Dia 11 de 365 dias dos mais importantes da história do Automobilismo – 1º de Junho de 1958, Vitória de Moss/Brabham e o Fim da Supremacia Ferrarista nos 1000km de Nurburgring

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O ano era 1958, e desde a primeira etapa do World Supercar Championship, disputada em solo argentino no mês de Janeiro, a Ferrari dominava a disputa com uma certa tranquilidade. Os italianos não só ganharam as três etapas disputadas, como também colocaram dois carros em todos os pódio, enquanto a Porsche se segurava como a segunda força no pelotão e a Aston Martin sofria com diversos problemas mecânicos, sequer conseguindo levar um de seus carros até o fim das três primeiras corridas. Entretanto, a 4ª etapa do ano disputada no inferno verde de Nordschleife quebraria diversos paradigmas estabelecidos até esse ponto do ano.

Se apoiando no seu histórico recente de triunfos na Alemanha, a Aston Martin enviou três carros para a corrida, ante os quatro enviados pela Ferrari. Todavia, Tony Brooks não era o parceiro de Stirling Moss nessa etapa, mas sim, Jack Brabham, que fazia sua estréia no campeonato pela Aston Martin. O número de inscrições foi absurdo, 72 carros foram registrados, dos quais 69 conseguiriam participar das primeiras atividades de pista e 54 largariam. Os longos treinos dominaram a Sexta e o Sábado, nos quais os pilotos mais experientes como Moss e Hawthorn se destacavam. O estreante Jack Brabham ainda precisava conhecer o bólido de 3000cc e a longa pista de Nurburgring, mas para piorar ainda mais sua situação, o DBR1/300 estava sendo preservado para evitar problemas durante a prova, limitando o australiano a apenas três voltas em seus primeiros dias na Alemanha. Além disso, a verdadeira zona durante os treinos bagunçou o grid para a corrida, uma vez que os pilotos revezam os carros, marcando voltas que eram computadas para o bólido e não para quem os pilotava. Ainda que o clássico modelo run-and-jump de largada fosse utilizado, no qual o piloto corre para o outro lado da pista, entra em seu carro e larga, esses tempos imprecisos certamente mudaram a ordem dos carros para o começo da prova.

Fonte: simeonemuseum.org

Após a correria para chegar aos bólidos, Moss emergiu na liderança do pelotão dos Sports 3000, determinado a abrir uma diferença confortável na ponta, seguido pela Aston Martin de Tony Brooks, os Porsches de Schell e Behra e as Ferraris de Hawthorne e Salvatori. Enquanto isso, as duas Lotus ainda tentavam sair do grid de largada, uma delas inclusive contando apenas com as marchas acima da 3ª. Sabendo que Brabham teria extrema dificuldade por não conhecer o carro, tampouco o traçado, Moss piloto como nunca, terminando a primeira volta no inferno verde com uma vantagem assustadora, ao ponto de parecer que o inglês não tinha começado a prova com o resto do grid. Atrás de Moss, o pelotão era composto respectivamente por Hawthorn, Brooks, von Trips, Salvadori, Mairesse, Musso, Schell, Seidel e Gregory, posicionando os construtores como Aston Martin, Ferrari, Aston Martin, Ferrari, Aston Martin, Porsche, Ferrari, Ferrari e Jaguar. Após a primeira volta de prova, o palco estava montado para uma briga homérica entre ingleses e italianos.

Fonte: s-media-cache-ak0.pinimg.com

A partir da segunda de 44 voltas previstas, algumas eventualidades começaram a atingir o pelotão. Mairesse teve um furo de pneu e foi forçado a parar nos boxes, voltando em último após a troca, Brooks rodou sozinho e perdeu muito tempo, caindo para 14º e Salvadori abandonou a prova prematuramente devido à problemas de câmbio. Enquanto isso, Moss rodava na casa dos 9min 40s de cara para o vento, um tempo assombroso se considerarmos a máquina utilizada pelo inglês. Aproveitando as confusões, Behra colocou seu Porsche em 4º e Gregory operava um verdadeiro milagre ao levar sua Jaguar para a 6ª posição. Os líderes se mantiveram por algumas voltas mas Moss continuava abrindo vantagem, dando uma volta em 22 carros antes da 5ª volta.

