Apesar do show brasileiro, um francês foi coroado o Rei do Rio – Dia 317 dos 365 dias mais importantes da história do automobilismo.

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Imagem comum em 1988, a McLaren na frente (Stats F1)

Uma das temporadas mais marcantes para o torcedor brasileiro e para os fãs de automobilismo teve início há exatamente 30 anos. Num ano de transição dentro da Fórmula 1, a categoria viu um dos domínios mais absurdos de uma escuderia dentro do grid, mas com um duelo marcante entre dois grandes gênios das pistas. O primeiro embate terminou com a consagração do professor que viria a ser o “Rei do Rio”, mas deixava a sensação que um forte oponente estava no horizonte.

O autódromo de Jacarepaguá recebia a categoria máxima do automobilismo naquele 3 de abril de 1988 (exatamente quatro dias antes da chegada ao mundo deste escriba que vos escreve) para a primeira etapa de um certame que seria histórico.

A primeira razão era o fato de ser o último campeonato (até 2014) em que os motores turbos seriam utilizados. Apenas Honda, Ferrari e Megatron (que era um BMW rebatizado) seguiam com os propulsores nessa configuração, enquanto a Ford Cosworth e a Judd já apresentavam unidades de potência aspiradas, que, embora mais econômicas, ainda deviam em potência.

McLaren MP4/4 Honda, uma máquina que marcou a história da F1 (Grande Prêmio)

Com essas mudanças, a McLaren emergia como a equipe a ser batida. A escuderia de Woking passaria a usar os motores Honda para voltar a ser a dominadora da categoria. Ron Dennis fez os esforços para montar aquele que seria o Dream Team da Fórmula 1. Ao lado do já vitorioso francês Alain Prost, a esquadra trazia o brasileiro Ayrton Senna para montar a dupla mais forte do grid.

Com uma dupla excepcional e o motor mais eficiente e poderoso do grid, o bólido precisava estar à altura. Para isso, Gordon Murray (egresso da Brabham, que se ausentara daquela temporada por questões financeiras) projetou o MP4/4, com conceitos similares aos dos seus últimos bólidos, com a sua “prancha de skate”.

A Lotus também se movimentava para ter uma temporada digna. Após perder Senna, a equipe investiu pesado para trazer o tricampeão Nelson Piquet. A manutenção do motor Honda (e por tabela do japonês Satoru Nakajima) era outro trunfo, embora o modelo 100T não demonstrasse uma capacidade espetacular.

Lotus em 1988: com Piquet, mas cheia de preocupações (Pinterest)

Já a Ferrari se apegava ao bom final de campeonato que teve em 1987, quando obteve duas vitórias com Gerhard Berger. A escuderia de Maranello apostava no austríaco e em Michele Alboreto para ser a principal rival da McLaren.

Por sua vez, a atual campeã Williams passava por um período de transição. Sem o apoio da Honda e na espera pelos motores aspirados da Renault apenas para 1989, a equipe inglesa tinha que se virar com os modestos Judd em um ano sem muitas expectativas. Nigel Mansell voltava após a ausência na parte final do campeonato anterior devido ao grave acidente em Suzuka e ainda precisava recuperar a forma. Ao seu lado, o experiente Riccardo Patrese.

Enquanto isso, a Benetton despontava como a ameaça mais real às quatro grandes, tendo o eficiente motor Ford Cosworth, um bom projeto de Rory Byrne, o B188, além de uma dupla promissora: o belga Thierry Boutsen e o italiano Alessandro Nannini.

O debute de Gugelmin pela March Leyton House (Correio do Lago)

No meio do pelotão, destaque para a March, simpática equipe bancada pelo grupo japonês Leyton House, que tinha o promissor modelo 188 (um dos primeiros carros de Fórmula 1 com os toques geniais de Adrian Newey) e contava com uma jovem dupla: o italiano Ivan Capelli (em seu segundo ano na escuderia) e o estreante brasileiro Maurício Gugelmin.

No pelotão, haviam três equipes novas: a alemã Rial, que contava com o patrocínio (e o risco dos acidentes) de Andrea de Cesaris; a italiana EuroBrun, com o piloto local Stefano Modena e o argentino Oscar Larrauri; e a Scuderia Italia, que tinha o apoio oficial da Dallara. Contudo, a construtora acabou atrasando na construção do carro para a temporada e teve que usar um bólido projetado na Fórmula 3000 do ano anterior(!) na primeira corrida do ano. Obviamente, Alex Caffi não conseguiu se classificar na etapa carioca.

