Jacques Laffite: a longevidade francesa – Dia 184 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo

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O automobilismo francês sempre foi referência mundial na formação de pilotos e equipes. No seu auge, durante os anos 1970 e 1980, uma legião vinda da terra de Asterix se colocou em posição de destaque na Fórmula 1. Um dos grandes baluartes dessa geração gaulesa a desembarcar na categoria máxima do automobilismo e um dos representantes mais fiel do orgulho bleu-blanc-rouge foi Jacques-Henri Marie Sabin Laffite.

Nascido em 21 de novembro de 1943 em Paris, Laffite teve uma carreira nas pistas um pouco diferente da maioria dos pilotos que passaram pelo grid. Com um início de jornada tardio nas pistas, o seu nome começou a aparecer na mídia esportiva apenas no início da década de 1970.

O primeiro grande momento de Laffite no automobilismo foi aos 28 anos, com a participação nas 24 Horas de Le Mans de 1972 ao lado do compatriota Pierre Maublanc, a bordo de Ligier JS2 Maserati V6 na categoria Sport. A participação acabou perto da 23ª hora após uma quebra de motor. Apesar do infortúnio, aquele era o início de uma longeva parceria do piloto parisiense com o construtor Guy Ligier.

Em 1973, Laffite e Ligier estreitaram ainda mais suas relações, fazendo dupla naquela edição de Le Mans, mas a empreitada não durou mais de três horas. Além do endurance, Jacques também começou a se destacar nos monopostos, com o título francês da Fórmula 3.

Laffite foi o oitavo nas 24 horas de Le Mans em 1974. Fonte Grande Prêmio

No ano seguinte, Laffite subiu para a Fórmula 2 e terminou com um honroso terceiro lugar na temporada de estreia. Em Le Mans, fez mais uma participação, sempre com um carro da Ligier, tendo ao seu lado Alain Serpaggi. Desta vez, a dupla francesa chegou ao fim, em oitavo na classificação geral e em quinto na classe Sport.

Além disso, 1974 foi o ano de entrada de Laffite na Fórmula 1, este já com mais de 30 anos. A primeira oportunidade veio por meio da Iso Marlboro, equipe cujo dono era ninguém menos que Frank Williams. O francês disputou cinco corridas, terminando apenas uma, na 15ª colocação.

Passagem pela Frank Williams Racing Cars em 1975. Fonte: Pinterest

Para a temporada de 1975, Laffite dividiu os seus esforços entre a F1 e a F2. Na divisão de acesso, o francês foi o soberano com seis vitórias, conquistando o título. Na categoria máxima, Jacques fez mais um ano pela agora renomeada Frank Williams Racing Cars. Em onze corridas, teve como destaque o excelente segundo lugar no caótico GP da Alemanha, em Nurburgring.

Então, Guy Ligier resolveu dar o passo decisivo no seu empreendimento automobilístico. O construtor resolveu construir um carro para disputar a F1 a partir de 1976, com os bons motores da Matra e patrocínio da Societé d’Explotation Industrielle des Tabaques et Allumettes (SEITA, dona da marca de cigarros Gitanes). Para iniciar a empreitada, nada melhor que chamar o velho conhecido para o início do projeto. Assim, Laffite vestiria a camisa da Ligier mais uma vez, (re)iniciando uma longa parceira.

O primeiro bólido desenvolvido pela Ligier, o JS5, projetado por Gerard Ducarouge e Paul Carillo chocou a categoria pela sua excentricidade, especialmente do periscópio na parte superior do veículo, gerando os singelos apelidos de “bule de chá” ou de “Corcunda de Notre Dame”. A Fisa se movimentou e proibiu que as equipes usassem tal apetrecho a partir do GP da Espanha, a quarta etapa do campeonato.

O bule da Ligier. Fonte: Grande Prêmio

A primeira temporada da Ligier teve até saldo positivo, com três pódios (um segundo lugar em Zeltweg e dois terceiros em Zolder e Monza), Laffite fechou o ano em oitavo entre os pilotos, com 20 pontos.

O ano de 1977 começou complicado para a esquadra gaulesa, com o JS7. Nas primeiras sete corridas, muitos problemas e alguns acidentes atrapalharam todos os planos, deixando tanto piloto como equipe zerados na classificação.

