08 de Outubro, e a Ferrari tinha um campeão – Dia 140 dos 365 dias dos mais importantes da história do automobilismo

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Jejum [Do latim jejunu, adjetivo que tomou o lugar do substantivo jejuniu.]. Substantivo masculino. 1. Abstinência ou abstenção total ou parcial de alimentação em determinados dias, por penitência ou prescrição religiosa ou médica. 2. Estado de quem não come desde o dia anterior. 3. Figurativo: Privação ou abstenção de alguma coisa.

(Sim, eu sou velho o suficiente para ter um dicionário Aurélio físico em casa).

A Ferrari é uma das equipes mais tradicionais do esporte a motor, e sua história se confunde com a história da Fórmula 1. Com tanto tempo na competição, é natural que existam períodos de vacas magras. Mas nada foi tão dolorido quanto as décadas de 80 e 90 para a Scuderia.

Com 15 campeonatos de pilotos, o primeiro em 52, a equipe tinha ficado um período afastada do título entre 1964 (Surtees) e 1975 (Lauda). Foi estranho, mas nada comparado aos 21 anos depois do título do sul-africano Jody Scheckter em 1979. O campeonato mundial de construtores foi para Maranello em 82, 83 e 99, mas faltava um nome para os tiffosi gritarem.

Por isso o Grande Prêmio de Suzuka de 2000, agendado para o dia 08 de outubro, trazia consigo tantas expectativas. Quer dizer, por isto e por ser Suzuka.

Uma pista desafiadora, rápida, cheia de mudanças súbitas de direção e um GP que por muitos anos foi o último e o penúltimo do campeonato fizeram de Suzuka um local mítico para a Fórmula 1. Desde 1987, no primeiro Grande Prêmio que este que vos escreve assistiu na íntegra, quando uma batida durante a classificação tirou as costas de Mansell do lugar e o inglês da corrida, dando o título para Piquet, passando pelo ano seguinte com uma das melhores apresentações de Senna para tornar-se pela primeira vez campeão, por 89 e 90 com todo o rolo entre o mesmo Senna e Prost (1×1), por 91 e 92 quando, como que por equilíbrio cósmico após duas batidas infames vimos o auge da esportividade com Ayrton dando a vitória para Berger e Mansell fazendo o mesmo por Patrese. Em 98, neste mesmo circuito, um pneu furado tirou as chances de Schumacher e deu o primeiro título a Hakkinen, que seria bicampeão no ano seguinte. E chegamos ao nosso tema.

Spoiler: ele conseguiu. Fonte: Scoopnest

Os mesmos Schumacher e Hakkinen protagonizavam a disputa em 2000. O alemão começou o ano melhor, vencendo as três primeiras corridas, porém teve azar na metade do campeonato e as McLaren aproveitaram para alcançar a ponta superior da lista de pilotos e equipes até o Grande Prêmio dos Estados Unidos, em Indianapolis. Um abandono de Mika e uma punição a Couthard somadas à dobradinha da Ferrari giravam novamente a roda da fortuna, e a Scuderia retomava a liderança do mundial de construtores com 10 pontos de vantagem. Ainda mais importante, faltando apenas duas provas (e consequentemente 20 pontos) para o fim da temporada, Schumacher estava agora 08 pontos à frente do finlandês e precisava de uma vitória apenas para quebrar a maldição ferrarista.

Os nervos estavam expostos quando as equipes chegaram ao Japão. Ron Dennis, como sempre, reclamava por antecipação sobre uma possível virtual ajuda à Ferrari (ele acabaria se desculpando publicamente depois). A Bridgestone resolveu que todo mundo iria correr de pneu médio, e novamente ouviu-se choro e ranger de dentes.

A sexta-feira foi como a maioria das sextas na Fórmula 1: serviu para os mecânicos se divertirem, e só. O maior shakedown do dia foi um terremoto de 7.1 na escala Richter sentido no autódromo, mas ninguém deu muita bola para ele.

No sábado, desde os treinos da manhã Michael e Hakkinen alternavam melhores voltas, e a classificação foi eletrizante. Schumi fez o melhor tempo com meia hora de sessão, mas Mika ganhou alguns décimos e ficou à frente. O alemão voltou à pista e baixou mais o cronômetro. O tempo estava acabando, e ambos os adversários estavam na pista. O finlandês novamente encontrou um atalho uns décimos abaixo, mas a Ferrari vinha logo atrás e fez uma volta melhor. 0,009 segundos melhor, mas estes nove milésimos de tempo representaram oito metros de distância no grid. Primeira fila de bicampeões procurando um tricampeonato (sim, tinham outros pilotos disputando aquela corrida, e Coulthard largou em terceiro, Barrichello em quarto e as duas Williams na terceira fila com Button em seu primeiro ano à frente de Ralf Schumacher, mas só escrevo isso porque está no contrato, já que ninguém se importa).

