O Brundle Esquecido e a Batalha de 1983 – Dia 11 de 365 dias mais importantes da história do automobilismo – Segunda Temporada

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Quando uma carreira se conclui no automobilismo, nosso reflexo natural é julgar seu sucesso pelos resultados nas categorias mais altas que o piloto em questão atingiu, ignorando toda jornada que o levou até aquele ponto ou a usando como uma mera introdução digna de apenas um ou dois parágrafos. Entretanto, alguns personagens são capazes de inverter essa moeda com temporadas espetaculares e batalhas épicas em seus primeiros anos de carreira. No dia 1º de Junho de 1959, nascia um desses pontos fora da curva.

Martin Brundle e Ayrton Senna Fonte: Divulgação

Martin Brundle teve uma carreira sólida em seus primeiros anos no automobilismo, estreando aos 12 anos de idade e constantemente terminando campeonatos no Top 3. Seu sucesso na Fórmula Ford e na BMW Championship o levou para a Fórmula 3 britânica em 1982, por muitos considerada a segunda melhor categoria de monopostos e a principal fonte de promessas para a Fórmula 1 na época. O britânico conquistou cinco poles e duas vitórias em sua temporada de estreia, fortalecendo seu nome em um paddock crucial para a carreira automobilística. Problemas financeiros chegaram perto de encerrar a carreira de Brundle nesse mesmo ano, contudo, Martin conseguiu um dos assentos da Eddie Jordan Racing para temporada seguinte. Enquanto isso, um forasteiro que vinha do outro lado do Atlântico também assinava com uma das melhores equipes do grid, a West Surrey Racing, imediatamente se colocando como o principal rival de Brundle no ano seguinte. Seu nome? Ayrton Senna. Dois jovens famintos por sucesso, buscando se provar para  Fórmula 1 e dispostos a batalhar por cada centímetro de asfalto em duas grandes equipes, a temporada de 1983 da Fórmula 3 britânica era um vulcão prestes a entrar em erupção.

Martin Brundle seguido por Ayrton Senna, Snetterton 1983 Fonte: Divulgação

David Leslie surpreendeu com a pole na primeira etapa da temporada, em Silverstone, mas Senna dominou completamente a prova após ultrapassar o britânico logo na parte inicial da prova. A vitória incontestável serviu como um cartão de visitas do brasileiro para o resto do pelotão, inclusive Brundle, que terminou a etapa em 2º e com a real noção do talento do seu rival. O que Martin não esperava era que esse domínio fosse se estender por todo 1º semestre. Ayrton não só largou na pole, como também venceu as oito etapas seguintes enquanto o britânico sempre se aproximava mas não conseguia oferecer uma resistência suficiente para ameaçar Senna. A parceria com Dick Bennetts, o engenheiro do brasileiro, foi perfeita e muito bem-sucedida desde o primeiro instante. Não importava o traçado, as condições de pista ou o grid de largada, o brasileiro parecia imbatível e todas as mudanças planejadas por Brundle e Eddie Jordan aparentavam ser insuficientes para alcançar o topo do pódio. Batalhando financeiramente para manter a equipe e praticamente dando murros em pontas de facas na missão de alcançar o jovem Senna, a dupla teve que reunir forças para não deixar a frustração tomar conta da temporada antes mesmo da metade das corridas terem sido realizadas.

Supporters of Martin Brundle (GBR) during his F3 rivalry with Ayrton Senna (BRA).
British Formula 3 Championship, Silverstone, England, 16 July 1983.

Entretanto, todas as hegemonias chegam ao fim. Silverstone recebia o grid novamente no dia 12 de Junho, agora para a 10ª etapa da temporada. Essa, todavia, era uma corrida diferente, uma vez que era disputada em conjunto com a Fórmula 3 Européia. Os pilotos que optassem por correr na vertente britânica largariam com pneus Avon, já os que escolhessem a européia partiriam para os pneus Yokohama. Com mais de 35 pontos de vantagem na ponta, Senna optou pela categoria continental. Brundle, com nada a perder, fez a mesma escolha. A nova borracha fez a diferença para Martin, que enfim foi capaz de colocar seu bólido na pole. O sucesso se estendeu para a corrida e Senna acabou rodando na tentativa de alcançar seu rival, Brundle enfim foi capaz de superar o líder do campeonato e subir ao ponto mais alto do pódio enquanto o brasileiro enfim mostrava algum sinal de fraqueza. O campeonato estava renovado e a batalha pelo título estava apenas começando.

