piloto antes da Fórmula E (inclusive o Singapuragate) e o relacionamento com o pai famoso, que obviamente exerce uma grande influência na carreira do brasileiro. Piquet Jr revelou ainda que o pai nunca foi a uma corrida da Fórmula, mesmo ele tendo implorado por isso quando ele estava prestes a ser campeão em 2015. Nelsinho teve um ano muito difícil na temporada 4 e as coisas não pareciam melhorar no ano seguinte, o brasileiro acabou deixando a categoria na primeira metade da temporada 5 sem ter a presença do pai em nenhuma das provas que disputou.

RIVALIDADES

Os pilotos entrevistados para esse documentário possuem histórico de rivalidade entre si.

Um situação delicada relatada por Sam Bird aconteceu durante seu período de Virgin com Jean-Eric Vergne, a convivência nunca foi das melhores. JEV estava com uma carga emocional muito negativa por causa de todos os problemas que teve na Fórmula 1. Bird revelou o auge da discórdia entre os dois ao relembrar uma discussão que eles tiveram após uma corrida da segunda temporada. 

Outra questão frequentemente abordada veio nos depoimentos de Nelsinho Piquet: sua rivalidade com Lucas di Grassi. Nós brasileiros já ouvimos várias histórias de confronto entre os dois, mas o documentário consegue abordar de maneira madura um assunto que por vezes é negativamente inflado pela mídia e pela comunidade automobilística de maneira geral. Piquet fala desse assunto de forma bem mais tranquila do que o “à moda Piquet” que estamos acostumados. 

PERÍODO DE TRANSIÇÃO 

A temporada 2017/18 marcou uma fase importante da Fórmula E, nela foi apresentado o Gen2, carro que seria usado na temporada seguinte e que teria baterias duráveis por uma corrida inteira como principal característica (durante as quatro primeiras temporadas, os pilotos trocavam de carro durante o pit stop). As baterias do Gen2 foram desenvolvidas pela McLaren Applied Technologies e o We Go Green mostra uma parte desse processo. 

OPINIÃO GERAL

Como entretenimento, We Go Green é extremamente indicado para qualquer amante do automobilismo. Quem gostou de Drive to Survive e, de alguma forma, traçou paralelos com a série sobre a Fórmula 1, certamente vai curtir o documentário da Fórmula E sim. Diferenças à parte, a maneira como as duas categorias contam suas histórias é parecida: através entrevistas com os personagens centrais, a narrativa da temporada é contada imergir o espectador na história. Não há vilões no roteiro, mas cada um é um herói a seu próprio modo. 

Tecnicamente falando, a transição entre uma corrida e outra é ótima, assim como o timing do roteiro. A história flui bem, não se prendendo ao desnecessário. A fotografia é muito bem feita e a trilha sonora é impecável (inclusive com músicas de Alceu Valença e João Gilberto sendo utilizadas para apresentar os pilotos brasileiros). Obviamente alguns fatos relevantes para a temporada ficaram de fora, até porque tiveram que contar a história de 12 corridas em 90 minutos, mas os dois personagens principais tiveram a importância que mereciam dentro da trama. 

A participação, mesmo que rápida, de alguns nomes é um tempero a mais. Antonio Félix da Costa, David Coulthard, a imprensa especializada e, principalmente, o pai de Vergne contribuem com opiniões e elementos que só enriquecem o contexto do documentário.

O We Go Green nos mostra porque amamos tanto o automobilismo e porque nos deixamos envolver tanto por esse esporte. Como qualquer ação da Fórmula E, o apelo para conscientização para a preservação ambiental está presente em diversos momentos, especialmente nas falas de Alejandro Agag. O filme cumpre muito bem a proposta de apresentar a Fórmula E para desconhecidos e envolver aqueles que já tem contato com a categoria, tudo isso sem se transformar em dramalhão que, desnecessariamente, tenta desenhar uma imagem de um ou de outro personagem. Realmente vale a pena assistir.

O documentário completo está legendado em português no canal da Fórmula E no Youtube:

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Cinthia Venâncio

Cearense que acompanha Fórmula 1 desde que se entende por gente. Faz aniversário no mesmo dia do Damon Hill.

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