Alberto Ascari o primeiro campeão a honrar o nome do pai | Boletim do Paddock

Alberto Ascari o primeiro campeão a honrar o nome do pai – Dia 05 de 365 dias dos mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada

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GP de Mônaco é marcante, não importa o quanto você o ache chato, sem emoção, não importa, as ruas do Principado devem ser respeitadas assim como a faixa de tijolos na linha de chegada da pista de Indianapolis, desfazer da importância de Mônaco é o mesmo que desconsiderar a importância da Ferrari para a Fórmula 1, da Penske para a Indy e da Porsche para o endurance, não importa, o GP de Mônaco é marcante, onde tudo começou, onde uma equipe veio para ficar e assim trazer para todos as emoções da Fórmula 1, eu como McLarista não vejo uma Fórmula 1 sem Ferrari, beira o impossível, quem afirma o contrário esta falando um despautério sem o menor pingo de lógica, o mesmo eu falo da Fórmula 1 sem o GP de Mônaco.

Rubens é cumprimentado por Michael Schumacher, vencedor do GP de Mônaco de 1997 Fonte: Contos da F1

lll Dos Prolegômenos

Enzo Ferrari foi Steve Jobs do automobilismo, não importa se você como eu goste mais de Porsches, ou do fruto do desafeto com Enzo que é a  Lamborghini ou até mesmo prefira os carros da Aston Martin ou da Jaguar para alegria da Rainha, não me venha dizer que Enzo Ferrari não teve importância tão significante para a indústria automobilística do qual eu quero repassar, pois teve, mas assim como Steve Jobs ele não fez nada sozinho, não criou e revolucionou o mercado do qual participava atuando em um monologo, ele teve outros atores em seu palco, dos quais, devemos conhecer para melhor entender como chegamos aqui, em um post que trata do primeiro filho a honrar o nome do pai, e já adianto, o único que realmente o fez!

Antônio Ascari, um dos primeiros pilotos a começar a ter status de estrela, junto com outros pilotos contemporâneas que começavam a mostrar que as corridas inorganizadas de playboys europeus e de cowboys americanos eram na verdade uma economia que se reinventava a cada era e poderia ser o alicerce de uma cultura que viria a se tornar uma modalidade esportiva a gerar riquezas e movimentar milhões de pessoas.

Não por menos Antônio era um homem que percebeu a importância e o crescimento da indústria automotiva italiana, o seu consumo que movia pessoa apaixonadas ou não por automóveis, porém que apenas desejavam um carro, um belo carro como os fabricados pela Alfa Romeo, já como um piloto da equipe Alfa tinha como companheiro um jovem piloto italiano que o admirava, o jovem Enzo Ferrari, Antônio decide investir e se tonar um concessionário da Alfa, como todo bom italiano sabe que um bom conselho deve ser dado e não guardado, aconselha Enzo Ferrari a fazer o mesmo na região Emília-Romana o que nada afetaria os seus negócios na região da Lombardia, assim começava a caminhada de Enzo ao sucesso, a ascensão do Commendatore e da sua criação a Scuderia Ferrari que teria uma das mais importantes participações naquela indústria que Antônio viu começar porém no GP da França de 1925 Antônio veio a falecer deixando um legado um nome a ser honrado, e um filho o pequeno Alberto Ascari, que herdaria a concessionária de seu pai a Ascari Fiat em Milão e o amor pela velocidade.

lll Qual o peso de um sobrenome no automobilismo?

Na Mille Miglia de 1940 Enzo Ferrari inscreve os dois primeiros carros que produziu para competições já desligado da Alfa Romeo, contudo não poderia usar o seu nome, batizou a equipe como Auto Avio Construzioni, um dos pilotos era o jovem Alberto Ascari que havia tido uma curta carreira na motovelocidade tendo até um contrato com a equipe Bianchi, porém um convite do Commendatore não é algo que se recusa. Ascari brilha nas corridas em solo europeu, porém o mesmo solo vê o início de dias difíceis e a Segunda Guerra Mundial assume o papel de principal evento no velho mundo, Ascari assim como outros competidores e construtores voltam os seus talentos para os esforços de guerra sua garagem se torna um local escolhido pelo Exército Italiano para a manutenção e reparo de veículos de guerra.

