Dia 33 de 365 dias dos mais importantes da história do Automobilismo – 23 de Junho de 1991 – Mazda vence em Le Mans com renegados da F1, Gachot vai do podium para a cadeia, Herbert vence, mas não vai ao podium

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A 59ª edição das 24 horas de Le Mans disputada entre 22 e 23 de junho de 1991 foi marcada pelo declínio que começava a se abater sobre o Mundial de Esporte Protótipos também conhecido como Mundial de Marcas. As restrições impostas pela FIA em relação à capacidade e os tipos de motores começaram a desmotivar as marcas e a causar o esvaziamento do grid. Neste ano apenas 38 carros largaram em Le Mans, prova que normalmente conta com 50 carro ou mais. Foi uma edição de uma maneira ou de outra muito ligada a F1.

Jaguar venceu a prova de 1990 e estampava o artaz das provas de 1991. Fonte: @Tumblr

Entre os favoritos tínhamos a equipe oficial da Peugeot que vinha com o carro #5 guiado por Phillippe Alliot, Jean Pierre Jaboullie, Mauro Baldi e o #6 com Keke Rosberg, Yannick Dalmas, Pierre Henri Raphanel, o time francês era comandado por Jean Todt. A Jaguar Silk Cut comandada por Tom Walkinshaw, vinha com três carros: #33 com Derek Warwick, John Nielsen, Andy Wallace, o #34 com Teo Fabi, Bob Wollek, Kenny Achesson e o #35 com Raul Boesel, Davy Jones, Michel Ferte. Por fim a Sauber Mercedes também alinhava três carros: #1 com Jean Louis Schlesser, Jochen Mass, Alain Ferte, o #32 com Jonatham Palmer, Stanley Dickens, Kurt Thiim e o #31 com Michael Schumacher, Karl Wendlinger, Fritz Kreutzpointner.

A Mazdaspeed que não estava entre as favoritas chegou a La Sarthe com três bólidos: #55 com Johnny Herbert, Bertrand Gachot, Volker Weidler, #56 com Pierre Dieudonne, Takashi Yorino, Yojiro Terada e o #18 com Stefan Johansson, Maurizio Sala, Dave Kennedy.

O Mazda 787B. Fonte: @Mazda

A ligação entre esta edição de Le Mans e a F1 nunca foram tão evidente: Jean Todt que comandava a Peugeot seria contratado pela Ferrari no meio de 1993 com a missão de recolocar a Casa de Maranello na trilha das vitórias, a Peugeot chegaria a F1 em 1994 fornecendo motores para a McLaren, Tom Walkinshaw era sócio da Benetton e seria decisivo em uma das trocas de cockpit mais polemicas que ocorreria no time de Flavio Briatore ainda em 1991. Mercedes, Jaguar, Peugeot e Mazda contavam com 16 pilotos que já haviam passado ou estavam naquele momento na F1, mais 2 que chegariam lá em pouquíssimo tempo. A Sauber Mercedes desembarcaria na categoria de Bernie Ecclestone e Max Mosley em 1993 e a Jaguar o faria apenas em 2000.

A Peugeot dominou a primeira fila com o #5 cravando a pole sendo acompanhado pelo #6, os demais rivais sairiam bem atrás: Jaguar tinha o #35 em 18º, o #33 em 24º e o #34 em 27º, a Sauber Mercedes partiria em 11º com o #1, em 12º com o #31 e em 13º com o #32. Por fim a Mazda colocou o #55 em 19º, o #18 em 23º e o #56 na modestíssima 30º posição. Uma observação importante, as regras do Mundial de Marcas previam que os carros da categoria C1 ocupariam as 10 primeiras posições no grid, por isso Sauber Mercedes, Jaguar e Mazda largaram tão atrás.

Na corrida os dois Peugeot mantiveram a ponta no início, mas ambos quebraram logo no começo, o pole position #5 aguentou apenas 22 voltas e o #6 deixou a disputa na volta 68. Os problemas foram vitimando os carros de Sauber Mercedes e Jaguar, enquanto isso os Mazda iam galgando posições no pelotão. A Porsche com as equipes Repsol Brun e Konrad Motorsport não conseguiu se aproveitar dos infortúnios dos rivais.