Fonte: GrandPrix

O domingo chegou ensolarado porém com muitas nuvens no horizonte. Na largada, quem teve os melhores reflexos foi Hakkinen. A McLaren saltou à frente, e nem mesmo a tentativa de fechar a porta por parte do pole evitou que o finlandês fizesse a primeira curva à frente. Tinha começado a caçada. Como vinham fazendo à 24 horas (ou, melhor dizendo, o ano todo), Hakkinen e Schumacher começaram a trocar décimos de segundo, aumentando e diminuindo a distância entre seus carros. Defendendo o título, Mika estava um pouquinho melhor no primeiro stint, e conseguiu abrir 2,5s de vantagem até entrar nos boxes na volta 22. O alemão veio no giro seguinte, e após sair da garagem estava novamente em segundo, mais dois segundo atrás do líder.

Depois da corrida Schumacher disse que ele e os mecânicos fizeram alguns ajustes no carro no primeiro pit, e que isto aliado à um chuvisco que molhava bem de leve a pista lhe deu a vantagem necessária.

Com Hakkinen brigando com os retardatários (perdeu um segundo da vantagem tentando ultrapassar a Arrow de Pedro de la Rosa), um ponto vermelho veio crescendo no seu retrovisor. Os dois começaram a fatiar o grid e Schumacher quase jogou tudo fora quando bateu Roda com Roda (sabiam que existe um canal bem legal no YouTube com este nome?) com Ricardo Zonta, que espremeu sua BAR-Honda para não se meter na briga dos adultos.

Na volta 37 Hakkinen foi novamente para os pits, e então Michael fez aquilo que o tornou famoso. Com gasolina suficiente para mais três voltas, voou na pista como se fosse sábado. A pista estava escorregadia e o tráfego era o de sexta-feira 17h, mas para ele nem curvas haviam. Na volta 40, desviando de uma Benetton que rodou à sua frente, a Ferrari entrava nos boxes.

Comemorando com a galera. Fonte: Italia Vavel

“Eu não achava que tinha sido suficiente”, ele falou depois, “mas Ross Brawn estava no rádio dizendo “parece bom, parece bom!” e então ele falou “parece bom prá palavrão bipado!” Foi o momento mais feliz de toda a minha carreira.”

Se alguém tiver a paciência de olhar os tempos de volta, vai ver que ambos os pilotos fizeram a que antecedeu a segunda entrada nos boxes exatamente no mesmo tempo, que também foi igual para os dois com o carro parado. Foi na volta de saída dos boxes que a Ferrari assegurou a corrida, com Schumacher à frente de Mika e fazendo esta out lap 4,5 segundos mais rápido que a do finlandês.

#keepfightingMichael. Fonte: F1 Nation

As últimas 13 foram apenas para dar tempo dos italianos começarem a falar mais alto ainda por toda a bota, chorando, dançando e praguejando. Após a bandeirada, Hakkinen foi magnânimo: “para ser um bom vencedor, às vezes você tem que ser um bom perdedor”, disse parabenizando Schumacher. O jornal alemão Die Welt escreveu que “um sonho foi realizado e terá consequências duradouras. A Ferrari e a Fórmula 1 estão vivas novamente e um novo tempo foi criado. Trabalho duro e auto sacrifício foram recompensados”. Obviamente menos, digamos, alemão, a Gazzetta dello Sport estampou na capa “No crepúsculo de um luminoso domingo de outono a Ferrari se reconcilia com a história”. Finalmente, depois de 21 anos, um piloto da Scuderia era campeão mundial de Fórmula 1.

FORA DAS PISTAS

Se o 8 de outubro de 2000 foi marcante na Itália, o do ano 1582 passou literalmente em branco. Por causa da implementação do calendário Gregoriano este foi um dia que não existiu naquele ano. Em 1928 nascia Didi, meia sensacional das copas de 54, 58 e 62 e o inventor do folha seca. Em 1940 era a vez de Paul “Crocodilo Dundee” Hogan vir ao mundo, três anos antes do impagável Chevy Chase. E vamos terminar este texto com três acordes, pois 08 de outubro é o aniversário da guitarra e do baixo punks: Johnny Ramone nasceu em 1948 e C.J. em 1965, ambos nesta data.

Carlos Valesi

Médico, marido, pai, atleticano, roqueiro, podcaster, jogador de poker e fã de F1. Nem sempre nessa ordem.

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