Alberto Ascari Fonte: F1

Em 1947, Enzo Ferrari após o fim da guerra se torna um construtor de carros que levariam o seu nome como sempre sonhou, por hora construindo carros esportivos para ricos aventureiros, Enzo guarda o seu dinheiro em um pensamento único, vencer a Alfa Romeo em uma batalha direta, enquanto isso Alberto estava ausente das pistas, porém em 1950 é criada o Campeonato Mundial de Fórmula 1, com a sua primeira corrida já agendada para o circuito de Silverstone, Enzo Ferrari não alinha ali os seus carros, apenas aparece para disputar a segunda corrida do campeonato, no GP de Mônaco nas ruas do Principado, onde a Fórmula 1 ainda corre e pelas forças dos Deuses do Automobilismo ainda deve correr por anos.

Silverstone, October 1948, formação do pré-campeonato mundial de Fórmula 1, Alberto Ascari chega em segundo no GP da Inglaterra e seu companheiro também de Maserati Luigi Villoresi vence a corrida: Fonte F1 e © Sutton Images

Enquanto isso e até o GP de Mônaco de 1950, Alberto havia se tornado um homem de família casado com Mietta, pai de Patrizia e Antonio, este recebeu o nome do seu avó como uma justa homenagem, em 1948 participa de corridas com o seu companheiro Luigi Villoresi em uma equipe independente a bordo de uma Maserati, em 1948 vence o GP de San Remo e uma Corrida de Carros de Competição em Pescara, pronto, foi o que bastou para a velha chama dos campeões da casa dos Ascari acender novamente, Enzo Ferrari que já havia consolidado a Scuderia Ferrari como uma das forças italiana no automobilismo e assim convida Alberto para participar em 1949 das competições que seriam no ano seguinte organizadas em um campeonato só, o Campeonato Mundial de Fórmula 1.

Assim chegamos ao GP de Mônaco de 1950, este já foi muito bem tratado no post da Débora sobre a primeira vitória de Fangio na Fórmula 1, porém vale destacar que Ascari e Villoresi então pilotos da Scuderia Ferrari ambos a bordo da Ferrari 125 de 12 cilindros foram os destaques da corrida com Ascari conquistando o primeiro pódio da Ferrari na estreia da equipe na Fórmula 1.

Silverstone, julho de 1953: Os quatro pilotos da Ferrari discutem as táticas antes do Grande Prêmio da Inglaterra, junto com o jornalista e fotógrafo francês Bernard Cahier. Da esquerda: Alberto Ascari, Guiseppe Farina, Bernard Cahier, Mike Hawthorn e Luiggi Villoresi. Fonte F1 e Sutton

Alberto Ascari, porém como carinhosamente era chamado por seus pares e fãs “Ciccio” (gordinho) era um homem supersticioso, usava sempre camisa e capacete do mesmo tom de azul-claro, não permitia que ninguém botasse as mãos na bolsa que carregava o seu capacete e camisa de corrida, não cruzava o caminho de gato preto e evitava que uma cruzasse o seu, buscava ao máximo evitar disputas em pista, o próprio Enzo sabia que se Ascari começasse liderando uma prova era fato que viria a vencer, caso tivesse que disputar a liderança, preferiria não fazer, evitava assim acidentes.

Em Silverstone, julho de 1952: A vitória do Ascari no Grande Prêmio da Inglaterra foi a terceira de nove vitórias para o italiano. Aqui ele conversa com os pilotos da Ferrari Piero Taruffi (esquerda) e Giuseppe Farina (centro). Fonte: F1 e © Sutton

As temporadas de 1950 e 1951 não foram favoráveis a equipe de Enzo e Ascari teve um carro bem construído, porém com um motor um tanto fraco comparado com os da Alfa Romeo, assim o embati direto contra Nino Farina e Fangio não foi possível, mesmo com dois pódios em 1950 (Mônaco e Itália, sendo dois segundo lugares) e com duas vitórias em 1951 (GP da Alemanha, em Nurburgring e GP da Itália, em Monza) sendo que nesta temporada disputou a bordo da Ferrari 375 de 12 cilindros.

