O vagaroso mais rápido do mundo – Dia 64 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada

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(Autosport)

De acordo com os dicionários, vagaroso é o indivíduo que se comporta de modo lento, demorado, sem pressa, com diligência, demorado, apresentando falta de agitação. Por vezes, pode ser alguém sereno, mas muitas vezes é tratado por agir de forma indolente, com morosidade. Geralmente uma característica assim não se aplica a um piloto de corridas. No entanto, o velho ditado diz que “Devagar se vai ao longe” e a história de hoje mostra que a paciência tem suas recompensas.

Apesar do sobrenome propenso a anedotas, pode-se dizer que Tiago Vagaroso da Costa Monteiro foi o piloto português mais bem-sucedido no que se diz a carreira nos monopostos. Mas, para não perder o trocadilho, o seu início nas pistas demorou um pouco mais que o habitual. Nascido em 24 de julho de 1976, no Porto, Tiago se dedicou mais aos estudos, por desejo da família, e chegou a se formar em Gestão Hoteleira na Suíça.

Porém, a semente da velocidade enfim brotou em seu interior e passou a disputar campeonatos de automobilismo a partir de 1997, correndo na Porsche Carrera Cup portuguesa, sendo o estreante do ano.

A partir de 1998, foi a vez de Monteiro partir aos monopostos. Foram quatro temporadas, principalmente na Fórmula 3 Francesa, além de provas do certame britânico, alemão e europeu e de corridas especiais da categoria, como Masters de F3 e o GP de Macau. Os melhores resultados foram em 2000 e em 2001, com dois vice-campeonatos na contenda realizada na França.

Após um bom tempo, Tiago subiu de nível em 2002, para competir na Fórmula 3000 Internacional. Correndo pela Super Nova, o português conquistou um quinto lugar em Hockenheim, terminando o ano em 13º. Levando em consideração que seu companheiro de equipe, Sebastien Bourdais, foi o campeão da temporada, acabou sendo um campeonato decepcionante.

Passagem relâmpago na CART, sob o comando de Emerson Fittipaldi (Portal Brasil)

No ano seguinte, uma mudança repentina na carreira. Monteiro rumou para os Estados Unidos, disputar a temporada da CART pela equipe Fittipaldi-Dingman. O nome não é mera coincidência: a escuderia tinha como sócio ninguém menos que Emerson Fittipaldi. Apesar das dificuldades com a mudança para a América e de correr em uma equipe pequena, o gajo teve bons momentos no ano, pontuando com alguma regularidade. Terminou a temporada em 15º e teve um sexto lugar como melhor resultado.

Após a passagem pela Indy, Tiago voltou à Europa para correr na World Series by Nissan pela Carlin. Desta vez, o piloto lusitano teve uma temporada bem positiva, com quatro vitórias, terminando em segundo, apenas atrás do finlandês Heikki Kovalainen.

Com isso, as portas para a Fórmula 1 começaram a se abrir. Ainda em 2004, realizou testes pela Minardi, ocupando a posição de reserva imediato. Já em 2005, surgiu uma oportunidade na equipe Jordan.

A escuderia comandada por Eddie Jordan passava por uma fase bem diferente do seu auge no fim da década de 1990, com muitas dívidas e a falta de patrocínio. Com as finanças abaladas, o dirigente irlandês vendeu o time para o empresário russo-canadense Alex Schneider, que a rebatizaria com o nome de Midland em 2006, mas ainda usaria o nome e as cores da antiga equipe para 2005.

Tiago Monteiro na última Jordan (Continental Circus)

Para fechar o orçamento daquele ano, a Jordan recorreu a pilotos pagantes. Boa parte do orçamento vinha do indiano Narain Karthikeyan, enquanto o segundo cockpit foi ocupado por Monteiro, que trouxe 5 milhões de euros em patrocinadores, além da carreira mais sólida na base.

Com a decadente Jordan longe de sonhar com pontos, tudo que restava era brigar para não ficar em último com a Minardi. O português era facilmente o melhor piloto deste pelotão, mas não podia nem sonhar com pontos.

Então, veio o Grande Prêmio dos Estados Unidos, em Indianápolis. Na corrida mais vergonhosa da história da categoria, após uma sequência de trapalhadas a Michelin e dos dirigentes, apenas seis carros largaram, para um festival de vaias dos torcedores.