A partir da quarta hora a Sauber ocupava as três primeiras posições com o Mazda em quarto. Durante a madrugada o primeiro Sauber a apresentar problemas foi o #32, quarenta minutos depois foi a vez do carro #31 de Schumacher e Wendlinger ser vitimado por falhas. Ao amanhecer o Sauber #1 liderava absoluto com 4 voltas de vantagem sobre o Mazda #55. Restando 3 horas para o final era possível ver uma fumaça no Sauber líder, a quebra do suporte do alternador fez com que a correia da bomba d’água também quebrasse arrebentando o motor. Finalmente o Mazda 787B #55 chegava a ponta e lá ficaria até a bandeirada. Dos 38 carros que largaram apenas 12 chegaram ao final.

A honra de conquistar a primeira e até 2018 única vitória de uma marca japonesa em Le Mans coube a Johnny Herbert, o britânico estava tão extenuado que ao sair do carro não foi ao podium, mas sim para o centro médico. Coube ao alemão Volker Weidler e ao franco belga Bertrand Gachot representar a Mazda no podium mais importante de sua história, Le Mans 1991 foi a única vitória deste lendário modelo da Mazda.

O grande diferencial do 787B era o seu motor rotacional Wankel de quatro rotores, tal tipo de motor não possui pistões. O R26B com seu ronco inconfundível gerava 700 c.v. de potência sem qualquer tipo de indução forçada. Como engenharia não é a minha praia pedi ajuda ao engenheiro da família, meu irmão Fabiano Seixas, questionei quanto a diferenças e vantagens do motor rotacional frente ao motor tradicional:

Acredito que a vantagem em relação ao motor tradicional está no sentido de alcançar mais potência devido ao sistema de rotor triangular. Além de ser mais robusto tem inercia menor do que o sistema de eixo excêntrico biela e pistão do motor convencional. Como a inercia dele é menor, permite um giro maior sem “desmontar” o motor

Pódio sem Herbert. Fonte: Speed Hunters

Os japoneses atingiram a glória máxima do endurance com 3 pilotos que até então tinham papéis bem modestos na F1. Volker Weilder defendera a Rial em 1989, tentando classificar o carro em 10 oportunidades e não conseguindo em nenhuma delas, em 8 vezes não passou sequer da pré-classificação, na primeira vez que o fez, em Hockenheim, foi desclassificado por receber ajuda externa e na Hungria passou novamente da pré, mas não conseguiu tempo para estar entre os 26 que largariam. Johnny Herbert apareceu como a grande esperança de vitorias para os britânicos, com muito sucesso nas categorias de base, mas um acidente em Brands Hatch quase encerrou sua carreira, até Le Mans havia participado de 12 GPs tendo como melhor resultado o 4º lugar conquistado na estreia no Brasil em 1989, pilotando uma Benetton, em 1991 defendia as cores da já decadente Lotus. O caso mais curioso é o de Bertrand Gachot, cujo pai era francês, a mãe alemã, e ele nascido em Luxemburgo, mas correndo com nacionalidade belga. Em 1989 e 1990 na F1 defendera Onyx, Rial e Coloni, em 1991 ingressara na estreante Jordan, com certeza o melhor carro pilotado por Gachot que até ali tinha como melhor resultado o 5º lugar no Canadá com a Jordan. Ocorre que no final de 1990 o intrépido belga se envolveu em um acidente de trânsito em Londres e em um acesso de fúria utilizou spray de pimenta contra o taxista com o qual havia colidido, só que o porte deste tipo de artefato é proibido no Reino Unido. O julgamento final ocorreu após o GP da Hungria e Gachot, vencedor das 24 horas de Le Mans, saiu dali direto para a cadeia, abrindo espaço para a estreia de um certo Michael Schumacher, mas isso é história para outro post da série BP 365.

Cristiano Seixas

Fã hardcore de Fórmula 1, apreciador da historia, números e estatísticas da categoria, mais conhecido como Mestre Cristiano Seixas, pois é um PHD e MDA em Fórmula 1 ainda é Graduado, Pós-Graduado, Mestrado e Doutorado sobre História da Fórmula 1, Wikipedia erra o Cristiano não.

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