1952: Alberto Ascari ao volante da Ferrari 500 a caminho do primeiro de seus dois campeonatos mundiais. Fonte: F1 e © Sutton

Temporada de 1952 Ascari brilha e se torna campeão em uma temporada impecável, das nove provas venceu seis (GP da Bélgica, GP da França, GP da Inglaterra, GP da Alemanha, GP da Holanda e GP da Itália), sendo que do GP da Bélgica de 1952 até o GP da Bélgica de 1953, Ascari venceu todas as nove provas (menos as 500 Milhas de Indianapolis de 1953), nove provas seguidas, recorte este que Fangio, Clark, Prost, Senna e Schumacher não superou, apenas em 2011 Sebastian Vettel conseguiu, mesmo se excluirmos as duas provas pós às 500 Milhas o recorde de 7 vitórias seguidas ainda só seriam superadas por Vettel em 2011, não há que se negar que Ascari foi um dos melhores pilotos de todos os tempos.

Expedição italiana ao solo americano Fonte: Divulgação

1952 ainda teve a sua participação nas 500 Milhas de Indianapolis, que diante de tanto talento Enzo Ferrari enviaria Ascari e uma equipe para lhe auxiliar na corrida, infelizmente a mesma sorte que vinha imprimindo nas corridas na Europa não lhe acompanhou em solo americano e na 40ª volta um simples rolamento lhe tirou da corrida, contudo Ascari seria o único europeu a correr na Indy 500 até 1963 com a participação e pódio de Jim Clark.

Em 1953 repetiu o feito e foi bicampeão, o primeiro a ser bi, com cinco vitórias (GP da Argentina, GP da Holanda, GP da Bélgica, GP da Inglaterra e GP da Suíça), Ascari estava em alta em 1953, seu campeonato foi novamente impecável.

Já para temporada de 1954, a renovação de contrato com a Scuderia Ferrari não foi possível, Commendatore não queria pagar o valor pedido por Ascari e na temporada de 1954 Ascari passou em branco pela Fórmula 1 pois o projeto ambicioso da Lancia só foi para a pista no final da temporada no GP da Espanha e Ascari a bordo do D50 conquistou a pole, na largada perde a liderança porém a reconquistaria duas voltas depois, após liderar por 7 voltas sua embreagem quebra e Ascari é obrigado a abandonar a prova, contudo surgi uma esperança para a temporada de 1955.

A bordo do Lancia D50 no GP da Espanha, sua marca o Capacete azul-calor no mesmo tom da camisa Fonte: Divulgação

Uma temporada de 1955 cinzenta começa sobre a casa dos Ascari, no primeiro GP da Argentina, Fangio vence e Ascari sofre um acidente e abandona, no GP de Mônaco, Ascari sente confiança com o seu Lancia D50, classificou em segundo, quando na 80ª Volta assume a liderança, porém um erro o tira literalmente na pista, ao perder o controle do seu carro na chicane do Porto ele bate na proteção de pneus e seu carro é arremessado ao mar, o que se vê são bolhas e uma mancha de óleo, porém poucos segundos depois Ascari surge das profundezas do porto, no Hospital encontra-se apenas com poucos hematomas, um nariz quebrado e com uma baita de vergonha pelo feito realizado.

Depois de um acidente é preciso retomar o mais rápido possível, senão a dúvida se instala!!!


A frase acima foi dita por Ascari quatro dias após o acidente em Mônaco no dia 26 de maio de 1955 no autódromo de Monza na Itália, Ascari havia ido ao autódromo para acompanhar os treinos do seu companheiro Eugenio Castelloti que testava a Ferrari F-750, o carro vinha sendo preparado para uma prova de longa duração, que aconteceria no final de semana seguinte ao GP de Mônaco de 1955.

Porém como dito acima, Ascari após o almoço no autódromo decide pilotar o carro, seu amigo lembrando das recomendações médicas que Ascari deveria descansar por uma semana, repouso absoluto, Ascari estava vestido de paletó e gravata assume o volante da Ferrari pegando emprestado o capacete branco de Eugenio, que vê seu amigo sair dos box a bordo da sua Ferrari com a gravata ao ar.

