1º de Novembro – Piquet confirma o Tri e nasce mais um cabeça de gasolina – Dia 164 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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Por que escolhemos este ou aquele fato como significativo o suficiente para figurar entre as efemérides contadas nessa série, que pretende contar a história do automobilismo através de acontecimentos relevantes? Afinal de contas a relevância de um determinado tema pode ter peso diferente de acordo com o cronista e, principalmente, com o leitor. É claro que títulos ou corridas onde algo que mudou o esporte aconteceu merecem figurar neste espaço. Boas histórias, mesmo que não tenham causado mudanças nos rumos, também são bem vindas. Nascimentos (de pilotos, dirigentes, equipes…) são ótimos para se abordar uma biografia. Mas para você, que está aí lendo, o dia mais importante da história do automobilismo certamente foi o dia em que sua paixão pela velocidade acelerou seus batimentos cardíacos pela primeira vez. O dia em que você terminou uma corrida pendurado no lustre da sala, em que você abordou um estranho na rua ou no elevador para conversar sobre uma ultrapassagem impossível ou sobre uma estratégia genial, o dia em que você tornou-se um cabeça de gasolina.

Pois então, vejam só que coincidência: 01º de novembro foi o dia em que eu descobri que esse negócio de corrida de carro era legal prá caramba.

Imagem meramente ilustrativa. Eu não era tão bonitinho e as tvs não eram tão modernas.
Fonte: Raise Smart Kid

Um breve relato (já que minha conversão não é exatamente um dos dias mais importantes da história do automobilismo): em novembro de 1987 eu tinha 12 anos e morava em uma cidade de 20.000 habitantes no interior do Paraná, próximo à divisa com o Mato Grosso do Sul. Os tempos eram outros, então as regras sociais atualmente vigentes não podem ser totalmentente aplicadas ao que aconteceu. Era um sábado à noite normal, e meu pai saiu com alguns amigos para jogar bola (considerando que eu herdei toda a habilidade dele, o churrasco pós-jogo era realmente o main event da noite). Para tentar colocar um pouco de juízo na cabeça dele, minha mãe o fez levar o filho mais velho – afinal com uma criança junto ele não iria voltar tão tarde.

Nesse ponto da história, preciso deixar uma informação aqui: os Valesi não são exatamente conhecidos por trabalhar com limites. Voltemos.

Jogo terminado, era quase meia noite quando resolveram colocar a carne no fogo. Eu, junto com outras crianças, brincávamos em volta do campo – lembro bem de uma caçada a sapos que provou-se infrutífera mas bastante divertida. Em determinado momento da noite, alguns dos meus amigos de ocasião, reféns ao contrário pois enviados para o “cativeiro”, já havia ido embora, enquanto o resto dormia dentro dos carros ou em um sofá grande em um canto do salão de festas. À frente do sofá, uma televisão ligada na Globo (basicamente um dos dois canais que podiam ser sintonizados por lá). Eu, sem sono (limites, lembra?), peguei outra coca-cola e sentei por ali, entediado. Até que, pouco antes das três da manhã, começaram as transmissões do Grande Prêmio do Japão de 1987.

O campeonato daquele ano fora bastante disputado, pelo menos no início. A Williams tinha o melhor carro, e muita vontade de vencer, já que o último título da equipe tinha sido em 1982, com Keke Rosberg. Além disso, o time queria dar essa alegria para o chefe, pois foi antes desta temporada que Frank Williams sofreu o acidente que o deixou permanentemente sobre uma cadeira de rodas. Material humano nos cockpits eles tinham: ao lado de Mansell, o queridinho de Patrick Head, que assumiu o comando da Williams enquanto Frank se recuperava, estava o brasileiro Nelson Piquet. Ambos, não bastasse a disputa dentro dos boxes, ainda tinham que se encontrar na pista com a McLaren MP4/3 de Prost e com a Lotus 99T de Senna, carros rápidos com pilotos geniais.

Mas o Williams FW11B era o estado da arte naquele ano. Dobradinha no grid de largada já na primeira prova, com Mansell e Piquet. Nelson terminou o GP do Brasil em segundo, atrás de Prost; Mansell teve que se contentar com a sexta colocação.

Em Ímola as coisas quase acabaram para Nelsão: uma batida em alta velocidade na Tamburello o deixou fora da segunda prova do campeonato, além de provocar lesões permanentes em sua visão, prejudicando muito sua noção de profundidade e aproximação, condições necessárias para um piloto profissional. Mas Piquet escondeu isso, da mesma forma que escondia o acerto do carro para que não fosse copiado pelos mecânicos de Mansell. O brasileiro deliberadamente pedia um acerto diferente do ideal e mudava instantes antes da corrida, confiando em sua capacidade técnica para saber, mesmo sem testar, que aquelas eram as especificações certas para cada prova.

