A Batalha de Reims – Dia 45 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Eu pensei bem mais do que duas vezes se deveria escrever sobre este tema. Pesquisando as datas históricas da Fórmula 1, fui verificar se o GP da França que aconteceu em 05 de julho de 1953 teve algum acontecimento interessante que justificasse sua presença nesta série sobre os dias mais importantes da história do automobilismo. O que encontrei, por relatos e imagens, me convenceram que seria necessário alguém com talento muito maior do que o meu para descrever o que aconteceu naquele dia.

Porém você está com azar, amigo leitor, pois pelo rodízio hoje é minha vez e não dá pra deixar passar uma história como essa. Vamos a ela.

Reims, em 1953. Fonte: GP History

O GP da França daquele ano foi a quinta etapa de um campeonato que vinha sendo dominado por italianos. Alberto Ascari e Luigi Viloresi, ambos da Ferrari, eram os dois primeiros colocados na tabela até aquele momento. Ainda assim, os carros da Maserati eram os que tinham que ser batidos, e vinham pilotados pelos ases argentinos José Froilán González e Juan Manuel Fangio, campeão em 1951.

A corrida foi realizada no circuito de Reims, na cidade de mesmo nome, no norte da França, a meio caminho entre Paris e a fronteira com a Bélgica. Era formado por rodovias da região, e tinha longos 8,3km de extensão, que seriam percorridos 60 vezes (um total de 500 quilômetros de prova, distância suficiente para sair da cidade, atravessar a Bélgica e chegar até Amsterdã, na Holanda). O campeonato era regido pelas regras da Fórmula 2 da época, e não contava pontos entre os construtores. Era um traçado com longas retas (uma delas longuíssima), e duas curvas de baixa, a 5 e a 7.

Ascari fez o melhor tempo com 2:41.2 e largava na frente, com Bonetto a seu lado. O duelo era este: quatro Ferraris, com Ascari, Viloresi, Nino Farina e o único não carcamano Mike Hawthorn contra cinco Maseratis: Fangio, González, Onofre Marimón (outro Hermano), o italiano Felice Bonetto e o suíço Toulo de Graffenried. Uns Gordini e outros Cooper faziam a figuração, e 25 carros alinharam no grid.

Em uma época que permitia reabastecimento (também, pela distância da corrida, só se fossem elétricos para não parar), González optou por largar com meio tanque para ter mais velocidade, e deu certo: ultrapassou todo mundo na largada e começou a ganhar terreno. Na sequência vinham Ascari, Bonetto, Villoresi e Hawthorn. Na primeira metade da corrida o argentino abriu vantagem e, mesmo saindo do traçado em uma curva na vigésima volta ainda tinha 19 segundos de vantagem para Hawthorn, que estava em segundo, e Ascari, o terceiro – três Ferraris na frente. Fangio vinha escalando o pelotão, e começava a incomodar o líder do campeonato, até passa-lo. Hawthorn foi o próximo.

Oito quilômetros e todo mundo embolado. Fonte: Motorsport Magazine

Na volta 30, após González parar para reabastecer, a ordem já era Fangio, Hawthorn, Ascari, Farina, Marimón e González, todos os seis com num intervalo de cinco segundos. Os três primeiros corriam lado a lado, encostando o nariz de um carro na traseira do piloto à frente nas curvas, a menos de um segundo de distância entre o primeiro e o terceiro. Era espetacular.

Neste ponto, antes de começar a narrar a épica batalha que vem a seguir, me desculpo antecipadamente caso exagere nos adjetivos. Afinal de contas, esta prova ficou conhecida como muito tempo como “A Corrida do Século”.

Hawthorn e Fangio então resolveram dar uma aula de pilotagem que tirou o fôlego de quem estava vendo aquilo. Eles passaram as últimas 20 voltas da corrida trocando posições, um não mais do que meio metro longe do outro. Nas voltas 32, 33 e 34 o inglês estava à frente, mas sentia o calor do motor de Fangio nas costas. A Maserati passou e liderou por duas voltas, porém sem perder contato. Depois Hawthorn ganhou a dianteira por outras duas voltas, Fangio nas outras duas, Hawthorn por mais quatro… Não havia espaço para erros, a luta era ferrenha entre um fedelho de 24 anos que nunca vencera uma corrida e um veterano de 42 que já tinha um título. Em determinado momento, ao passar um retardatário, Mike foi pela grama para dar espaço para Fangio fazer a manobra ao lado dele. Qualquer distração poderia ser fatal, eles estavam desafiando a morte, mas toda a plateia estava mesmerizada (dizem que até uma moça muito bonita, de cabelos pretos, pele clara, sorriso fácil e com um ankh pendurado no pescoço esqueceu o que tinha ido fazer lá e ficou apreciando o duelo).

Os outros carros também iam ficando para trás, tomando voltas, parecendo que desaceleravam de propósito para assistir ao show.

Protagonistas. Fonte: Pinterest

Não sei como descrever as voltas finais. O público estava enlouquecido, os narradores gritavam em seus microfones, nem uma única pessoa presente conseguia tirar os olhos daquela massa única formada por dois carros e dois pilotos que não cediam um centímetro ao rival. Fangio tinha a dianteira entre as voltas 54 e 58, mas só porque seu eixo estava um pouco à frente do de Hawthorn, que dividia as curvas lado a lado. Na volta final ele deu o bote e, na última curva conseguiu passar, com ambos tomando a bandeirada como se fossem vagões ligados de uma locomotiva.

Após duas horas e quarenta e quatro minutos de corrida, a distância entre eles era pouco menor do que um segundo. González terminou em terceiro, a meio segundo dos líderes, e Ascari foi o quarto, menos de cinco segundos atrás.

A multidão urrava sem parar, aumentando o volume após ver a juventude e a alegria de Hawthorn, que fizera por merecer não apenas sua primeira vitória, mas também a primeira de um britânico na categoria.

Mike Hawthorne. Fonte: Namu Mirror

lll FORA DAS PISTAS

Em 5 de julho de 1687 outro britânico mudava o mundo: Isaac Newton publicava seu Philosophiae Naturalis Principia Mathematica e mudava tudo que conhecemos como ciência até hoje.

Fazem aniversário hoje Huey Lewis, que fez muita música boa incluindo aí a trilha de “De Volta Para o Futuro”, Bill Watterson, o pai das tirinhas de Calvin e Hobbes, que são em sua totalidade geniais e Terry Chimes, o baterista do The Clash.

E foi exatamente um ano após a Corrida do Século que um cara do sul dos Estados Unidos entrou num estúdio para gravar uma música e dar de presente para sua mãe. O resto foi o rock and roll. Fiquem com Elvis Presley e “That’s All Right”.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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