Maurice Trintignant: o primeiro veterano da Fórmula 1 – Dia 268 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Maurice Trintignant e seu gorro Fonte: F1 Corradi

Quando se avalia as condições de um vinho, a máxima mais comum é de “quanto mais velho, melhor”. Claro que existem muitos outros fatores para se avaliar as condições da bebida sobre o seu padrão de excelência. No mundo do esporte, há muitos que se aproveitam da máxima e demonstram sua habilidade, mesmo com idade bem avançada.

Seguindo esta tendência, há quem fez esta fama, mostrando a paciência de um vinicultor dentro das pistas, passando dos tempos das Grandes Épreuves, com nomes como Tazio Nuvolari, Rudolf Caracciola, Luigi Fagioli, Achillle Varzi e Bernd Reosemeyer, seguiu na gênese da Fórmula 1 com Juan Manuel Fangio, Alberto Ascari, Giuseppe Farina e Stirling Moss, e terminou competindo com gente do calibre de Jack Brabham, Jim Clark, Graham Hill, John Surtees etc. Este foi Maurice Bienvenu Jean Paul Trintignant.

Maurice nasceu na cidade francesa de St. Cécile de Vignes em 30 de outubro de 1917. A sua família seguia a tradição da cidade na vinicultura, embora os rapazes da família também despertaram o interesse nas corridas de automóveis, que se tornaram cada vez mais populares. O irmão mais velho, Louis, foi o primeiro a se enveredar pelas estradas e pelas pistas, mas faleceu em um acidente no ano de 1933.

O jovem Maurice esperou cinco anos para levar a honra da família ao automobilismo. Sua primeira corrida foi com o mesmo bólido com o qual o irmão competia, um Bugatti. Os primeiros resultados foram bem promissores, com vitórias em duas edições do Grande Prêmio das Fronteiras, disputados em Chimay, Bélgica, nos anos de 1938 e 1939.

No entanto, veio a Segunda Guerra Mundial. Enquanto o sangue escorria da montanha quando Hitler chamou toda a Alemanha, Trintignant escondeu seu Bugatti dentro de um celeiro e deixava as corridas de lado para sobreviver aos horrores das batalhas.

Após o término das contendas militares, as competições automobilísticas voltavam em 1945. Maurice tirou seu Bugatti do esconderijo e voltou às competições. Porém, a primeira participação em corridas após a guerra terminou antes da largada. O motivo: as mangueiras do sistema de injeção de combustível estavam entupidas com fezes de rato! Aí não deu para segurar a zoeira: com a comunidade automobilística o chamando de “Le Petoulet” (cocô de rato em francês), Maurice assumiu o apelido e assim seguiu a sua carreira.

Mesmo com a zombaria, “Le Petoulet” mostrava que ainda era um competidor de alto nível conquistando resultados marcantes na França. Em 1947, passou a ser piloto da Simca-Gordini, tornando-se um líder da equipe, com vitórias nas provas de estrada em Perpignan e Montihéry.

Contudo, o ano de 1948 quase acabou marcado pela tragédia. O Grande Prêmio da Suíça daquele ano já tinha um ar pesado pela morte de Archille Varzi durante os treinos. A corrida seguiu e, na quarta volta, Trintignant bateu forte na barreira de proteção e seu corpo foi arremessado no meio da pista, sendo quase atropelado.

Num primeiro momento, o piloto chegou a ser declarado morto, mas Maurice era persistente e foi levado ao hospital, onde teve ferimentos sérios pelo corpo, com lesões no baço e quatro dentes perdidos. Trintignant passou a usar um gorro para esconder as marcas do acidente. Foi quase um ano fora das pistas até sua recuperação. Para seu lugar, a Simca-Gordini trouxe um promissor argentino para o debute no automobilismo europeu, um tal de Juan Manuel Fangio.

Em 1949, o francês voltou em boa forma conquistando resultados relevantes no seu país natal e demonstrava estar pronto para competir com os ases do esporte a motor. O ano de 1950 foi o primeiro em que se organizou um campeonato mundial de pilotos, aquela que conhecemos hoje como Fórmula 1. Trintignant participou da primeira temporada da história, mas apenas em duas corridas.

A sua estreia foi no Principado de Mônaco, palco que seria marcante em sua carreira, mas primeira participação na F1 terminou em um acidente na largada. O francês ainda correu em Monza, mas também não terminou a prova.

As temporadas seguintes, ainda a bordo da Gordini, foram complicadas para Trintignant. Em 1951, o francês disputou quatro provas e abandonou todas. Em 1952, foram cinco etapas e um quinto lugar na França, dando-lhe os primeiros pontos da carreira. Já em 1953, o piloto participou de sete etapas, com dois quintos lugares e o 11º na classificação do campeonato.