Porém a sorte finalmente sorriu em Anderstorp, na Suécia. Laffite largou em oitavo e ficou no meio do pelotão, mas foi subindo com os problemas e com ultrapassagens, até a volta 41, quando tomou o segundo posto da McLaren de James Hunt. De quebra, Mario Andretti, que liderava a prova, precisou fazer uma parada para reabastecer e cedeu a liderança para a Ligier número 26. Assim, tanto o piloto como a equipe francesa puderam celebrar a primeira vitória na F1. O francês ainda teve alguns altos e baixos naquele ano, terminando o certame na décima posição, com 18 pontos.

A primeira vitória de Laffite, em Anderstorp. Fonte: Grande Prêmio

Em 1978, a Ligier alternou entre o JS7 e o JS9 no começo do campeonato. A temporada não teve vitórias, como no ano anterior, mas teve uma melhor distribuição de pontos. Com dois pódios, Laffite foi o oitavo, com 19 tentos somados.

A Fórmula 1 experimentava um período de mudanças, com o desenvolvimento do carro-asa e a Ligier deu sinais que daria o pulo do gato em 1979, agora com dois carros, tendo a companhia de Patrick Depailler, além de usar o motor Ford Cosworth. O começo do ano foi dos sonhos para Jacques Laffite, vencendo as duas primeiras etapas, em Buenos Aires e Interlagos (esta uma dobradinha da Ligier). Depailler também venceu uma etapa, em Jarama.

No entanto, o JS11 não era páreo para equipes mais fortes, como a Ferrari e a Williams, e Laffite não conseguiu brigar pelo título, assim como Depailler (este quebrou as pernas em um acidente de asa-delta e ficou fora do restante da temporada, sendo substituído por Jacky Ickx) e teve de se contentar com o quarto posto no mundial de pilotos, com 36 pontos. Ainda assim, foi o melhor resultado do piloto francês, bem como da Ligier, terceira entre os construtores.

Começo avassalador em 1979. Fonte: Grande Prêmio

Chegada a década de 1980, Laffite teria a companhia do promissor Didier Pironi na equipe gaulesa. Com uma leve adaptação do carro anterior, o JS11/15 fez um bom trabalho e foi um páreo duro nas corridas daquele ano. Jacques venceu em Hockenheim e obteve mais quatro pódios, com dois segundos e dois terceiros. O parisiense teminou novamente em quarto, com 34 pontos, dois à frente de Pironi. O desempenho da dupla permitiu a Ligier o seu melhor resultado na história, com o vice-campeonato dos construtores, atrás apenas da Williams.

Em 1981, a Talbot adquiriu parte da Ligier e recolocou os motores Matra (outrora pertencentes a Simca) no novo JS17. Sem Pironi, que foi para a Ferrari, o segundo carro teve três pilotos (Jean-Pierre Jabouille, Jean-Pierre Jarier e Patrick Tambay), Laffite ficou com a incumbência de carregar a equipe nas costas, e com bom desempenho.

Laffite fez a melhor temporada da carreira, pontuando em todas as provas que terminou. O francês obteve duas vitórias na Áustria e em Montreal. A vitória em solo canadense foi debaixo de muita chuva, com uma atuação magistral do piloto da Ligier, inclusive o colocando na luta direta pelo título da temporada com Nelson Piquet e Carlos Reutemann. No fim, o triunfo no Canadá foi o último de sua carreira, e os 44 pontos lhe renderam mais um quarto lugar na classificação final.

Em 1981, deu até para sonhar com título. Fonte: Tumblr

A Ligier entrou em declínio a partir de 1982. Sem Gerard Ducarouge no projeto e com o propulsor da Matra tornando-se obsoleto em relação aos novos motores turbos, Laffite não conseguiu repetir os bons resultados. Apenas um terceiro lugar na Áustria e cinco míseros pontinhos encerraram sua trajetória na equipe gaulesa.

O piloto francês arranjou emprego com outro velho conhecido: Frank Williams. Agora com uma equipe sólida e de ponta, Laffite imaginava repetir os bons resultados obtidos na Ligier. Contudo, o desempenho foi bem aquém do esperado. Sofrendo com os tétricos motores Ford Cosworth aspirados, em comparação aos propulsores turbo, Jacques não conseguiu sequer subir ao pódio, terminando 1983 em 11º com 11 pontos.