Como apenas os carros calçados com os pneus Bridgestone, essa era a chance de ouro para Jordan e Minardi conquistarem pontos na pista, de quebra com um piloto podendo chegar ao pódio, já que a Ferrari ficaria com as duas primeiras posições.

Para Tiago Monteiro, a prova foi tranquila, sem ser ameaçado por Karthikeyan ou pela dupla da Minardi, o holandês Christijan Albers e o austríaco Patrick Friesacher. Com Michael Schumacher e Rubens Barrichello confirmando a dobradinha ferrarista, o terceiro lugar tinha o valor de vitória para o português.

A única alegria de Indianapolis (Contos da F1)

Em meio ao mar de ira e vergonha, Monteiro ostentava o único sorriso daquele fim de semana. Afinal, era pela primeira e única vez que a bandeira de Portugal aparecia em um pódio na Fórmula 1, o melhor resultado de sempre dos representantes da terra de Camões.

Mas não foi só isso. Em Spa-Francorchamps, Monteiro esteve na melhor estratégia e aproveitou os infortúnios da turma à frente, conquistando o oitavo lugar e somando mais um ponto. Com sete tentos conquistados, o português terminou o campeonato em 16º, sendo o melhor novato da temporada.

De quebra, o lusitano terminou as 16 primeiras corridas da carreira, quebrando a marca que pertenciam ao lendário escocês Jackie Stewart e ao francês Olivier Panis, sendo o novato com maior sequência de corridas terminadas até então. A marca só seria batida em 2013 pelo inglês Max Chilton.

Em 2006, Tiago seguiu na equipe, que agora se chamava Midland F1, agora oficialmente sob nova direção, agora com Albers como parceiro. No entanto, com as mudanças naquela temporada, a escuderia ficou estagnada, enquanto a Toro Rosso, novo nome da Minardi após ser adquirida pela Red Bull, saltou de rendimento.

Brigando com a novata Super Aguri, a Midland não teve muitas capacidades de brigar pelos pontos. Ainda no começo do campeonato, a escuderia foi vendida para a fabricante de automóveis holandesa Spyker.

Cenas Lamentáveis no Fim do Grid (Bandeira Verde)

Com um grupo holandês no comando e um companheiro de equipe também oriundo dos Países Baixos, o ambiente ficou bem ruim para Monteiro, especialmente por conta do temperamento não muito amigável de Albers. Para piorar, por três vezes, a dupla se envolveu em toques ou disputas que quase terminaram em acidentes. O clima ficou insustentável para Monteiro permanecer e ao fim de 2006, a sua passagem pela Fórmula 1.

Desta forma, o caminho para o português foi para o turismo. Em 2007, conseguiu um contrato para a equipe oficial da Seat no World Touring Car Championship (WTCC). Tiago correu pela marca espanhola do Grupo Volkswagen até 2012, onde venceu por três vezes.

No fim de 2012, Monteiro conseguiu uma vaga na equipe oficial da Honda, que ingressaria naquela época no WTCC. Apesar do domínio da Chevrolet e da Citroën nestes anos, o português ainda teve momentos de destaque, chegando ao pódio e beliscando uma vitória aqui e acolá. Seu melhor resultado foi o terceiro lugar no campeonato, com 214 pontos.

2017 parecia promissor para Monteiro, mas… (Continental Circus)

O ano de 2017 parecia ser o redentor para Monteiro. O português liderou o início do campeonato, vencendo duas provas e mostrando regularidade. Contudo, durante sessão de testes do WTCC em Barcelona, os freios de seu Honda falharam e o piloto bateu a 255 km/h.

Tiago ficou hospitalizado por duas semanas na Espanha antes de retornar à sua terra natal para se recuperar. Ainda sofrendo de dores no pescoço e problemas na vista em decorrência do acidente, o português ainda não retornou ao automobilismo de competição, enquanto trabalha em sua recuperação. Desta forma, o piloto lusitano perdeu a chance de ser o último campeão do WTCC e de participar do novo campeonato do WTCR, categoria que substituiu o certame de turismo da FIA.

A recuperação tem sido demorada, mas para quem mostra a serenidade e a paciência até no próprio nome, a história de Tiago Monteiro ainda pode ter novos capítulos, se tudo der certo.

Fontes: Continental Circus, Contos da F1, Bandeira Verde, WTCR e Wikipedia

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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