O auge veio na Ferrari Fonte: F1 Corradi

A participação em 1953 chamou a atenção de Enzo Ferrari, que trouxe Trintignant para correr pela Casa de Maranello. A primeira participação do francês na escuderia italiana foi bem positiva. Mostrando a cautela e a constância típicas do seu estilo de pilotagem, conseguiu um segundo e um terceiro lugares na temporada e terminou o ano em quarto com 17 pontos. Além disso, “Le Petoulet” colocou seu nome entre os vencedores das 24 Horas de Le Mans, junto com o argentino José Froilan Gonzalez, levando o cavalinho rampante ao topo em Le Sarthe.

O começo do ano seguinte mostrou-se bastante promissor. Na Argentina, Trintignant terminou em segundo e terceiro lugar (?) em um esquema de revezamento dos carros de Maranello envolvendo Gonzalez, Giuseppe Farina e Umberto Maglioli, levando o francês a somar 3,33 pontos (??).

Já a corrida seguinte, nas ruas de Monte Carlo, foi o marco na carreira do francês. Maurice fez uma corrida baseada na espera e na regularidade. Fangio liderou a primeira parte da prova, mas abandonou com problemas na suspensão. Stirling Moss assumiu a ponta, mas teve um motor quebrado a 19 voltas do fim. No mesmo giro, Alberto Ascari bateu sua Ferrari na chincane do Porto (ainda a versão antiga) e a liderança parou nas mãos de Trintignant, que levou sua Ferrari a vitória. Foi a primeira vez que um piloto da França vencia uma corrida na Fórmula 1.

Trintignant deixou o principado na liderança do campeonato de pilotos até então, porém a falta de sorte nas demais corridas do ano, além da força da Mercedes naquela temporada, o impediram de sonhar com o campeonato. Mais uma vez, o francês fechou o ano em quarto, com 11,33 pontos (???).

Em 1956, o francês partiu para novos projetos a bordo da Vanwall, além de uma prova pela Bugatti, porém Maurice abandonou todas as etapas que disputou. Na temporada seguinte, fez três corridas pela Ferrari, somando cinco pontos.

Um dos primeiros “Reis de Mônaco” Fonte: Continental Circus

Desta forma, Trintignant teve mais um grande momento reservado, a bordo da Cooper Climax, da equipe de Rob Walker. Mais uma vez, em Mônaco, o francês se aproveitou dos problemas dos rivais e conseguiu manter o carro rumo à vitória. Assim, Maurice foi considerado por um tempo o “Rei de Mônaco”, a mesma fama que pilotos de renome, como Graham Hill e Ayrton Senna, carregaram.

Trintignant teve temporadas bem sólidas pela Cooper, tendo um sétimo lugar em 1958 e um quinto em 1959 no campeonato de construtores. A partir da década de 1960, o piloto francês passou a ser um nômade, com passagens em experiências malsucedidas, como a empreitada da Aston Martin na Fórmula 1 e uma corrida com a Lola de Reg Parnell.

Aos 47 anos, Maurice disputou o ano de 1964 com um carro privado da BRM. Em cinco corridas, beliscou um quinto lugar em Nurburgring. Após o abandono no GP da Itália, em Monza, a carreira de “Le Petoulet” na Fórmula 1 chegava ao fim.

Trintignant ainda fez participações esporádicas em outras competições: disputou em 1965 as 24 Horas de Le Mans com Guy Ligier, participou de testes com carros dos anos 70 e 80, esteve em uma edição do Rali Paris-Dakar, em 1982 e apareceu em eventos de carros de competição antigos.

No entanto, sua vida após a passagem pela F1 foi mais dedicada à produção de vinhos, seguindo as tradições familiares. Trintignant instalou-se na cidade Vergèze, no sul francês, onde administrou uma vinícola especializada em tintos e rosés, O piloto ainda chegou a ser prefeito do município. Maurice viveu até os 84 anos e faleceu em 13 de fevereiro de 2005 no hospital de Nimes.

O nome Trintignant ainda permaneceu forte em território francês, com o seu sobrinho Jean-Louis sendo um conceituado ator, vencedor da Palma de Ouro, em Cannes. Além disso, as marcas de vinho de sua adega ainda são bem lembradas, inclusive a com o seu apelido nos tempos de piloto, Le Petoulet, sendo a mais conhecida de sua adega com o slogan “Le champion des vins — Le vin du champion” (O campeão dos vinhos – o vinho dos campeões).  O lema apropriado para uma longeva e sofisticada carreira na categoria máxima do automobilismo.

Fontes: Continental Circus, F1 Corradi, Stats F1 e Wikipedia

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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