Na volta 10, Moss entrou nos pits para entregar o carro e a enorme vantagem para Brabham, que agora tinha a ingrata missão de aprender o circuito em um carro novo enquanto uma verdadeira horda de cavalos rampantes o perseguia. No final da volta seguinte, Hawthorne já havia recuperado toda a diferença construída por Moss, passando o australiano na reta dos boxes. Na 13ª volta, Brabham trouxe sua Aston Martin para os boxes, reabastecendo, trocando pneus e devolvendo a máquina para Moss, que voltava para a pista em 3º após von Trips rasgar pela reta durante o pit-stop. O inglês logo ultrapassou a Ferrari e ainda assumiria a liderança no final da mesma volta, devido a um furo de pneu causado por puro desgaste no bólido de Hawthorne. Mike entregou sua Ferrari para Peter Collins e a caçada estava em ação novamente.

Fonte: simeonemuseum.org/

Mesmo correndo em uma sólida 3ª posição, um problema de motor tirou a Porsche de Behra e Barth da prova, enquanto isso, o 5º colocado Phil Hill enfrentava um furo de pneu, sendo forçado a colocar o reserva, que era menor em relação aos outros pneus. No começo da 17ª volta, Moss/Brabham (Aston Martin) lideravam, seguidos por Hawthorn/Collins (Ferrari), von Trips/Gendebien (Ferrari), Brooks/Lewis-Evans (Aston Martin) e von Frankenberg/de Beaufort (Porsche), sendo esses cinco os únicos na mesma volta do líder. O pelotão acalmou novamente perto da metade da prova, mas Moss ainda tentava abrir a maior vantagem possível, visto que Brabham ainda voltaria ao volante. No final da volta 22, o inglês tinha 2min15s. de vantagem para Collins, 5min35s. para a Ferrari de Gendebien e 6min39s. sobre Lewis-Evans, os únicos ainda na mesma volta do líder. 

Na 24, Brabham recebeu o carro novamente, mas dessa vez muito menos ameaçado graças a pilotagem magistral de Stirling Moss. 4 voltas depois, Collins ainda não havia ultrapassado o australiano, mas a diferença agora estava na casa dos segundos. Curiosamente, ambos os pilotos foram para o pits para a troca de pilotos, pneus e reabastecimento, proporcionando um dos momentos de mais apreensão para os pilotos, que só podiam esperar. Moss emergiu na liderança e dominou a prova com autoridade até o final. Hawthorne tentava desesperadamente alcançar a Aston Martin, mas um erro na volta 34 acabou com qualquer chance de vitória da Ferrari, permitindo que Moss relaxasse pela primeira vez desde o começo da prova.

1000km, 7 horas e 23 minutos depois, o inglês cruzou a linha de chegada em primeiro, levando uma Aston Martin à vitória em Nurburgring pelo segundo ano consecutivo e encerrando a sequência de 4 triunfos das Ferraris, que colocaram seus 4 carros nas posições restantes do Top 5. Entretanto, a corrida ainda terminaria de forma trágica. O regulamento previa que os líderes de cada categoria tinham que completar pelo menos 44 voltas, ou seja, mesmo com fim da prova para os bólidos de 3000cc, a corrida ainda tinha algumas voltas finais para as categorias mais baixas, como os G.T.s, que ainda tinham 5 na conta. Essa peculiaridade fez com que Bauer acreditasse que a prova ainda não tinha acabado para os Sports 3000 também, e em uma tentativa de ultrapassar Harry Schell, o alemão perdeu o controle do carro e não resistiu aos ferimentos, perdendo a vida após o fim da corrida. 

Os resultados colocaram a Aston Martin de volta na briga pelo título, mas o ano era mesmo da Ferrari, que sequer levou carros para a última prova do ano, após garantir o título nas 24 horas de Le Mans. Ainda sim, o dia 1º de Junho de 1958 marcou uma das pilotagens mais espetaculares da carreira de Stirling Moss, que praticamente sozinho, arrancou uma vitória das mãos da superpotência italiana. 

Fernando Campos

Brasiliense, podcaster, Team Pepsi, torcedor do Fluminense e de basicamente todos os times de Boston, além de ser dono de um talento sobrenatural para matar equipes de Fórmula 1 (basta perguntar para a Toyota, Lotus e Aston Martin, que sequer entrou mas provou do veneno). Seu habitat natural é o Twitter mas pode ser encontrado falando besteira em outros lugares também. Joga nas 11 com podcasts no Podcast F1 Brasil, vídeos no Boteco F1 e textos aqui no Boletim do Paddock, com direito a uma passadinha no Superlicense de vez nunca, além das redes sociais tupiniquins do Apex Race Manager.

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