O Fim de Spa (e das vitórias mexicanas) – Dia 17 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada.

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O circuito de Spa-Francorchamps, localizado na Bélgica, é um dos preferidos dos pilotos e dos fãs de Fórmula 1 há muito tempo. Todo mundo adora o traçado rápido, o clima imprevisível, e os cabeças de gasolina sabem de cor os nomes das curvas Raidillon, Les Combes, Blanchimont e, é claro, a famosa Eau Rouge. Este que vos escreve confessa que, se pudesse escolher apenas um circuito fora do Brasil para acompanhar in loco uma etapa, iria para a terra de Hercule Poirot.
E o Boletim do Paddock, muito à frente do seu tempo, já anunciava nos melhores circuitos da Europa. Fonte: F1 History

Mas Spa não nasceu com aquela forma de taser de Han Solo. O circuito original, projetado no início da década de 20, utilizava estradas da região e tinha mais do que o dobro dos atuais 7.004 metros de extensão. Aliás, apesar do nome, o traçado não fica na localidade de mesmo nome, sendo mais propriamente parte de Francorchamps, e fazendo divisa com Stavelot e Malmedy. Todas estas pequenas cidades eram abordadas no traçado antigo, que tinha 15 quilômetros de extensão e era formado pelas estradas que as ligavam na região belga de Ardennes. Como era comum à época, não havia proteção para os pilotos, que guiavam em altíssima velocidade entre casas, plantações, criações de animais e o que mais pudesse ser construído à beira da pista. O inglês Jackie Oliver, que correu na F1 entre as décadas de 60 e 70, venceu duas vezes as 24h de Le Mans e fundou a equipe Arrows disse certa vez, sobre o circuito: “Quando você sai da pista não faz a mínima ideia no que vai bater”.

A diferença entre o atual traçado de Spa, ali no cantinho e em negrito, e no circuito monstro das décadas de 50 e 60. Fonte: Wikipedia

Spa era a pista mais rápida da Europa, e os belgas se orgulhavam disso. Tanto que em 1939 tiraram do traçado uma curva em “U” chamada de Ancienne Douane e acabaram criando a mítica Eau Rouge só para aumentar a velocidade média. Óbvio que, com tantos trechos de pé embaixo por estradas rurais os acidentes se acumulavam. Na década de 60 foram 10 fatalidades na pista, sendo cinco só em 67 e 68. Era hora de mudar alguma coisa, tanto que a Fórmula 1 recusou-se a correr na Bélgica em 1969.

Chegamos então a 07 de junho de 1970; os organizadores da prova disseram que haviam resolvido o problema da segurança, embora tenham apenas instalado barreiras de proteção em pontos específicos e mais problemáticos do traçado e providenciado uma chicane provisória na curva Malmedy, mas mesmo assim circo da F1 resolveu desembarcar novamente na área.

Na terça-feira antes da corrida, Bruce McLaren estava testando seu CanAm no circuito de Goodwood quando a asa traseira simplesmente soltou-se do carro em um dos pontos mais rápidos do circuito, causando uma batida violenta e a morte de um dos nomes mais icônicos da velocidade. Isso foi suficiente para que todos no paddock estivessem com um ânimo sombrio no fim de semana da corrida, que não contou com a participação dos modelos da McLaren.

Em um circuito onde os carros passavam facilmente de 250 km/h e com grandes retas de pé embaixo, as BRM de Pedro Rodriguez e Jackie Oliver tinham uma vantagem de motor. Piers Courage dirigia uma De Tomaso de Frank Williams, Chris Amon vinha de March e os líderes do campeonato Jack Brabham, Jackie Stewart e Jochen Rindt comandavam a Brabham, Tyrrell e Lotus, respectivamente.

As BRM sofreram com problemas mecânicos durante as três etapas da classificação, na sexta à tarde e no sábado em dois períodos. Com isso os outros times se aproveitaram, e o grid final ficou da seguinte maneira: Stewart e Rindt na frente, seguidos por Chris Amon e pela Ferrari de Jacky Ickx, com Brabham e Rodriguez logo atrás.

Carros alinhados para a largada. Fonte: Motorsport

Um domingo de sol atípico no final da primavera belga, e os pilotos não precisavam se preocupar com pista molhada. Na largada Stewart patinou e foi ultrapassado por Rindt e Amon, que tinha uma queda especial por Spa e rapidamente assumiu a liderança. A Tyrrell se recuperou e o escocês tomou a segunda posição de Rindt, que vinha seguido de Pedro Rodriguez, Ickx e Brabham ao final da primeira volta.

O mexicano estava com el diablo no corpo e foi escalando o pelotão até assumir a liderança na volta 4, mas Chris Amon mantinha a pressão constante. Na volta 8 a BRM passou sobre uma poça de óleo na La Source; Pedro quase rodou mas segurou o carro, dando a chance para a March retomar a liderança, porém por pouco tempo. Pegando a linha de dentro na Eau Rouge Rodriguez novamente está na dianteira, com um ensandecido neozelandês tentando superá-lo em cada curva do circuito, deixando a galera de pé. Os dois batalharam desta maneira durante toda a prova, trocando voltas mais rápidas (Rodriguez fez 3:29 já no fim da prova, mas foi superado por um recorde matador de Amon com 3:27.4 na última volta). No final a BRM prevaleceu, com Rodriguez terminando a corrida apenas 1,1 segundo à frente da March. Em um Grande Prêmio com muitas desistências, coube à Matra de Jean-Pierre Beltoise um distante terceiro lugar.

No mesmo dia em que, lá na Cidade do México a seleção da casa enfiava 4 x 0 em El Salvador na segunda rodada da Copa do Mundo aconteceu a segunda e última vitória de Pedro Rodriguez e de um mexicano na F1 (Sérgio Perez vem desesperadamente tentando mudar isso – na Fórmula 1, não na Copa do Mundo). Foi também a despedida do traçado clássico de Spa: a Fórmula 1 não voltaria para lá até 1983, depois das mudanças que criaram o circuito atual, e o GP da Bélgica passou a década de 70 sendo realizado primeiro em Nivelles e depois em Zolder.

lll FORA DAS PISTAS

Nasceram em 07 de junho o cantor Tom Jones (um dos maiores nomes da música romântica da história. É estranho ouvir isso de um roqueiro convicto, mas ouçam a letra de Glory of Love e digam se não é um guia de como ser feliz no relacionamento), Liam “I will find you and I will kill you” Neeson, a tenista e bela Anna Kournikova. Nos mesmos dia e ano da prova de Spa abordada hoje, de México x El Salvador e de um Brasil 1 x 0 Inglaterra que foi caminho para o tricampeonato nascia o capitão Cafu. E em 1958 o cantor que ficou conhecido como Prince, e depois como um símbolo impronunciável.

Prince merecia sem dúvida ser nossa música de encerramento. Acho que eu iria no básico e consagrado, ficando entre Purple Rain ou Kiss. Mas acontece que um cara muito mais cool, um ator de comédia e drama com TRÊS estrelas na calçada da fama e um “smooth singer” que fazia parte (na verdade, era a própria razão da existência) do Rat Pack também nasceu num 07 de junho. Dino Paul Crocetti, ou melhor, Mr. Dean Martin.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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