Na Williams, período bem difícil. Fonte: Grande Prêmio

Em 1984, com os novos e pouco desenvolvidos motores Honda e um carro ainda aquém no quesito aerodinâmica, o desempenho foi ainda pior: apenas cinco pontos e um 14º lugar. Para efeito de comparação, Keke Rosberg somou 47,5 pontos nos dois anos, contra 16 do gaulês no mesmo período.

Laffite voltou a sua “verdadeira” casa em 1985, com uma Ligier sedenta por uma recuperação urgente após anos de míngua. A equipe voltava a ter motores franceses, com o turbo da Renault. O piloto francês ainda fazia um bom serviço somando pontos quando possível, enquanto o outro bólido era destruído dirigido pelo “mito” Andrea de Cesaris. Enquanto o gaulês conseguia dois pódios seguidos (Silverstone e Hockenheim), o italiano mal se mantinha na pista.

De Cesaris foi demitido e substituído por Philippe Steiff. A Ligier ainda pôde celebrar o pódio com os dois carros na última etapa do ano, em Adelaide, mas o clima na equipe azedou em solo australiano, quando os carros se colidiram após uma tentativa de ultrapassagem desastrada do novato.

Laffite ainda chegou em segundo, sem problemas, mas Streiff cruzou a meta final em terceiro com o bólido detonado, sendo despedido imediatamente por Guy Ligier. Já o veterano terminava a temporada em nono, a frente na classificação de ninguém menos que Niki Lauda.

Tendo a companhia de Rene Arnoux, a temporada de 1986 começou bem auspiciosa para a escuderia francesa. Laffite conseguiu um terceiro lugar logo na abertura do mundial, em Jacarepaguá. O veterano foi pontuando com frequência, com um quinto lugar (em Spa) e dois sextos (Mônaco e Paul Ricard). Mas o melhor momento foi nas ruas de Detroit, em que o Jacques conseguiu um brilhante segundo posto, apenas atrás da Lotus de Ayrton Senna.

Laffite doutrinando em Detroit. Fonte: Grande Prêmio

O GP da Inglaterra de 1986, realizado em Brands Hatch em 13 de julho de 1986, seria um marco na carreira do parisiense. Afinal, Laffite alcançaria a marca de 176 grandes prêmios disputados, igualando Graham Hill e tornando-se, até então o recordista de longevidade na categoria.

Porém, o fim de semana se mostrava muito difícil, devido a problemas com o injetor de combustível e a um acidente com Rosberg atrapalharam na busca pela classificação. O piloto da Ligier largava apenas em 19º (pior grid do ano) e havia o temor de qualquer quiproquó na zona intermediária do grid.

O fim da linha. Fonte: Stats F1

Assim, na hora da largada, o maior temor foi o que aconteceu: a Williams de Nigel Mansell engazopou nos metros iniciais e todo mundo teve que desviar do bólido lento. O belga Thierry Boutsen perdeu o controle de sua Arrows, bateu e voltou para a pista, outros carros tentaram desviar e Laffite ficou lado a lado com a Ferrari de Stefan Johansson. O Ligier JS27 bateu na barreira de pneus ficando preso. O francês teve uma fratura na bacia e ficou preso no carro por quase uma hora, até a equipe de resgate conseguir tirá-lo.

Apesar de ter se recuperado, o trauma e a idade avançada (afinal, já tinha mais de 42 anos) o fizeram abandonar a carreira na Fórmula 1, exatamente quando com o mesmo número de GPs de Hill.

Laffite ainda fez algumas corridas em categorias de turismo, como a DTM, e de mais quatro edições das 24 horas de Le Mans antes de deixar às pistas. Entretanto, o parisiense ainda seguiu ligado ao automobilismo, como comentarista da TV1, emissora francesa que transmite a F1.

Jacques Laffite, mais do que o homem-símbolo da Ligier, ajudou a construir uma das mais incríveis épocas da Fórmula 1, representando o automobilismo francês com louvor.

Referência: Stats F1, Blog a Mil por Hora (Rodrigo Mattar) e Grande Prêmio

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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