Martin Brundle (GBR) Eddie Jordan Racing Ralt RT3/83 Toyota (Leading) controversially clashed with championship rival Ayrton Senna (BRA) West Surrey Racing Ralt Toyota RT3/83 whilst battling for the lead of the race.
British Formula Three Championship, Oulton Park, England, 6 August 1983.

A 11ª etapa, em Cadwell Park, parecia estar se encaminhando para o retorno da normalidade com Senna na Pole Position provisória, mas a posição não foi suficiente para o brasileiro, que resolveu fazer uma alteração no carro e voltar para a pista. Antes mesmo de fechar uma volta rápida, o piloto bateu forte contra o muro e ficou de fora do resto da classificação e da corrida. Brundle venceu e somou mais 9 pontos contra 0 na conta de Ayrton, a esperança crescia cada vez mais na garagem de Eddie Jordan. Outra pole de Brundle em Snetterton e polêmica logo na primeira curva. Os dois pilotos ficaram lado a lado após a largada e Senna tentou forçar uma ultrapassagem e Martin não deixou espaço suficiente no lado de fora, o asfalto acabou para o brasileiro e Brundle liderou com tranquilidade até a quadriculada. Após a prova, os comissários decidiram que a culpa do incidente era de Senna, que ficou ensandecido alegando que o automobilismo britânico estava protegendo o piloto da casa. Com três vitórias seguidas, Martin estava novamente na briga pelo título. Uma vitória para o brasileiro em Silverstone e uma para o britânico em Donington Park encaminhou o grid para mais um momento decisivo do campeonato.

(L to R): Ayrton Senna (BRA) looks on at his West Surrey Racing Ralt Toyota RT3/83 which sits perched upon championship rival Martin BrundleÕs (Right) (GBR) Eddie Jordan Racing Ralt RT3/83 Toyota (Leading), after they clashed whilst battling for the lead of the race.
British Formula Three Championship, Oulton Park, England, 6 August 1983.

Brundle largou da pole e liderava em Oulton Park mesmo sob constante ataque de Senna, até que Ayrton mergulhou em uma tentativa, no mínimo, audaciosa de ultrapassar seu rival. Martin não saiu da sua linha normal e os dois colidiram novamente, agora com o carro de Senna terminando em cima do bólido da Eddie Jordan Racing. Com o abandono dos dois, Calvin Fish coletou a vitória e foi o único além dos dois rivais a vencer na F3 britânica em 1983. Em busca de novos ares, Jordan decidiu levar seu jovem piloto para a corrida de suporte do GP da Áustria de F1. O britânico venceu com facilidade, superando nomes como Gerhard Berger, mas a festa logo se transformou em profunda tristeza quando o caminhão de carregamento da equipe, que levava o bólido e uma pequena parte do time, caiu em uma ravina no caminho de volta para a Inglaterra. O monoposto ficou destruído e Brundle perdeu seu principal mecânico no incidente.

Com a ajuda de diversas pessoas, Eddie foi capaz de reerguer sua equipe e colocar um carro no grid de Silverstone para a 16ª etapa do campeonato. Senna venceu, mas o retorno e o 2º lugar de Brundle foram uma vitória moral e um incentivo para a final da temporada. Três vitórias seguidas do britânico o colocaram na liderança por um ponto logo antes da última etapa do campeonato, Thruxton. Arquibancadas lotadas e um paddock apreensivo assistiram Senna dominar a prova com facilidade e recuperar a ponta do campeonato, se sagrando campeão da Fórmula 3 britânica. O capítulo final de uma batalha dramática e emocionante entre duas jovens promessas do automobilismo.

O sucesso na Fórmula 3 foi suficiente para garantir um assento da Toleman para Senna e um dos cockpits da Tyrrell para Brundle, mas muito além do que a história nos trouxe a partir de 1984, a batalha de 1983 ficou marcada na história devido ao que o talento e o calor de uma batalha entre dois jovens pilotos foi capaz de proporcionar ainda na Fórmula 3, nos mostrando o que é a paixão por velocidade em sua essência.

Senna vs Brundle from Mario Muth on Vimeo.

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.

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