A vitória do Dick Vigarista e o fim de ciclos históricos – Dia 176 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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Você, caro leitor, já deve ter assistido ou, ao menos, ouvido falar da Corrida Maluca. O desenho animado da Hanna-Barbera foi um grande sucesso a partir da década de 1970 e que marcou as gerações subsequentes. A história envolvia 11 equipes de pilotos de personalidade bem insana e diversificada, que tinham veículos engenhosos e se digladiavam pela vitória em estradas nos Estados Unidos.

Dentre os personagens, um dos principais protagonistas era Dick Vigarista, um sujeito sempre com más intenções e que, ao lado do cachorro Muttley, tentava de tudo para prejudicar os seus adversários em busca da vitória. Apesar das táticas mirabolantes, as armadilhas sempre se voltavam ao antagonista, que perdia a corrida e terminava mal.

No mundo real, muitos cabeças de gasolina costumam associar o folclórico personagem a pilotos das categorias do automobilismo mundial, quando tomam atitudes desleais contra seus oponentes nas pistas. Este é um estigma que acaba associada a muitos nomes famosos da velocidade.

No entanto, há um piloto em particular que ficou mais marcado pela semelhança com Dick Vigarista (alguns até pelo aspecto físico, como o queixo protuberante) que até hoje seus críticos o usam para depreciá-lo. E isso tudo se consolidou com o episódio ocorrido em 13 de novembro de 1994.

Aquela era a última etapa do campeonato naquele sórdido ano. O alemão Michael Schumacher despontou como o grande favorito ao título, especialmente após o passamento de Ayrton Senna. Contudo, as desclassificações na Inglaterra e na Bélgica, além da suspensão por duas corridas, em decorrência dos incidentes de Silverstone, permitiram a Damon Hill chegar a última etapa apenas um ponto atrás.

Para a decisão, no circuito de rua de Adelaide, na Austrália, bastava ao alemão chegar à frente do inglês (ou mesmo somar um ponto a menos, a partir do terceiro lugar; ou mesmo que ambos não pontuassem) para ser o mais novo campeão mundial até então.

Porém, o fim de semana começou tumultuado, quando o piloto da Benetton bateu forte em um dos treinos livres, destruindo seu carro. Contudo, Schumi nada sofreu e pôde seguir o fim de semana sem prejuízos.

Ainda assim, Schumacher levou vantagem na classificação. Embora a pole tenha ficado com Nigel Mansell (a última do Leão na carreira), o alemão ficou imediatamente à frente de Hill na classificação, partindo de segundo, enquanto o britânico partia de terceiro.

Na largada, o enferrujado Mansell vacilou e foi superado pelos dois postulantes ao título, além de perder as posições na primeira volta para a McLaren de Mika Hakkinen e a Jordan de Rubens Barrichello. Sem nenhum oponente pelo caminho, Schumacher e Hill decidiriam o título entre si ao longo das 81 voltas… Ou antes disso.

Um resumo das primeiras 34 voltas (GPExpert)

Nas primeiras 34 voltas, o que se viu foi uma tensa perseguição entre gato e rato, com ora, Schumacher abrindo vantagem, ora Hill se aproximando. O inglês esteve sempre no encalço do alemão, esperando o momento certo de dar o bote. Mas o germânico queria se manter longe para evitar qualquer brecha.

Porém, o clímax da disputa veio na volta 35: Na entrada da curva Flinders, Schumacher perdeu o controle de seu bólido e acertou o muro. O alemão trouxe sua Benetton de volta à pista, mas Hill viu a brecha que precisava para ultrapassá-lo.

O piloto da Williams botou o carro por dentro para concluir a ultrapassagem. Então Schumacher deslocou seu carro para evitar a manobra do rival. Após o toque, a Benetton B194 alçou voo e seguiu reto em direção aos pneus. Já o FW16 número zero seguiu em frente, mas se arrastando, com avaria na parte dianteira esquerda.

Hill ainda tinha a esperança de que fosse apenas um furo de pneu ou algo de fácil reparo. Schumacher ficava do lado de fora da pista, esperando pelas notícias do oponente, enquanto conversava com os fiscais de pista e atraía a curiosidade da torcida presente.

O britânico chegou aos boxes, mas os mecânicos logo constataram que a barra de suspensão estava torta. Não havia como reparar o carro em condições de devolvê-lo a brigar pelos pontos. A decepção dentre os profissionais da Williams contrastava com a festa na garagem da Benetton, pois a escuderia das cores unidas conquistava o primeiro título de pilotos da história da categoria. Já Schumacher abria um sorriso e saudava a torcida que o saudava, ainda que de forma tímida. A disputa pelo campeonato estava encerrada.

Com o duelo encerrado, o que se esperou foi pelo fim da prova. Ainda houve um último susto, quando Mika Hakkinen teve um problema de freios no final da reta oposta e bateu forte, mas sem danos, faltando quatro voltas para o fim da prova.

 

Com o caminho livre pelos abandonos dos candidatos ao título, Mansell ficou com o caminho livre para a sua 31ª e última corrida na carreira, na sua despedida da equipe Williams. De quebra, a equipe inglesa faturou também o título de construtores, ao somar 15 pontos a mais que a Benetton. Um prêmio de consolo após uma temporada problemática e uma grande evolução do FW16 ao longo do ano.

Ao lado de Mansell, estiveram no pódio Gerhard Berger, da Ferrari, e Martin Brundle, com a segunda McLaren. Rubens Barrichello, Olivier Panis (Ligier) e Jean Alesi (Ferrari) fecharam os pontuáveis.

A última vitória do Leão (F1Sport.it)

A corrida também representou o fim derradeiro da tradicional Lotus, que disputou a última de suas 491 corridas na carreira, antes de fechar as portas. Tanto Alessandro Zanardi, como Mika Salo não conseguiram completar a prova (o italiano teve problemas no acelerador e o finlandês, pane elétrica). A escuderia fundada por Colin Chapman fechou a pior temporada de sua história sem somar um mísero ponto, terminando de forma melancólica sua trajetória.

Assim, encerrava-se uma das temporadas mais controversas da história. Para deixar bem claro: Michael Schumacher foi o melhor piloto ao longo do ano e mereceu o título pelo conjunto da obra. No entanto, as polêmicas em que esteve envolto ao longo do ano, corroborada com uma fechada desleal na briga pelo título (e que viria a se repetir três anos depois, em Jerez) acabaram sendo uma mancha no currículo vencedor do futuro heptacampeão. Por mais glórias que tenha conquistado, sempre haverá aquele lado Dick Vigarista que será ressaltado pelos críticos. Um carma que muitos campeões carregam ao longo da história.

Fonte: Stats F1

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!