Com isso, frequentou o pódio com uma regularidade impressionante: entre a quarta e a décima-terceira prova, venceu 3, chegou em segundo em seis oportunidades e foi terceiro em outra. Fora isto, apenas um quarto lugar no México, sua pior posição de chegada no ano.

Com isso, ao chegar no estreante circuito de Suzuka para o primeiro GP do Japão em 10 anos, bastava a Nelson terminar a prova à frente de seu companheiro de equipe para se tornar o primeiro brasileiro tricampeão do mundo. Com 12 pontos atrás no campeonato e restando apenas duas corridas, se Mansell não terminasse entre os quatro primeiros a última prova, na Austrália, seria meramente decorativa.

Mansell despede-se da disputa.
Fonte: F1 Nostalgia

E a grande expectativa acabou não em explosão, mas em uma batida já na sexta-feira: ao exagerar na tomada do Carrossel, Mansell perdeu o controle do carro, escapou de traseira e acertou o muro. O piloto inglês foi levado ao hospital reclamando de dores nas costas e logo veio a informação: Nigel Mansell não participaria da prova na ilha nipônica.

Piquet, já tricampeão (apesar de precisar esperar até o domingo para o anúncio oficial), andava todo ancho pelo paddock e não quis se esforçar muito. Um quinto lugar no grid já estava prá lá de bom. Berger, enquanto isso, aproveitou para colocar a Ferrari na posição de honra, ao lado da McLaren de Prost. Na segunda fila, a Benetton de Boutsen e a outra Ferrari, com Alboreto. Teo Fabi fechava a terceira fila e Senna e Patrese vinham atrás.

Na largada, Berger mantém a ponta seguido de Prost e Boutsen, enquanto Senna ultrapassa três na primeira curva para a quarta colocação. Nelson mantém a quinta, aproveitando o vacilo de Alboreto. Ainda na primeira volta Prost precisa parar por um pneu furado que o obrigaria a fazer uma corrida de recuperação. Enquanto isso, a Ferrari de nariz para o vento disparava pelo circuito da Honda, Boutsen fazia uma prova tranquila e os brasileiros brigavam pela terceira posição. Logo o motor Ford da Benetton mostrou que não era páreo para o resto da galera, e Senna e Piquet ganham mais um posto. Essa briga entre os dois fazia com que Berger abrisse vantagem e com que a McLaren de Stefan Johansson chegasse no bolo. O sueco fez o undercut na parada nos boxes e conseguiu as posições da Lotus e da Williams, que se mantinham no jogo de gato e rato. Porém, na volta 40, um problema no motor faz com que Piquet seja obrigado a abandonar a prova. Senna, livre do perseguidor, aperta o da direita e consegue a ultrapassagem sobre a McLaren no início da última volta. Ao final da prova, tínhamos Berger comemorando sua segunda vitória na carreira e a primeira da Ferrari em mais de dois anos, Senna feliz pela excelente prova e por manter acesa a chance de vice-campeonato, Johansson contente em chegar em terceiro após largar em sétimo e Piquet tornando-se o quinto homem a conquistar o tricampeonato mundial de Fórmula 1.

Fonte: Reddit

E aquele garoto que, de boca aberta, viu tudo isso: um carro vermelho largando e chegando na frente, ultrapassagens, jogadas para ganhar posições nos boxes, disputas entre dois bons pilotos do seu país e o título de um deles, mal sabia que havia sido irremediavelmente infectado pelo vírus da velocidade.

lll FORA DAS PISTAS

Já que estamos na Memory Lane, vamos aproveitar para recordar que o dia primeiro de novembro marca alguns acontecimentos ruins, como o terremoto seguido de tsunami que devastaram Lisboa em 1755, e início da Guerra do Vietnam, em 1955. Em compensação, foi nesta data e 1512 em que o teto da Capela Sistina foi exibido ao público pela primeira vez, após a pintura de Michelangelo, e da inauguração da Casa Branca, em 1800.

Nasceram nesta data Anthony Kiedis, vocalista dos Red Hot Chili Peppers, Larry Flynt, editor norte-americano que lutou ferozmente pela liberdade de imprensa (assistam ao filme sobre sua vida), e Rick Allen – um homem tão apaixonado pelo que fazia – tocar bateria – que nem a amputação de seu braço esquerdo causada por um acidente automobilístico o impediu de continuar tocando profissionalmente. Fiquem com a banda Def Leppard e seu baterista, Rick “The Thunder God” Allen. Duvido você não entrar no ritmo que Rick dita com uma só baqueta.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.