Dia 39 de 365 dias dos mais importantes da história do Automobilismo – 29 de Junho de 2003, Keke & Mika & Kimi & Valtteri

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  O GP da Europa de 2003, disputado no dia 29 de Junho, marcou a primeira vez que Kimi Raikkonen largou na ponta em sua carreira. Entretanto, muito mais que uma simples pole position, a marca serviu para cimentar a ressurreição do automobilismo finlandês após a saída do bicampeão Mika Hakkinen em 2001. Dito isso, como um país tão pequeno e que sequer recebeu um GP até hoje consegue manter ao menos um piloto no topo da categoria mais alta do automobilismo mundial durante décadas?

Fonte: DriveTribe

  O aproveitamento dos pilotos finlandês é invejável. O país possui o maior número de campeões mundiais per capita no mundo, dos oito finlandeses que já largaram em um GP, sete subiram ao pódio, cinco já venceram uma corrida e três foram campeões mundiais. Quando colocamos essas estatísticas em contraste com a realidade brasileira na categoria, os números alcançados pelo país nórdico soam ainda mais impressionantes. Dos 31 brasileiros que já passaram por um cockpit da F1, 9 subiram ao pódio, 6 venceram uma corrida e os mesmos 3 foram campeões mundiais. Vale lembrar que a população da Finlândia gira em torno de 5.5 milhões de pessoas, o equivalente a menos da metade da população do município de São Paulo. Muitos especialistas e até mesmo os próprios pilotos atribuem o sucesso da nação no automobilismo à realidade da vida comum no país. As crianças são ensinadas a dirigir bem novas e os motoristas tem que estar preparados para todo tipo de temperatura e superfície devido ao clima da região, passando por gelo, neve, lama, água e outras situações delicadas. Essa perícia necessária para driblar os elementos faz com que o talento no volante se refine cada vez mais. 

  Para entender o começo do sucesso nórdico na categoria, temos que voltar a 1978, ano de estreia do primeiro finlandês com uma vaga de titular na Fórmula 1, Keke Rosberg. O primeiro finlandês voador estreou nos karts ainda muito jovem e foi cinco vezes campeão nacional na categoria. Chegou à F1 relativamente tarde, competindo em seu primeiro GP com 29 anos. Migrando entre equipes do final do pelotão, a carreira de Keke parecia estar perto do fim quando o dinheiro da Fittipaldi Racing chegou ao fim em 1981, no entanto, a aposentadoria repentina de Alan Jones abriu uma vaga preciosa na Williams, que seria logo preenchida por Rosberg. Em talvez uma das temporadas mais trágicas e incomuns da história da F1, Keke prezou pela consistência para conquistar o título mundial de 1982, vencendo apenas uma corrida no ano, igualando o feito de Mike Hawthorne em 1958. Apesar da sua aposentadoria quatro anos depois, seu sucesso abriu as portas para outros grandes nomes tentarem a sorte na categoria. 

Fonte: Formula 1

  No ano seguinte, Keke Rosberg passou a cuidar da carreira de dois compatriotas: JJ Letho, que se tornaria piloto da Onyx em 1989 e conquistaria um pódio heroico com a Scuderia Itália em 1991, se aposentando no final de 1994, e o grande Mika Hakkinen. Assim como Keke, Hakkinen também se destacou nas categorias menores e logo escalou o cenário automobilístico nórdico para competir por um assento na Fórmula 1. Atingiu sua meta em 1991, e após dois anos na modesta Lotus, conquistou a chance da sua vida ao ser contratado pela McLaren, substituindo Michael Andretti nas últimas corridas de 1993. Após anos de sucesso como piloto da equipe inglesa, Mika finalmente conquistou sua primeira vitória, na última corrida de 1997, após 96 GPs na categoria. A boa fase foi carregada para o ano seguinte e o finlandês superaria seu grande rival, Michael Schumacher, na briga pelo campeonato de pilotos. Hakkinen ainda chegaria ao bicampeonato em 1999 e ficaria 19 pontos atrás de um possível terceiro título no ano seguinte, se aposentando no final de 2001. O sucesso finlandês na categoria manteve as portas abertas para novos rostos, e assim que Hakkinen se aposentou, um substituto de nome e talento semelhantes já estava à postos para carregar a bandeira azul e branca na Fórmula 1.