Um carro de Fórmula 3000 na F1? Não deu muito certo… (GP Expert)

Sobre a classificação, Ayrton Senna aproveitou a oportunidade para mostrar o seu cartão de visita: com o tempo de 1:28.096, o brasileiro abocanhava a pole position na primeira prova do ano. Nigel Mansell mostrou que estava recuperado e buscava o segundo tempo, se posicionando à frente de Alain Prost. Gerhard Berger, Nelson Piquet e Michele Alboreto fechavam os seis primeiros.

O que Senna não imaginava é que o sonho da vitória em solo brasileiro começava a ruir antes da largada. O seu carro morreu no grid de largada, com problemas de câmbio. A March de Capelli também apresentou muita fumaça, por conta de falhas na embreagem. O brasileiro correu para os boxes pegar o carro reserva para relargar dos boxes (o problema é que isso era proibido na época e ninguém na McLaren se deu conta disso).

Na largada, Prost se aproveitou do espaço vago no grid e pulou melhor que Mansell para assumir a ponta. O inglês também fora superado por Berger, caindo para terceiro. Mais atrás, a estreia de Gugelmin acabava ainda na reta dos boxes, após pane na transmissão.

Enquanto Prost disparava na ponta, Senna vinha de trás engolindo o pelotão com alguma facilidade. Em apenas 13 voltas, o brasileiro já era o sexto colocado. Mais três voltas, e Boutsen era ultrapassado pela McLaren número 12. Mais uma volta, era a vez de Piquet ser ultrapassado. Até com facilidade, dada a diferença entre os dois carros.

Batalha entre Senna e Piquet. Mais acirrada só fora das pistas (Continental Circus)

Abre parênteses: a manobra foi simbólica para demonstrar que ambos se respeitavam dentro da pista, uma vez que a rivalidade entre ambos ficou bem escancarada na pré-temporada pelas polêmicas declarações (primeiro de Senna, ao falar que sumiu para que o rival pudesse aparecer na mídia; e depois Piquet ao insinuar que o compatriota não gostava de mulher [sic]). Tais declarações reverberam até os dias atuais, com os seus exageros de sempre, mas que não demonstram o que ambos realmente eram. Fecha parênteses.

As reportagens da discórdia, ambas do Jornal do Brasil, dos dias 7 e 9 de março de 1988 (Reprodução)

De volta à corrida, com o abandono de Mansell (graças ao motor Judd que abriu o bico), Senna já era o terceiro. O brasileiro fez a troca de pneus e voltou em sexto, mas enfim, a FISA tomou uma decisão sobre a troca de carros antes da largada (lembra?) e após 31 longas voltas, saiu o veredito. A bandeira preta com a placa mostrando o número 12 no posto de comando da reta dos boxes indicava que Senna estava desclassificado. Uma desilusão ao torcedor presente em Jacarepaguá.

Sem um dos favoritos e com Prost passeando na ponta, assim como Berger, sólido em segundo, a disputa estava resumida a quem subiria ao pódio no terceiro posto. Piquet precisou fazer a segunda parada, caindo para quinto, atrás de Boutsen e da Arrows de Derek Warwick.

O belga tinha problemas com sua Benetton e via o inglês e o brasileiro se aproximando. Na volta 45, o brasileiro se aproveitou e passou os dois de uma vez no fim da reta oposta, levantando a multidão. O ritmo do belga despencou arduamente, perdendo posições para a Ferrari de Alboreto e a Lotus de Nakajima, ficando fora da zona de pontos. Já Piquet conseguiria aquele que seria um dos melhores resultados do ano que poderia fazer com a Lotus, no terceiro lugar.

A coroação do Professor (Stats F1)

Nas voltas finais, Prost apenas administrou a vantagem para Berger até completar os 60 giros vencendo pela quinta vez em Jacarepaguá. Nenhum outro piloto venceu tantas provas na pista carioca pela Fórmula 1, o que levou o Professor a receber outra alcunha pelo qual é conhecido: o Rei do Rio!

Já para o torcedor brasileiro, apesar das decepções com Senna e Gugelmin e com o consolo no pódio de Piquet, o sentimento é que a temporada poderia ser bem melhor para os pilotos do país. E assim acabaria sendo ao longo do ano.

Fontes: Continental Circus, JCS Speedway, Jornal do Brasil e Stats F1

Eduardo Casola

Sou formado em jornalismo pela Uniso, torcedor do Corinthians e adoro esportes, especialmente automobilismo!

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