A coroação da fênix austríaca – Dia 134 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo | Segunda Temporada

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O homem que derrotou a morte (Continental Circus)

A história da carreira de Andreas Nikolaus Lauda teve como ponto de virada o acidente em Nurburgring durante a temporada de 1976. Depois de sobreviver ao incêndio de sua Ferrari e voltar para disputar o título daquele ano, Lauda desistiu da prova decisiva no Japão por entender que as condições do tempo não eram seguras. Assim, o austríaco viu o título de campeão ir para James Hunt, em história tão lembrada pelas gerações seguintes.

Após o revés daquele campeonato, a relação de Lauda com a imprensa e a torcida italiana azedou. Pouco importava o fato dele ter escapado da morte certa e voltado às pistas. A desistência em Fuji foi vista como medo. Para piorar, o comendador Enzo Ferrari também não engoliu a atitude do austríaco. Niki, por sua vez, não engoliu o tratamento daqueles carcamanos.

Assim, o austríaco iria para a temporada de 1977, com muitas dúvidas sobre o seu real potencial, já que ainda se recuperava fisicamente do inferno vivido na Alemanha, ao mesmo tempo que não tinha a confiança da escuderia pela qual corria.

Apesar dos problemas e das dificuldades, Lauda e Ferrari ainda foram o melhor conjunto de 1977 (GPExpert)

Entretanto, o conjunto ferrarista ainda aparecia como um dos melhores do grid. O carro, o 312T2, era o mesmo modelo de 1976, mas ainda tinha potencial a ser explorado. Apesar de McLaren, Lotus, Tyrrell, Brabham e a surpreendente novata Wolf terem carros interessantes a escuderia italiana ainda tinha o talento e a consistência de Lauda, que se mostrou inabalável ao longo do ano.

Lauda ganhou três corridas ao longo das 14 primeiras etapas (África do Sul, Alemanha e Holanda), mas teve seis segundos lugares. Com as quebras e acidentes dos seus rivais diretos, como James Hunt, Mario Andretti e Jody Scheckter, o desempenho mais regular do austríaco o levou para o GP dos Estados Unidos Leste, em Watkins Glen, com grandes chances de sacramentar o seu segundo título de pilotos.

Na corrida realizada em 2 de outubro de 1977, Lauda precisava levar sua Ferrari apenas dentro da zona de pontos. Um sexto lugar, que dava um mísero ponto na época, seria o suficiente para sacramentar o seu título. Mesmo que não conseguisse, bastasse apenas que Scheckter, da Wolf, não vencesse a prova. Na classificação, o piloto da Ferrari levou a melhor, partindo de sétimo, ante o nono do sul-africano.

Apesar da situação tranquila, mais um desafio, um fantasma, estava no caminho de Lauda: a chuva veio minutos antes da prova estadunidense, deixando a pista molhada. No entanto, era uma garoa fina, bem longe da tormenta que caiu em Fuji na temporada anterior.

A chuva veio, mas não atrapalhou o austríaco desta vez (GPExpert)

Na largada, o pole, James Hunt foi superado pela Brabham do alemão Hans-Joachin Stuck, enquanto Scheckter tentava galgar posições. Lauda, por sua vez, partia para a tática de se manter, pelo menos o mais perto possível da zona de pontos.

No 15º giro, Stuck teve uma falha na embreagem e saiu da pista em direção ao gard-rail, pondo fim à grande atuação do alemão da Brabham. Hunt retomou a liderança e não saiu mais de lá. Mario Andretti tentou um último ataque nas voltas finais, mas o inglês estava seguro e caminhou para a vitória.

Hunt venceu a prova e comemorou ao seu estilo (Continental Circus)

Scheckter bem que tentou, mas não conseguiu ir além do terceiro posto, imediatamente a frente do austríaco da Ferrari. Isso era mais do que suficiente para que Niki Lauda voltasse a ser campeão mundial de Fórmula 1, 427 dias após o acidente em que quase perdeu a vida.

Apesar da vitória, a festa foi bem contida em Maranello, até porque este foi o capítulo final da passagem de Lauda pela escuderia italiana. Como o austríaco estava desgostoso com todo aquele tratamento desde o final de 1976, o piloto-aviador costurou um acordo com Bernie Ecclestone ainda no meio da temporada e, sem comunicar a ninguém, acertou sua ida para a Brabham.

Não bastasse todo o estresse ao longo de 1977, Lauda ainda teve grandes divergências internas, como a contratação de Carlos Reutemann como segundo piloto naquele ano e a demissão do mecânico Ermano Coughi, homem de confiança de Niki. A gota d’água foi o anúncio de um terceiro carro da Ferrari na etapa seguinte, no Canadá, para o novato local, Gilles Villeneuve.

O austríaco não quis mais saber daquele ambiente e deixou a equipe italiana após a corrida de Glen, não disputando as provas finais em Montreal e Fuji. Enzo Ferrari se irritou com a insolência e chamou Lauda de Ebreo (judeu em italiano), de forma pejorativa. Definitivamente, não dava para ficar em um local de trabalho assim.

Arrivederci Casa di Maranello! (Goal.com)

Lauda ficou dois anos na Brabham-Alfa Romeo, sem grandes resultados. O austríaco chegou a se aposentar, mas retornou à McLaren em 1982, disputando mais quatro campeonatos de F1 e faturando o tricampeonato em 1984. Para quem quase virou cinzas em um dos acidentes mais impactantes da história da categoria, o título de 1977 serviu para o austríaco renascer como uma fênix, demonstrando que poderia enfrentar qualquer um, tanto dentro como fora das pistas.

Fonte: Continental Circus (link 1, link 2 e link 3), Grande Prêmio e Stats F1

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!