03 de Novembro, e o renascimento de Crystal Palace – Dia 196 dos 365 dias dos mais importantes da história do automobilismo

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Em 1926, alguns motociclistas ingleses meio malucos liderados por Fred Mockford e Cecil Smith resolveram montar um grupo chamado London Motor Sports Ltd. Eles precisavam de um local para realizar suas corridas, e o Parque de Crystal Palace, localizado na margem sul do Tâmisa, cerca de 14 km distante do Big Ben, parecia uma área ideal. Após um bom trabalho de convencimento conseguiram autorização para utilizar os caminhos que circundavam o parque como um circuito de 1,6km, e agendaram uma prova para o dia 21 de maio de 1927. Só não esperavam que iriam atrair tanta atenção.

Passeio no parque. FONTE: motorsportatthepalace.co.uk

Mais de 10.000 pessoas apareceram para ver o evento, mesmo sendo cobrados ingressos. Tanta gente com tão pouca estrutura e velocidade são uma receita para a tragédia, e um incidente com um side car feriu vários expectadores, causando uma série de questionamentos do Parlamento britânico. A história do circuito quase foi uma breve e natimorta passagem.

Após muita discussão e um gasto total de 500 libras (equivalentes hoje a cerca de 29.000 libras, ou 127 mil reais) em barreiras de proteção, ampliação e melhoria geral do circuito e seu entorno, outra corrida foi agendada para o ano seguinte; o público cresceu 60% e nenhum incidente foi registrado. O críquete tinha agora um competidor.

Em 30 de novembro de 1936 o Palácio de Cristal, uma construção gigantesca feita de ferro fundido e vidro que deu o nome a todo bairro, ardeu. As chamas eram vistas a quilômetros de distância, iluminando o céu da noite londrina. Todo o entorno ficou danificado, incluindo o circuito, que tinha piso de cascalho. Churchill, em entrevista, profetizou “o fim de uma era”.

Mini-Nürburgring? FONTE: David Fong

Os cabeças de gasolina não desistiram. Há exatos 81 anos, em 03 de dezembro de 1936, apenas três dias após o incêndio, começaram os trabalhos para trazer Crystal Palace de volta à vida, agora pavimentado com a novidade “Panamac”, um asfalto não derrapante. O inverno britânico não foi páreo para a vontade de voltar a correr, e em apenas 05 meses a pista, agora apelidada pela imprensa inglesa como “Nürburgring em miniatura” e ampliada para mais de três quilômetros foi inaugurada – e os bólidos de quatro rodas resolveram tomar conta do lugar.

O primeiro evento foi o London Grand Prix de 17 de julho de 1937, vencida pelo príncipe Bira (sim, era um príncipe de verdade) que conseguiu uma velocidade média de quase 91km/h a bordo de seu ERA R2B. Ainda naquele ano Bira venceria outra prova no Crystal Palace, o International Imperial Trophy, uma prova histórica por ser a primeira a ser televisionada, graças ao apoio da BBC. Tudo ia bem, porém no meio do caminho havia uma guerra.

Reabertura em 1953. O pessoal estava tão feliz que rolaram até gracinhas na pista. FONTE: Klemcoll

O Ministério da Defesa inglês assumiu a região com o início da Segunda Gerra Mundial, e o parque só veria o automobilismo novamente em 1953, em um circuito reformado e agora com 2,2 km, e com uma restrição imposta pela pressão dos moradores locais e referendada pelo governo limitando os eventos a motor a cinco dias por ano. Mesmo assim, várias categorias passaram por lá, desde carros de turismo a eventos da Fórmula 3, o London Trophy de F2 e algumas corridas de F1 fora do calendário regular. A velocidade média foi aumentando gradativamente, e a primeira vez que ultrapassou a barreira das 100 milhas (160 km/h) foi em 1970. O autor do feito foi Jochen Rindt. A liminar que limitava os dias de corrida terminou e agora o circuito poderia ser utilizado durante 17 dias por ano.

GP de 1970, com Jochen Rindt prestes a quebrar a barreira dos três dígitos. FONTE: movietone.com

No entanto, a segurança do motorista estava em foco no início da década de setenta e ficou claro que correr em torno de um parque a 100 mph não era seguro. Foram realizadas melhorias caras, mas não foi suficiente para salvar o circuito. A última prova internacional foi em maio de 1972, o recorde final de velocidade registrado por Mike Hailwood com uma média de 166 km/h. A reunião final foi realizada em 23 de setembro de 1972, mas os eventos do clube ainda continuaram até o fechamento final do circuito em 1974.

Não haviam mais corridas, mas a atmosfera permanece lá até hoje. A localização do circuito tornou-se um local popular para as configurações de filmes e televisão: O ótimo The Italian Job (Uma Saída de Mestre), de 2003, filmou a cena dos testes de fuga dos Mini Cooper na reta de largada, e usou a área do paddock para rodar a cena onde uma van de segurança é “explodida”. A torre de transmissão do Crystal Palace pode ser vista no fundo desta cena. O circuito também foi usado no fenomenal filme Rush de Ron Howard, para recriar o acidente na última curva entre James Hunt e Dave Morgan. Embora o circuito não exista mais, ele pode ser conduzido virtualmente no jogo de simulação de motocross histórico Grand Prix Legends, para o qual foi recriado em detalhes.

lll FORA DAS PISTAS

Pegando o gancho final do texto, os parabéns de hoje começam para o Plystation, que foi lançado nesta data em 1994, no Japão. O piloto argentino (e iatista olímpico) Roberto Mieres quase foi o protagonista do dia, pois nasceu em 03/12/1924. Também são desta data o diretor Jean-Luc Godard (1930), e as lindas atrizes Daryl Hanna e Julianne Moore (ambas de 1960).

Ralph McTell completa hoje 72 anos, e sua música mais famosa, “Streets of London”, seria a pedida ideal para a despedida. Uma pena (para ele), que em 1948 o planeta recebia a encarnação do Príncipe das Trevas, o Madman, o Padrinho do Heavy Metal, the Wizard of Ozz, John Michael Osbourne. Não dá pra passar o domingão sem o tio Ozzy.

Carlos Eduardo Valesi

Velho demais para ter a pretensão de ser levado a sério, Valesi segue a Fórmula 1 desde 1987, mas sabe que isso não significa p* nenhuma pois desde meados da década de 90 vê as corridas acompanhado pelo seu amigo Jack Daniels. Ferrarista fanático, jura (embora não acredite) que isto não influencia na sua opinião de que Schumacher foi o melhor de todos, o que obviamente já o colocou em confusão. Encontrado facilmente no Setor A de Interlagos e na sua conta no Tweeter @cevalesi, mas não vai aceitar sua solicitação nas outras redes sociais porque também não é assim tão fácil. Paga no máximo 40 mangos numa foto do Button cometendo um crime.

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