Fonte: Postimg

  Após meras 23 corridas em outras categorias, Kimi Raikkonen recebeu sua super licença para se tornar piloto da Fórmula 1 e suas 13 vitórias durante a curta carreira nas categorias menores foram suficientes para atrair a atenção de Peter Sauber, que contratou o finlandês para a temporada de 2001, mesmo em meio a críticas sobre a inexperiência do piloto. O homem de gelo por sua vez, calou os detratores ao pontuar em sua primeira corrida na categoria, isso após estar dormindo 30 minutos antes de sua estreia. Mesmo em um carro mais lento, a temporada de Raikkonen foi sólida, arrancando pontos e alavancando a Sauber no campeonato. Seu desempenho foi suficiente para render uma oferta de Ron Dennis, que estava em busca de um substituto na McLaren para Mika Hakkinen, após sua saída em 2002. Kimi subiu ao pódio em sua primeira corrida pela equipe inglesa, repetindo o feito algumas vezes durante o ano mas sempre esbarrando na confiabilidade do carro. Raikkonen logo se estabeleceu como um piloto de alto gabarito na McLaren, conquistando sua primeira vitória e primeira pole em 2003. Não obstante, agora sua presença no topo do pelotão já é mais do que esperada, independente de estar pilotando por McLaren, Lotus ou Ferrari. Se estabeleceu como piloto de ponta na McLaren, conquistou seu primeiro título na Ferrari, levou a Lotus à duas vitórias e segue angariando bons resultados hoje em dia, provando que seu talento não depende de uma certa equipe ou um certo regulamento. 

Fonte: Badger GP

  Enquanto Kimi carregava o legado de sua nação na categoria, Mika acompanhava a preparação do próximo finlandês voador com potencial para abalar o paddock, Valtteri Bottas. O último nórdico a entrar na categoria chegou em 2013 como piloto da Williams em um dos piores anos da equipe, ainda sim, colocou seu monoposto em 3º no grid do GP do Canadá e superou seu companheiro de equipe, Pastor Maldonado, no campeonato de pilotos. A partir de 2014, Bottas acompanhou o ressurgimento da equipe de Grove, constantemente brigando por pódios e acompanhando o ritmo do experiente Felipe Massa, que ocupava o outro lado da garagem. A calma, os bons resultados e o ritmo constante de Valtteri foram suficientes para atrair a atenção da Mercedes após a aposentadoria repentina de Nico Rosberg, filho do primeiro finlandês citado, Keke Rosberg. Mesmo em meio a dúvidas em relação a sua capacidade de brigar com Lewis Hamilton, o finlandês vem demonstrando a mesma constância dos tempos de Williams, subindo com frequência ao pódio e inclusive garantindo sua primeira vitória da carreira no GP da Rússia de 2017, após 81 largadas na categoria. Segundo Mika Hakkinen, seu mentor e motorista de casamento, Bottas tem todo o potencial para ser campeão mundial de Fórmula 1. 

Fonte: SkySports

  Mesmo com uma extensão territorial menor que o estado de Goiás, a Finlândia segue com um aproveitamento espetacular entre seus pilotos em resultados relativos ou absolutos, sendo a 5ª nação com mais vitórias em GPs no mundo. Dito isso, ainda que raros, seguramente podemos esperar novos finlandês surgirem no grid em um futuro próximo. Calmos, centrados, porém frios e clínicos no cockpit, uma combinação extremamente efetiva.

 

Agradecimentos: Carlos Valesi e Cristiano Seixas

Fernando Brandão Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Formula Legend e no Superlicense de vez nunca.

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