A redenção de Beltoise – dia 358 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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O GP de Mônaco é um dos mais tradicionais da história do automobilismo. Ao mesmo tempo que a pista não permita muitas ultrapassagens, o circuito nas ruas de Monte Carlo não perdoa erros de pilotos, mesmo aqueles mais experientes. Diante deste cenário, ocasionalmente as surpresas ocorrem, dando aos outsiders a chance de reescreverem a sua história no automobilismo.

E a edição realizada no dia 14 de maio de 1972 parecia ser uma prova com o ingrediente certo para entrar na história, com a chuva que caía sobre o principado. Embora a tradicional prova não seja marcada pelas disputas emocionantes, a água na pista abria a possibilidade de mudanças na relação de forças da categoria.

No grid de largada, a pole ficou com Emerson Fittipaldi, a bordo de uma Lotus. Aquela foi a primeira vez que um brasileiro saía da primeira posição na partida. Na sequência viriam as Ferrari de Jacky Ickx e Clay Regazzoni. No quarto posto, viria a grande surpresa do dia aquele que seria o grande personagem desta história: o francês Jean-Pierre Beltoise.

O piloto que guiava a tradicional e decadente BRM tinha a sua melhor classificação no grid de largada naquele ano e tinha a chance de pontuar pela primeira vez no ano. Aquela era a chance que Beltoise precisava para se redimir de uma fama cruel que recebeu de seus colegas e da mídia (sobretudo a italiana).

Jean-Pierre Beltoise: da culpa à glória (Contoss da F1)

Bom, a Jean-Pierre foi um andarilho no esporte a motor: o francês venceu campeonato de motociclismo no país local antes de migrar nas quatro rodas. Beltoise construiu uma sólida carreira no endurance, e chegou a ser piloto oficial da Matra entre as corridas de resistência e a F1. Mas foi numa prova de longa duração em que a carreira quase foi destruída.

A história começou nos 1000 km de Buenos Aires, em janeiro de 1971. Beltoise guiava seu Matra quando ficou sem combustível na reta dos boxes. O francês desceu do seu carro e teve a “brilhante” ideia de empurrar o veículo até os boxes, atravessando a pista.

Então, apareceram duas Ferrari passando pela reta dos boxes. A primeira, guiada pelo britânico Mike Parkes, conseguiu desviar, mas logo atrás, veio o carro de Ignacio Giunti. O carro do italiano acertou em cheio o Matra e ambos os bólidos explodiram em chamas, com Giunti falecendo na hora.

Diante da tragédia, muitos pediram a cassação da licença de Beltoise e seu banimento das pistas, mas a FISA apenas o suspendeu por seis meses, com sursis. Após ter a sua vida e sua carreira comprometida, o francês tentou retomar sua carreira com o tempo. Para 1972, Jean-Pierre acertou com a British Racing Motors (BRM).

A escuderia britânica, tradicional e vencedora na década de 1960, vivia uma fase bem decadente, sem resultados de expressão, mesmo o apoio financeiro da Phillip Morris, estampando os cigarros Marlboro em seus carros, a situação da equipe não era das melhores. Naquela temporada, apesar do chassi ser razoavelmente bom, o motor construído pela própria companhia inglesa estava abaixo da concorrência. Como a pista de Mônaco era justamente pouco exigente ao motor, as chances de um bom resultado eram grandes. Mas o melhor estava por vir.

Desde a largada, o francês esteve na ponta (Contos da F1)

Na largada, o francês foi o que melhor largou e já passou pela Saint Devote na primeira posição, seguido por Regazzoni, Fittipaldi e Ickx. Enquanto o trio discutia o segundo lugar, Beltoise abria uma vantagem muito confortável para o grupo. Na quinta volta, o suíço da Ferrari se perdeu na Chincane do Porto. Emerson (que seguia a luz do carro do helvético devida à baixa visibilidade) foi junto na mesma área. Melhor para o belga que assumia a segunda posição.

No entanto, mesmo toda a perícia de Ickx em condições de água na pista (afinal, o belga era tido como o “Rei da Chuva” naqueles tempos), Beltoise não se intimidou e conseguiu conservar uma vantagem superior a 20 segundos.

Apesar dos percalços, ninguém podia parar o BRM de Beltoise (Globoesporte.com)

Na briga pelo pódio, Jackie Stewart passou a crescer com os erros e escapadas dos rivais e assumiu o terceiro posto antes da metade da prova. Entretanto, o escocês da Tyrrell estava bem longe de Ickx, que, por sua vez, não conseguia descontar a diferença para o líder.

Beltoise estava tão à vontade na corrida do principado que não se intimidava com os retardatários, mesmo aqueles pilotos mais renomados. Com menos da metade das 80 voltas programadas, apenas Ickx e Stewart estavam na mesma volta. Estava difícil de parar o ímpeto do piloto da BRM.

Mas quem acha que a saga de Jean-Pierre era tranquila, se engana. O francês teve suas dificuldades para segurar o carro no período em que a chuva apertou. Além disso, o gaulês sofreu com alguns retardatários, como Ronnie Peterson e Tim Schenken, mas conseguiu se desvencilhar dos percalços e conseguiu ampliar a vantagem para o ferrarista.

Enquanto isso, Stewart tinha problemas de motor e perdia rendimento. Como consequência, além de ficar uma volta atrás do líder, ainda perdeu a posição do pódio para Fittipaldi. A ultrapassagem foi importante para o brasileiro, que garantiu pela primeira vez na carreira liderança do campeonato de pilotos.

Contudo, o nome do dia foi Beltoise. O francês concluiu as 80 voltas em 2h21 e foi saudado pelo público em Mônaco. A mídia se rendeu ao desempenho de Jean-Pierre, que integrava o grupo dos vencedores de grande prêmio, e logo em uma etapa tão especial. Finalmente, o gaulês tinha seu momento de glória.

Todavia, aquela foi a única vez que Jean-Pierre subiu no alto do pódio. O francês seguiu pela categoria mais alguns anos e se dedicou ao turismo na década de 1980. Beltoise viveu uma vida mais discreta depois de largar às pistas, passando boa parte da vida ao lado da esposa Jacqueline (irmã de François Cevert) até a sua morte, em 2015.

Para a BRM, o triunfo monegasco também foi o último ato da trajetória da tradicional escuderia. Depois do feito, o desempenho foi caindo gradativamente até a equipe não ter mais condições e fechar às portas em 1978.

Apesar do desfecho triste, a alegria de Beltoise e da BRM se perpetuaram pelo tempo e o feito naquela chuvosa tarde de Mônaco mostrou que o imprevisível pode dar as caras em uma corrida de F1, especialmente para redimir quem tinha dívidas com o passado.

Fontes: Contos da F1, Continental Circus, Globoesporte,com

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!