Ascari passa pela equipe por duas vezes, em voltas voadoras, não passa a terceira, em uma curva a esquerda que hoje recebe o seu nome a Variante Ascari, Alberto bate. Ninguém sabe o que aconteceu, pois não foram identificados problemas mecânicos que poderiam, em tese, ter feito ele sair da pista.

Algumas perguntas ficaram no ar após a sua morte como, teria ele sofrido um mal súbito em decorrência ao acidente sofrido em Mônaco? A sua gravata teria atrapalhado a sua visão? Teria ele evitado um gato preto, ou simplesmente teria o destino reivindicado a sorte que sempre o protegeu por não usar a sua camisa e capacete azul de sempre?

A família Ascari ainda teria outras dúvidas e estranhezas nos falecimento dos seus dois membros no automobilismo, pois Alberto e seu pai Antônio também faleceram aos 36 anos de idade em um dia 26 sendo Alberto no dia 26 de maio e Antônio no dia 26 de julho, ambos venceram 13 GPs, ainda os dois vieram a falecer 4 dias após terem sofrido acidentes graves, suas mortes ocorreram em curvas rápidas porém fáceis a esquerda, ambos deixaram viúva e dois filhos.

Milão, cidade em que a Família Ascari escreveu a sua história, estava em silêncio, um procissão seguia o herói caído que se movia pela primeira vez lentamente, com cerca de um milhão de pessoas silenciosas pela dor e vestidas de preto, cor esta bem diferente do vermelho vivo da Ferrari que Ascari guiou ou do calmo azul que ele vestia, foram necessários 15 carruagens para transportar as coroas de flores, o carro funerário era puxado por calos pretos emplumados, acima do seu caixão estava o seu capacete azul-claro, sua presença era tardia, Alberto Ascari conseguiu o bicampeonato, foi o primeiro filho de um piloto a ser campeão na Fórmula 1, mesmo seu pai não tendo disputado uma corrida se quer, a memoria dele como piloto do eram os GPs pré Fórmula 1 valem mais que qualquer negativa de um fã que queira seguir a risca os manuais da história da categoria, o importante que Alberto fez o seu melhor e hoje descansa ao lado do seu pai.

lll Fora das Pistas

Em 1966 nascia em Londres Helena Bonham Carter, do qual interpretou dois papeis que merecem ser destacados como perfeitos, Marla Singer em Clube da Luta e Bellatrix Lestrange na saga Harry Potter, uma das poucas vezes em que os personagens tirados dos livros e usados no cinema teviveram uma interpretação tão fascinante que o personagem cinematográfico supera a da versão dos livros, eu ia indicar uma das cenas em que Helena ao interpretar Srª. Lovett canta “By the Sea” ou “A Little Priest” em Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street, porém ao localizar o vídeo me deparei com a cena em que Professor Severo Snape e Gellert Grindelwald cantam “Pretty Women”… foda!

Rubens Gomes Passos Netto

“Netto”, popularmente conhecido entre os imigrantes Guaxupeanos que tocam a zueira no pequeno município de São Paulo, gosta de comprar livros e outras bugigangas que orbitam o universo da Fórmula 1, já semeava a discórdia ao aceitar o rótulo de “nerd”, quando em terras tropicais, tal rotulo era algo, um tanto quanto pejorativo aos descendentes de primatas residentes nas regiões montanhosas produtoras de café, o que julgava ser maravilhoso, ainda mais sendo um apaixonado pela Fórmula 1, fã da McLaren por paixão e pela Ferrari por criação, já que nasceu em uma família descente de italianos produtores de café e não fabricantes de macarrão, na sua pacata opinião a melhor temporada foi a 2008, já que por um infortúnio reprodutivo de seus pais não conseguiu assistir a temporada de 1986, admira e muito o Emerson Fittipaldi, tem como o carro dos sonhos o McLaren MP4/4 e sonha em um dia ou noite pilotar em Spa e provar que as teorias que não levam a humanidade a lugar algum dos quais ele defende são mais úteis que um relógio digital, salvo se for para comer um pastel de camarão acompanhado de um chopp escuro.